Uma professora preta: diálogos entre corpos coletivos na escola

Para Hosana e Ana Caroline

anagreice

UM PRÓLOGO*

Transito entre uma linha que liga dois campos de conhecimento, a arte e a educação. Tento me equilibrar, muitas vezes sem sucesso, entre dois campos que nem sempre dialogam amistosamente; quando não, a porrada come!
A linha fica mais embolada, meu lugar de implicação é aquele no qual é impossível evitar ouvir afirmações da seguinte ordem:

A escola é uma droga. A escola pública é uma droga. A escola pública popular de espaços periféricos é uma droga.

Trabalho, portanto, com uma droga pesadíssima e a barra não é menos leve. Tráfico de informações, trânsito de coletivizações, colisões, fricções e contaminações culturais, mobilizações de afetos, produção de saberes e de contrassaberes. Em decorrência desses aspectos, somos sempre avaliados e julgados; alguns dos nossos críticos apostam que somos culpados, que o crime é hediondo: castramos, tolhemos, excluímos, negamos, vivemos de adoecer o outro. A imagem é assustadora!
Grande parêntese: narrativa jornalística do crime.
Mesa com jovens escritores, em grande evento literário, comentando suas obras:

Jovem autora: – A escola não trabalha com autores contemporâneos! Só professores muito especiais fazem isso!
Alguém ergue a mão da plateia: – Oi! Eu sou professora! Fiquei feliz quando você disse isso porque me senti elogiada. Eu trabalho com jovens autores, inclusive levo, quando possível, os autores à escola. Gostaria de saber se você vai à escola participar de debates sobre sua obra?
A jovem autora: – Então, eu sou frequentemente convidada para ir às escolas. É sempre muito legal. Parabéns!
O outro autor que compõe a mesa diz que naquela manhã havia visitado uma escola pública onde seus livros infantis eram utilizados.

Antes fechar os parênteses, afirmo: o senso comum sobre a droga da escola é tão profundo que a crítica que se faz a ela vem sem a carga da vida vivida, ou seja, da experiência densa da vida que a escola vive e faz viver. Na perspectiva da crítica à distância, qualquer possível experiência de contrassaberes e de tudo mais que a escola também cria não pode ser compreendida. Não houve nenhuma mesa assistida por mim neste evento em que a palavra EDUCAÇÃO não tenha sido proferida. Ora com uma carga negativa; ora exigindo dela uma esperança, uma redenção social, como se esse campo sozinho pudesse transformar todo panorama altamente complexo dos cotidianos atravessados por questões econômicas e socioculturais. É muita esperança para uma droga só! A droga estava na boca “dos homi” da classe média branca hetero e cis. Marcas determinantes dos seus discursos. Os traficantes não vão dar conta!
Fechei.
Diante de tanta falação me pergunto:
Como entender, problematizar, tensionar, buscar outros caminhos, falar da escola pública, sem em nenhum momento dela ter saído? Viver os problemas estruturais e conceituais que se carrega e ao mesmo tempo, toda a potência que os espaços diversos, multiculturais e democráticos apresentam? Ser pesquisadora-praticante, estar mergulhada desde sempre nos problemas em que aqueles que fazem a escola viva sempre estiveram… é um desafio. A chapa é quentíssima. E o bonde não para.
Ando me arriscando por essas vielas, nos rastros de tinta, pigmentos vistos como sujeira, “sujeira também é pigmento”, me formando no encontro com outros corpos como o meu.

TRÊS HISTÓRIAS EM UMA

“Tem sempre aquele que vai te chamar de macaca… (…) É muito mais difícil ser negra”
Larissa Cristina, 14 anos

Assumindo o lugar de complexidade que a escola ocupa a partir das narrativas sobre a escola, esse texto é um relato de histórias que se atravessam e se unem a partir da percepção de como o racismo e o machismo atingem as histórias de meninas negras na escola.
O que faz uma professora negra na escola, no encontro de tantos corpos como os seus?
As histórias que atravessam crianças e jovens das escolas públicas e seus professores, as falas-imagens que tecem coletivamente esse espaço, a aposta de que práticas de escuta e ação com os estudantes acabam por criar, de forma dissidente, uma outra escola, em movimento contínuo de força e contra força, essas experiências revelam o poder de uma educação que se propõe dialógica e libertária.
Recorro às minhas próprias memórias para falar, a partir da perspectiva oposta, da ausência de uma professora negra que assim se apresentasse. No primeiro segmento do Ensino Fundamental passaram por mim professoras que me estimularam a desenvolver minha habilidade de desenhar, sempre carinhosas, elogiavam meus desenhos e até brigavam quando eu, fazendo charme, não desenhava. Nenhuma delas negra. Nenhuma que tenha percebido em meus desenhos as meninas brancas que eu desenhava. Eu me desenhava adulta como uma mulher branca.
Mais de vinte anos se passaram, as questões raciais tomaram mais força e visibilidade, principalmente com a aprovação da lei 10.639/03, e eu continuei a encontrar meninas negras e suas representações brancas. Como essas narrativas e representações juvenis, separadas por gerações, ainda se encontram a partir de algumas noções de “Ser mulher”, “Ser mulher negra”, “preterimento”, “cabelo”, “beleza”. Até hoje guardo um desenho que fiz. Uma menina loira, classe média, e seu namorado igualmente branco. Paramos de contar essas histórias?
A minha vivência, junto com a de tantas amigas, alunas e conhecidas, é de que a solidão da experiência de ser negra, ao ser compartilhada, muda a maneira como nos pensamos, agimos e amamos. Ver o balançar das cabeças no sentido de afirmação e concordância quando se leva imagens que dialoguem com corpos como os seus/nossos age como um reforço positivo de que a existência não é deslocada, errada ou invisibilizada.
Afirmar a ideia de corpos coletivos na escola é justamente pensar que o diálogo, em específico com meninas negras, vem da identificação e autoidentificação das narrativas que essas jovens trazem em seus corpos.

“Eu amo ser negra. Mas para algumas pessoas é mais difícil aceitarem que eu sou negra, do que pra mim mesma. (…)A escola deveria ajudar a combater o racismo. Mas a escola é o lugar, para pessoa negra… Eu por exemplo, eu não gostava de ir à escola quando era pequena, a escola era um sofrimento. Eu não gostava de ir para escola. Desde de pequeno eles reforçam os padrões, quando você chega na escola, aqui nessa escola não, aqui tem muitas pessoas negras que eu posso me identificar.(…) Dia do consciência negra, ok!, mas no resto do ano, visibilidade zero, tá lá a criança negra sozinha.”
Ana Caroline, 15 anos

Como disse anteriormente, esse texto vai em direção ao pensamento que acredita que a escola e suas práticas não podem ser reduzidas a avaliações que não levem em conta a cultura da juventude que a habita.
As narrativas que se atravessam, que dizem do que senti e vi, nos mostram que existem possibilidades de histórias de alguns dizerem de tantos. Sou comprometida com minha história, porque sei que ela diz de tantos que vieram e de muitos que virão.

* O fragmento “prólogo” é parte da pesquisa FALASIMAGENS: CORPO, VISUALIDADES E SABERES NO COTIDIANO DE UMA ESCOLA PÚBLICA POPULAR.

Sobre a autora

IMG_20190306_092748089Mariane Travassos dos Santos é professora de artes plásticas em SME/PCRJ e PMDC e integrante do Coletivo Piracema.

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