“A poesia, toda prosa” de Noêmia Duque

Noêmia Duque. Prosapoesia: poemas e canções. Salvador: Cogito, 2017.

noResidente no Rio de Janeiro há pouco mais de vinte anos, a soteropolitana Noêmia Duque é licenciada em Letras, compositora, cantora, bailarina, cronista e poeta. De todo esse universo de adjetivos que a compõe, o que mais nos interessa hoje é o de poeta. Na orelha do livro ProsaPoesia: poemas e canções, objeto de análise desta resenha, o escritor Jorge Salomão diz que os poetas “devem existir para espalhar luzes, abrir caminhos, armar pontes, gerar poentes, não serem conformados com as estruturas atuais do pensamento”. A presença dessa citação no livro de Noêmia não foi em vão, obviamente, mas destaco este fragmento, dentre outros que ali estão, porque considero ser a essência dessa compilação de poemas: os versos de cada um deles espalham luz e abrem caminhos, nos mostrando um horizonte com outras formas de ser e de sentir. O poema de abertura – homônimo à obra –, faz uma síntese do que essa poesia desperta em quem a lê:

A poesia, toda prosa,
não tem hora p’ra chegar
Lépida, fagueira, intrépida,
adentra a casa da poeta

Com seus sons,
odores, cores,
formas infinitas,
a bailar,
no ar

Esse caráter lépido e intrépido da poesia que adentra a casa do eu lírico se assemelha ao que se sente quando, durante a leitura dos seus versos, sentimos a sua entrada em nossa casa, nossa alma – eis aí um primeiro ponto de conexão entre leitor e eu lírico. O ritmo, a melodia e as imagens projetadas pela obra poética são elementos finitos que auxiliam na composição de poemas aparentemente pequenos, mas que reproduzem “formas infinitas” que se apresentam e se representam diante de nossos olhos. Talvez a palavra “amplidão” consiga dar conta da magnitude dos versos de ProsaPoesia. Isso já se nota logo de início, na belíssima imagem que compõe a capa da obra. É um corpo que abriga outros corpos, outras vivências, cada qual manifestada por uma expressão diferente. Em Amor de Poeta – dedicado a Jorge Mautner –, a persona poética de Duque diz que “A inspiração do poeta não tem dono/ Canta contos, encontros, desencontros / A inspiração do poeta não tem ganhos / Ao poeta não pertencem os louros da glória / Nem cantos de vitória / Ao poeta cabe apenas / O registro da estória”. Esses versos se apresentam como uma representação desse eu lírico continente, repleto de múltiplas vozes e vivências que são transpostas para a poesia, reafirmando essa ideia de amplitude poética.

Embora boa parte dos versos tenha uma estrutura relativamente sintética, cada fragmento lírico traz consigo uma profusão de sensações, sentimentos e reflexões. A concisão é uma das principais características formais da obra, porém isso não diminui a qualidade dos versos, ao contrário: a beleza está concentrada na capacidade do eu lírico de se expressar através de poucas palavras e de fazer a leitora mergulhar nesse lirismo reflexivo. São temas diversos que percorrem o livro: fala-se do amor em sua totalidade (do amor-paixão à admiração amiga), como em Experimentando o Amor; da ancestralidade, como em África ao Mar e Judas das Américas; dos reflexos da escravidão, como em Correria; de uma situação política vergonhosa, evidenciada em Corrida Presidencial; da situação da mulher como em Mulheres veladas, Mães Pretas e Foco, força e feminilidade; das falsas verdades normatizadoras, expostas em Abaixo a ditadura das verdades, entre outras temáticas interessantes. São poemas que expõem a vivência através da prática, uma vez que, nas palavras do eu lírico, “A palavra é tudo/ Escreve o mundo/ Confisca o fundo”. Arrisco-me a dizer que o elo de ligação entre temáticas tão diversas é o fato de que retratam a experiência cotidiana da existência, a nossa capacidade de existir e resistir diante do espetáculo da vida, especialmente sob a ótica feminina e negra.

No prefácio do livro, o jornalista Ivan de Almeida fala sobre o fato de que a obra deve ser lida em alta voz, devido à sua riqueza sonora. De fato, os poemas de Noêmia são uma exaltação à musicalidade poética. Seus versos são repletos de aliterações e assonâncias, construindo um fluxo de leitura agradável, fluido, impossível de ser lido em voz baixa. Somado a isso, boa parte das estrofes são formadas a partir de rimas paralelas ou intercaladas. Outro aspecto que merece destaque é a pluralidade formal: cada poema tem sua configuração própria e esquema rítmico particular; destaco como exemplo os versos de Quando o som do amor chegar, único poema do livro que possui um refrão:

Quando o som do amor chegar
Quando o som do amor chegar

As estrelas vão sorrir,
as crianças vão brincar,
todas juntas reunidas,
em torno de Yemanjá

Quando o som do amor chegar
Quando o som do amor chegar

O poema em destaque enaltece uma sensação de união e paz a partir da chegada do som do amor. Essa sensação é apresentada à leitora não apenas pelo conteúdo, mas também pelo ritmo cadenciado dos versos. Além disso, vale salientar o poema imagético Naturato, composto por apenas oito palavras dispostas no papel, que se repetem e se combinam – reatualizando um estilo concretista –, para expressar a naturalidade do amor.

Em suma, a obra poética que está sendo analisada é extremamente rica. Não afirmo isso apenas pela pluralidade temática e formal comentadas nos parágrafos anteriores, mas também pela potencialidade crítica e reflexiva que esses poemas têm, especialmente sobre o que implica se reconhecer como mulher e negra. Não se termina a leitura de ProsaPoesia indiferente às questões tocadas pelos seus versos. A tendência é que o nosso sentimento de resistência diante das adversidades da vida cresça ainda mais. Por mais fortes que sejam os temas, tudo é tratado com leveza, sem perder a oportunidade para espelhar a experiência do ser. Por fim, considero que a poesia de Noêmia é símbolo de esperança e alegria no meio do caos: seja qual for o momento, de alegria ou de dor, sua “poesia brotará/ que nem flor”.

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