Bernardine Evaristo. Garota, mulher, outras. Tradução de Camila Von Holdefer. Companhia das Letras, 2019.

Garota, mulher, outras, de Bernardine Evaristo, conquistou a crítica no ano de seu lançamento. Ele foi eleito o romance da década pelo jornal The Guardian e recebeu o prestigiado Booker Prize, tornando Evaristo a primeira mulher negra a ser contemplada com esse prêmio.
Dos dez livros escritos pela autora, Garota, mulher, outras foi o primeiro lançado no Brasil. A obra nos conquista já pela capa, que exibe a incrível pintura Paris Apartment, da artista nigeriana Toyin Ojih Odutola, elaborada com carvão, pastel e lápis sobre papel.
O romance é dividido em cinco partes que apresentam narrativas de onze mulheres e uma pessoa trans não-binária que se entrelaçam em um acontecimento final. Amma é quem podemos chamar de personagem principal, já que funciona com um elo entre as outras personagens, pois todas possuem algum tipo de conexão com ela.
Garota, mulher, outras se passa em Londres e tem como contexto um período de tensão política após a votação do Brexit, momento no qual Donald Trump é presidente dos Estados Unidos. A partir disso, conhecemos diversas experiências de mulheres, em sua maioria pretas, que vivem situações de racismo, transfobia, frustrações, violências e crises familiares, mas que também conhecem amores, amizades e acendem socialmente.
As personagens de Evaristo não cabem em uma fórmula estereotipada; elas possuem humanidade, vivenciam conflitos entre si, têm opiniões diferentes sobre feminismo, política ou questões raciais, tomam decisões e revelam pensamentos dos quais a leitora pode discordar ou repudiar – mas que podem, num segundo momento, gerar uma identificação. A autora cria personagens complexas e profundas que mostram a pluralidade do que é ser uma mulher negra e/ou ser parte da comunidade LGBTQIAP+: elas possuem perspectivas diferentes que refletem as suas experiências individuais e contextos familiares.
São muito interessantes as reflexões sobre os conflitos geracionais entre familiares, pois cada geração possui experiências completamente diferentes de gênero e raça. No trecho abaixo, Amma, personagem com forte ligação com o movimento feminista, discordava de diversos comportamentos de seu pai, um militante socialista que não correspondia às suas expectativas. Somente após a morte de seu pai, Amma consegue entender e perdoar as diferenças políticas que tinha com ele, mas sente muita dificuldade em se perdoar por não ter feito essa reflexão quando ele ainda era vivo:
“ela não disse que tinha achado que o pai ia estar sempre ali até não estar mais e que havia mantido a mesma visão míope e hipócrita dele desde a infância até a sua morte, quando na verdade ele não tinha feito nada de errado a não ser ter falhado em viver de acordo com as expectativas feministas dela”
Mais tarde, o mesmo conflito acontece entre Amma e sua filha adolescente Yazz, que vive experiências de gênero, raça e classe completamente diferentes, pois além de nascer em outra época, usufrui dos privilégios financeiros adquiridos com a ascensão dos pais.
“nem a filha que ela criou para ser feminista se define assim ultimamente feminismo é coisa de manada, Yazz disse, para ser sincera mesmo ser mulher é ultrapassado hoje em dia, tivemos um ativista não binário na universidade chamado Morgan Malenga que me abriu os olhos, acredito que nós todos vamos ser não binários no futuro, nem homem nem mulher, que, de qualquer forma, não passam de performances de gênero”
O livro, em sua maior parte, é ambientado em Londres, mas a escrita de Bernardine Evaristo ultrapassa as barreiras, sendo impossível não se identificar com pelo menos uma personagem ou situação vivida por elas. Yazz, por exemplo, é uma personagem que apresenta diversos medos da minha geração, que está na casa dos 20 anos; a preocupação em não conquistar o emprego ideal, a insegurança de não conseguir comprar uma casa e precisar morar na casa dos pais para sempre, a consciência de que sofremos com os erros das gerações anteriores e até mesmo o medo pelas consequências da destruição ambiental.
Outro assunto que torna o livro único é a abordagem sobre abuso e violência em um relacionamento sáfico; o tema é normalmente protagonizado por casais heterossexuais, mas Bernardine muda esse cenário e dá voz a mulheres descredibilizadas por serem violentadas por outras mulheres. Dominique, a personagem vítima de violência doméstica, não possui uma personalidade nada frágil e, ainda assim, não entende como sair dessa relação com Nzinga, que a violenta de forma psicológica e física. Essa narrativa é muito importante para romper com o estereótipo acerca de relações abusivas e violentas e desmontar a visão da vítima como uma pessoa fraca e submissa.
Bernardine Evaristo possui um estilo de contar histórias marcante: sua escrita é poética, com versos livres, letras minúsculas e sem pontos finais. Sua obra é uma aula de originalidade e a experiência de leitura é inesquecível.
Garota, mulher, outras foi um livro lido por mim em 2021, mas as histórias e a escrita de Evaristo nunca saíram da minha cabeça. Suas personagens são tão envolventes que senti saudades ao terminar e as mais de 400 páginas não foram suficientes para tornar a leitura cansativa; por isso, realizei uma releitura esse ano e tenho certeza de que lerei novamente o livro no futuro.

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