O caderno-confessionário de Maria das Dores


Márcia Silveira. Dona das dores. Urutau, 2023

A importância da escrita na vida da escritora Márcia Silveira atravessa seu primeiro romance, publicado em 2023 pela Editora Urutau, intitulado Dona das Dores. Maria, a personagem central da obra, usa a escrita de sua própria história como artifício para preservar a memória e constrói um memorial de uma vida difícil, com muitos arrependimentos e um grande segredo não revelado a ninguém – mas Maria confia suas dores às letras e eterniza sua história nelas. A resenha de hoje vai ser dedicada a essa obra instigante, que apesar de ficção, é espelho de muitas histórias reais.

“Queria melhorar de vida não só por mim, mas para poder ajudar meu tio, minhas primas, meu avô e, talvez, outros familiares.”

O abandono encontrou Maria já nos seus primeiros anos de vida. Com a morte de sua mãe e o sumiço do seu pai, a personagem foi criada pelos avós paternos. Ainda muito cedo, Maria também conheceu a hostilidade – apanhava, era maltratada e foi impedida de continuar os estudos para além da terceira série, sob pretexto de que “Não precisa aprender muita coisa pra passar a vida colhendo milho”. O que seus avós tentavam cultivar com a educação dada a Maria era a manutenção de sua condição social e dos costumes daquele lugar. Apesar disso, já bem menina e convicta de sua própria força, Maria decidiu que não seguiria aquele roteiro.

Quando se fala desse tipo ruptura, em geral, somos levadas a crer que um dos principais caminhos para isso são os estudos. Dar início a uma graduação, concluir o curso e conseguir melhores condições de trabalho são passos que garantem uma verdadeira mudança na história de muitas pessoas. No entanto, o racismo estrutural afastou de Maria a chance de seguir seu caminho pelos estudos na infância e no início da vida adulta, e isso também impediu uma verdadeira transformação de sua condição social.

Maria buscou romper com aquilo que a avó desenhou para ela, mas por fim seguiu outro roteiro sustentado pelas raízes da escravidão: a exploração da mão de obra infantil. A personagem fugiu aos 12 anos para trabalhar como empregada doméstica e concretizar os próprios sonhos, com a ajuda de seu Tio Mauro e de suas primas — com quem o pouco convívio não anulou a existência do afeto. Com o pouco dinheiro que garantia, conseguia ajudar seus familiares, mas vivenciou episódios de trabalho forçado, sem remuneração e sem descanso. Ela havia se livrado da hostilidade dos avós, mas não escapou da crueldade daqueles que insistem em se beneficiar da vulnerabilidade de jovens negras com pouquíssima estrutura familiar.

O sonho de Maria era mudar a própria condição social e a da família. A meu ver, além de toda a sua trajetória, o fato de Maria lutar para melhorar as condições de sua família não é novo e não se justifica apenas pelo compromisso com aqueles com quem dividimos os nossos sobrenomes, mas também pela alegria de ter o poder de mudar a vida daqueles que nem mesmo imaginavam que tal mudança seria possível. Quem sempre teve pouco, deseja ter o suficiente para dividir. Concluo isso a partir de minhas memórias, a partir de diversos relatos que ouço e da minha própria vontade de romper com as estruturas em que fui inserida sem deixar os meus para trás. O sonho de Maria atravessa gerações e rompe paradigmas. 

“Naquele instante me veio a memória da infância e de tudo de ruim que tinha acontecido, e senti esperança de uma forma diferente, forte, como se um futuro melhor fosse algo real e quase palpável.”

Com relatos construídos da infância até os últimos momentos da vida de Maria, a obra de Márcia escancara a realidade de muitas mulheres negras com trajetórias semelhantes às da personagem. Nos anos 60, Maria sai do Piauí para o Rio de Janeiro, acompanhando a família para quem trabalhava e cultivando esperanças de uma vida melhor na cidade grande. Apesar das violências que viveu, Maria relata bons momentos de sua história, que foram essenciais para a permanência da fé nos próprios sonhos.


Maria, desde a sua infância, sonhava também com um casamento exemplar. Para ela, o casamento com um parceiro de poder financeiro elevado também poderia ser a porta de entrada para a sua vida dos sonhos e do seu próprio poder. Para garantir isso e também caber nos padrões sociais do pretendente, Maria, uma mulher negra, nordestina, com cabelos crespos, decide alisar o cabelo, imbuída de crenças que mais tarde serão dilaceradas pela realidade. Essa atitude reafirma o pensamento de que a identidade negra precisa ser apagada para que o ser negro possa exercer o direito de ir e vir sem que o amargo do racismo e da opressão atravesse nossos dias nos locais majoritariamente brancos. É um caso dos anos 60 que ainda pode ser relatado hoje.

À medida que a narrativa se desenrola, Maria não esconde sua carga de arrependimentos.  Suas decisões e as limitações de um casamento pautado por um controle do corpo feminino são mesclados e imprimem no coração de Maria uma elevada carga de culpa – incluindo o seu segredo. A personagem desenvolve seus relatos de maneira a nos transportar para o seu íntimo e ao longo da narrativa passamos a nos relacionar com sua história, pois lembramos das nossas avós, das nossas mães, das nossas tias e de nós mesmas. É uma obra que nos instiga do início ao fim e provoca cada vez mais a nossa curiosidade sobre os episódios da vida de Maria. 

Torcemos por ela. As violências vividas por Maria Das Dores tiveram como fim minar pouco a pouco a essência de sua existência. Apesar de fictícia, a obra retrata a história de muitas outras que, com a construção desse caderno-confessionário, foram vingadas pela literatura, pois serão para sempre vivas!

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