Rompendo silêncios: mulheres negras, afetividade e solidão

Ana Cláudia Lemos Pacheco. Mulher negra: afetividade e solidão. EDUFBA, 2013.

mulher-negra_capa_siteNo imaginário popular brasileiro, perdura ainda o ditado que “branca é para casar, mulata é para f…, preta para trabalhar”. Essa construção histórica das mulheres negras afeta as suas imagens no mercado afetivo e matrimonial, já que são aquelas que menos têm parceiros(as) fixos(as) e que menos se casam. Atenta à importância desse tema, Ana Cláudia Lemos Pacheco – atualmente, professora de Sociologia na Universidade do Estado da Bahia, onde atua como coordenadora o Grupo de Pesquisa “Gênero, raça, cultura e sociedade” – o escolheu como objeto de seu doutorado, defendido na Unicamp, que se transformou, em 2013, no livro Mulher Negra: afetividade e solidão, publicado pela Editora da Universidade Federal da Bahia, na coleção “temas afros”.

Se, hoje, a discussão sobre a afetividade da mulher negra vai além da militância e se multiplica pelas redes sociais, na época em que o definiu como tema, Pacheco enfrentou várias barreiras para legitimá-lo, conforme informou em uma entrevista dada à editora que lançou sua obra. Entre tais barreiras, ela destacou duas:

Primeiro, foi tornar esta discussão de cunho afetivo e político numa abordagem científica sócio-antropológica. Segundo, foi investigar sobre um tema considerado polêmico em sua essência e questionável devido a sua problematização em torno de categorias contestatórias de gênero-raça, identidade nacional, cultura brasileira, mitos, relações de poder e sociedade.

Nessa fala, nota-se a sua contestação à ideia de que as mulheres vivenciam uma experiência única e universal, conforme defendido pelo feminismo branco de classe média e heteroafetivo. Atuante no feminismo negro de Salvador, Ana Cláudia, junto com suas companheiras, percebeu que essa ideia não se materializa na sua vivência, uma vez que enquanto aquele feminismo branco reivindicava, por exemplo, o fim da exploração da mulher via casamento, o seu movimento denunciava, entre outras questões, a solidão e a ausência de relacionamentos estáveis. Obviamente, a cientista social não pretendia igualar as experiências das mulheres negras, porém compreendeu que há pontos de contato nas suas existências. Apesar de escrever em outro contexto, a autora norte-americana bell hooks, em seu texto Vivendo de amor, evidenciou também aquelas questões quando afirma que “muitas mulheres negras sentem que suas vidas existe pouco ou nenhum amor”.

Portanto, a fim de entender essas especificidades da vida afetiva da mulher negra brasileira, a pesquisadora buscou pistas na vasta produção bibliográfica sobre a questão racial brasileira – desde as teorias do embranquecimento do século XIX, passando pelo mito da democracia racial de Gilberto Freyre e pelos intelectuais da USP, que constataram a existência do preconceito racial (algo que ainda em pleno século XXI algumas pessoas tentam negar), até chegar aos estudos demográficos da década de 1980, que foram os primeiros a associar afetividade e raça. Nesse percurso histórico, Ana Cláudia pôde observar como a comunidade negra foi sendo construída; em especial, a mulher negra. A essa mulher associaram-se alguns estereótipos – doméstica, mulata, baiana do acarajé – e comportamentos, como a hipersexualidade, a agressividade e a subalternidade. Isso a levou a questionar por quais motivos essa mulher tem menos sucesso no mercado afetivo que as mulheres de outras raças; afinal, ela queria comprovar como gênero, raça e outros marcadores sociais, como classe e orientação sexual, influenciavam nas trajetórias sociais e nas escolhas afetivas de mulheres negras. Além dessa, outra questão que visava responder é o que as mulheres negras pensam sobre a experiência da solidão.

Pacheco selecionou 10 mulheres negras soteropolitanas que se encontravam sem parceiros fixos e sem relação estável no momento da pesquisa. Elas foram divididas em dois grupos: um formado pelas ativistas de vários segmentos, como o sindical e o movimento feminista negro; outro formado pelas não-ativistas. A segmentação entre ativistas e não-ativistas ocorreu devido ao fato de os questionamentos terem emergido enquanto a autora militava no movimento do feminismo negro em Salvador.

Quanto ao aspecto metodológico, a autora utilizou técnicas de entrevistas semiestruturadas e abertas com os dois grupos, tendo conhecimento prévio de algumas histórias envolvendo as participantes do grupo das ativistas. A cientista social ressalta que o primeiro grupo optou pela narração na terceira pessoa do plural, enquanto o segundo optou pela primeira pessoa, indicando que as ativistas compreendem as suas trajetórias se intercruzando com as de outras mulheres negras. As entrevistadas dos dois grupos, mesmo aquelas que conquistaram a mobilidade social, experimentaram em sua infância a pobreza, e a maioria ingressou no mercado de trabalho pela via do trabalho doméstico; esse emprego aparece como um destino das mulheres pretas, mesmo em contextos diferentes. Exemplo disso é quando, no filme Histórias Cruzadas, a personagem Skeeter, representada por Emma Stone, pergunta à personagem Aibillen, de Viola Davis, se ela sabia que seria empregada, e esta responde que “Sim, senhora. Sabia.”

Nas entrevistas, predominou a narração sobre relacionamentos heteroafetivos. Das informantes, apenas uma do grupo das ativistas respondeu ter tido relações homoafetivas, enfrentando vários obstáculos, como a vergonha da companheira em assumi-la devido à sua raça e ao tipo de relacionamento. É importante destacar tal fato, pois, apesar de não ter sido um critério geral para escolha das participantes, Pacheco evidencia o preterimento em envolvimentos amorosos pouco lembrados quando o assunto é afetividade e solidão da mulher negra. Assim, quem fizer uma rápida pesquisa no Google provavelmente encontrará relatos, textos e vídeos focados em abordar a preferência dos homens negros por mulheres brancas ou socialmente lidas como brancas.

Essa preferência, nas narrativas das ativistas, é tida como um dos motivos pelos quais elas não conseguem permanecer com seus parceiros. Se, por um lado, elas acreditam que não são vistas como parceiras para constituir um relacionamento estável-conjugal, por outro a maioria dos homens negros, militantes ou não, quer apenas envolvimento sexual. A predileção sexual, provavelmente, deve-se aos atributos de hipersexualidade e “animalidade” associados às mulheres negras como características próprias, conforme sinalizou a pesquisadora.

Ainda em relação às militantes, Ana Cláudia escutou com frequência delas que a luta política também as afasta dos homens negros militantes: “as militantes assustam os homens” ou “eles preferem mulheres ingênuas, despolitizadas”. De maneira recorrente, portanto, eles buscavam parceiras fora do movimento. Isso acontecia porque a política elevava a autoestima dessas mulheres, produzindo nelas mais força, sabedoria e argumentos para enfrentarem os obstáculos impostos pelas articulações das categorias de gênero, raça e classe social, entre outros, nos seus cotidianos. Apesar dessa postura, elas admitiram, como forma de amenizar os efeitos da ausência de parceiro, assumir o papel da “outra” na vida amorosa.

A postura desses homens negros militantes, em relação à poligamia, pouco se diferenciava daqueles não militantes; ou seja, a figura do homem “mulherengo” destacou-se nos dois grupos analisados. Apesar disso, as marcas de gênero e classe revelaram-se com mais ênfase nas trajetórias afetivas das não ativistas, nesse caso. Elas, mesmo em situação econômica análoga à dos parceiros pretos e pobres, reclamaram do abandono do lar e dos filhos por eles. Em vista desse cenário, assumiam os papéis de mãe e de pai, assim como a chefia da casa. Já em relação ao envolvimento de homens negros e pobres com mulheres negras que ascenderam social e economicamente, a autora os associa à figura do “gigolô”. Todavia, engana-se quem imagina que elas não dimensionavam a troca afetiva e financeira, como explicitou uma das entrevistadas, ao afirmar que provavelmente seu relacionamento poderia ter durado mais se seu parceiro tivesse ofertado o afeto e carinho tão desejados por ela, pois não via problemas em assumir as responsabilidades financeiras da vida do casal.

Em seus relacionamentos com homens brancos e estrangeiros, as mulheres que experimentaram a mobilidade socioeconômica conviveram com o carinho, afeto e respeito de seus companheiros. Elas ressaltaram que entre os dois, nos espaços privados, quase não existiam conflitos. No entanto, para elas, os espaços públicos mostravam-se hostis à configuração “mulher negra com homem branco e estrangeiro” o que está sintetizado na seguinte frase, dita por uma delas: “a negra que quer se dar bem com o gringo”. Essa frase revela o racismo que estrutura as relações sociais, políticas, afetivas e econômicas, sobretudo das mulheres negras. A elas, tenta-se negar a todo momento os direitos mínimos de existência: educação, saúde, moradia, entre outros.

Sendo assim, tanto na pesquisa bibliográfica acerca da questão racial brasileira quanto na abordagem das narrativas associadas aos dois grupos de entrevistadas – o das ativistas e o das não ativistas –, Ana Cláudia Lemos Pacheco constata a existência de um processo histórico que desumaniza mulher negra, posicionando-a como um sujeito sem sentimentos, animalizada, hipersexualizada, ou seja: um sujeito que não é digno de ser amado, nem de amar. Isso difere do que ocorre com a mulher branca ou socialmente embranquecida, associada ao padrão de beleza – e, em decorrência disso, à elevação do status de quem relaciona-se com ela. Além disso, todas aquelas condições narradas pelas entrevistadas demonstram que não se pode dissociar as categorias de gênero, raça e classe ao vislumbrar a vida afetiva das mulheres negras. Ana Cláudia Lemos Pacheco apresentou um texto primoroso, que possibilitou às vozes das ativistas e não ativistas romper os silêncios impostos a nós, mulheres negras.

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