Um futuro para Gata Garota

Patrícia Alves. Gata Garota: da mente pro mundo. Ecos, 2022.

A escritora Patrícia Alves, autora do livro resenhado neste texto, possui uma longa trajetória acadêmica e profissional. Ela é professora de Ciências da rede municipal do Rio de Janeiro, bióloga marinha e atua na vigilância sanitária do município de São João de Meriti. Além disso, é doutoranda em Ambiente e Sustentabilidade na Universidade Nova de Lisboa.

Sua experiência como educadora e pesquisadora se reflete diretamente em sua escrita. O livro narra o cotidiano de Gata Garota, uma adolescente que, em meio às adversidades de crescer na pobreza em uma cidade como o Rio de Janeiro, aborda temas comuns, e outros que deveriam ser incomuns, para jovens de sua idade. A narrativa transita entre as aulas escolares e a violência das ruas, passando por um episódio traumático que Patrícia revela ter sido a motivação para escrever a obra:

“Uma aluna, uma bela adolescente de apenas quinze anos, com todo um futuro pela frente, faleceu, levando consigo seu bebê ainda em seu ventre. Foi um dos momentos mais dolorosos da minha vida. […] E veio a ideia de retratar o que senti sob a ótica de uma adolescente de baixa renda.”

Dessa experiência nasce a narradora Gata Garota, personagem que traduz a sensibilidade e a indignação da autora diante da dura realidade social e educacional brasileira. Um dos trechos que mais me impactou, como estudante de Licenciatura, foi o comentário feito pela personagem principal sobre uma aula de Geografia:

“No dia seguinte, quem aguenta assistir à aula chata de Geografia? América Latina, espanhóis, portugueses… Na moral, pra que eu quero saber disso?”

Essa fala reflete a distância entre o conteúdo escolar e o cotidiano dos alunos, questão amplamente discutida em pesquisas sobre representatividade negra e práticas pedagógicas. Esse trecho me atravessou profundamente, pois muitas vezes buscamos aproximar os conteúdos da realidade dos estudantes mas, ainda assim, acabamos falhando.

A obra segue explorando essa tensão entre o ensino e a vida real dos alunos, mostrando que as dores e desafios enfrentados não se limitam à sala de aula. No livro, há um episódio perturbador: Cris, uma das alunas da escola onde a história se passa, falece aos 13 anos após uma possível complicação na gravidez. Em um dos trechos, a professora questiona: como ela, ensinando Geografia, História, Matemática, Português, Ciências, poderia ensinar aos alunos que eles precisam se manter vivos e lutando pelos seus sonhos?

Esse trecho doloroso revela apenas uma pequena parte da angústia de enfrentar as mazelas sociais presentes no ambiente escolar. Gata, por sua vez, em meio ao luto, expressa não compreender totalmente o que a professora quis dizer, mas reconhece que ela se importa com seus alunos, evidenciando o vínculo afetivo e o comprometimento pedagógico presente na obra.

À medida que o enredo avança, percebe-se que a escola não é o único espaço de luta. Em casa, Gata enfrenta grandes dificuldades, especialmente no relacionamento com a mãe, que a despreza por meio de ações e comportamentos. Entretanto, também há no livro fragmentos que mostram que sua mãe sofre violência doméstica e que o pai é dependente alcoólico, reforçando o ciclo de vulnerabilidade social que afeta toda a família.

Diante desse panorama, meu comentário final sobre a obra é que ela expõe o quanto é desafiador lidar com a realidade da educação básica no Brasil, mas também aponta um caminho possível — e ele passa por uma palavra poderosa: empatia. Mesmo diante de tanto desinteresse, a “fessora” poderia ter adotado uma postura autoritária, como tantos professores que afirmam em coro que seus alunos jamais alcançarão nada. Contudo, como a própria Gata afirma:

“Pensei, escola não é tão chata, né? Tem coisa boa, a gente aprende umas coisas legais né? Quando a fessora consegue fazer a gente comparar o que a gente aprende com o que tem na vida, fica legal”

Essa reflexão final sintetiza o poder transformador do ensino quando há conexão entre o conteúdo e a vida dos alunos. O universo da Gata, da “fessora”, de Patrícia e de tantos outros personagens merece ser conhecido, pois entrega um desfecho marcante. Mesmo após a leitora conhecer todas as dificuldades da protagonista e sua trajetória em busca de encanto pelo aprendizado, a autora não encerra a narrativa, mas convoca a leitora a escrever o desfecho:

“Essa pode ser a sua história também […] Não tenha medo de sonhar!”

Assim, o meu final para Gata seria vê-la ingressar em um Instituto Federal no ensino médio, onde, através de projetos diferenciados, passeios pedagógicos e experiências em laboratórios e pesquisas, ela se sentisse plenamente capaz de cursar uma universidade. Que ela e tantas outras crianças, jovens e mulheres negras possam sonhar e realizar seus desejos em plenitude, sem que nenhuma estrutura as limite.

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