A música como (re)existência

Larissa Ibúmi Moreira. Vozes transcendentes – Os novos gêneros da música brasileira. São Paulo: Hoo editora, 2018.

51Tzmx3nxELLarissa Ibúmi Moreira é uma historiadora mineira negra, graduada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), e lançou em agosto de 2018 Vozes transcendentes – Os novos gêneros da música brasileira, livro protagonizado por catorze artistas que representam um novo cenário da música brasileira: a MPBeau, como eventualmente a denominam, alegando que beau – bonita – seria a forma como se chamam mutuamente. São: Raquel Virgínia, Assucena Assucena, Rico Dalassam, Liniker, São Yantó, Linn da Quebrada, Tiely, Luana Hansen, Jup do Bairro, Tássia Reis, Erick Barbi, Luedji Luna, Paula Cavalciuk e Johnny Hooker.

O livro é construído a partir de catorze entrevistas orais – metodologia da História Oral, como diz a autora –, que foram transcritas sob a forma de catorze crônicas, narradas em primeira pessoa. Essa opção de narração em primeira pessoa – justamente por estarmos falando de sujeitos, majoritariamente, LGBTQIs, sujeitos estes que são de todas as maneiras invisibilizados – torna-se uma ferramenta para dar a voz a esses sujeitos, oferecendo a possibilidade de contarem suas próprias histórias.

Estabelece-se uma relação entre esse novo cenário musical e o Tropicalismo – movimento de ruptura na música e cultura brasileira, ocorrido em finais dos anos 1960 –, por buscarem desconstruir algumas ideias firmadas e mantidas pela sociedade acerca do gênero e da sexualidade. É evidente que há uma distinção política e social entre esses momentos, até pensando na era da internet: se nos anos 1970 a performance subversiva de Ney Matogrosso não alcançava o país inteiro, nos anos 2000 temos uma ferramenta que disponibiliza vídeos que podem ser vistos pelo mundo inteiro. A exemplificar isto, temos o show da Liniker – mulher trans negra – e do Johnny Hooker – gay cis – no Rock in Rio de 2017, em que cantam a canção “Flutua”, composição de Hooker, e se beijam ao final da apresentação. Sintam esse trecho:

O que vão dizer de nós?
Seu pais, Deus e coisas tais
Quando virem rumores
Do nosso amor

Baby, eu já cansei de me esconder
Entre olhares, sussurros com você
Somos dois homens
E nada mais

O que se percebe sobre esses movimentos de subversão, como é o caso do Tropicalismo, é que eles abriram um caminho, amassaram a terra, tornando possível o cenário musical sobre o qual estamos discutindo, como reconhecem quando falam com orgulho de suas inspirações, como quando Assucena Assucena – mulher trans – afirma: “Foi revolucionário ouvir Gal!” ou quando Jup do Bairro – trans não binária negra– pondera:

Temos que cair cada vez mais pesado, mas reconhecendo os corres que fizeram para que nós chegássemos até aqui. Por mais que esse movimento todo pareça novo […] não podemos cair na cilada de achar que somos exclusivas. Estamos falando hoje, porque antes houve muito sangue e muita morte para que pudéssemos construir a nossa história.

O prefácio do livro é feito por Renato Gonçalves – pesquisador de canção popular, comunicação e psicanálise, da USP –, e em uma dada altura ele também estabelece uma aproximação entre esse passado (historicamente ainda recente) com o presente para observar que as questões LGBTQIs já faziam parte dos versos da MPB, exemplificando com a figura de Geni – protagonista da canção “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, que narra a história de uma travesti prostituta, totalmente hostilizada pela cidade em que vivia. Partindo deste ponto, traço um paralelo com uma fala da própria Ibúmi em uma entrevista, em que diz que “Hoje não tem alguém cantando a Geni, hoje a Geni está cantando no palco!” – e isso é sobre protagonismo; é sobre ocupar espaços com as existências mais diversas; é sobre dar a sua voz para narrar a sua história.

Percebemos alguns pontos de encontro entre essas trajetórias artísticas: a migração rumo à grande São Paulo e a dificuldade em se manter nessa cidade cosmopolita; a dificuldade – que associa questões raciais, de gênero, de classe e de sexualidade – encontrada para ascender através de suas artes; ou a concepção de música como meio de existir, resistir e questionar o meio, como é o caso da música “Flor de Mulher”, da Luana Hansen – lésbica cis negra -:

(A cada duas horas uma mulher é assassinada nesse país)
Mulher, no topo da estatística
32 anos, uma pobre vítima
Vivendo num sistema machista e patriarcal

A partir do contexto de composição dessa música, podemos pensar de modo preciso na noção de interseccionalidade, porque ela surge como resposta à música “Trepadeira”, do Emicida, cuja letra é explicitamente machista; assim, podemos afirmar que o fato de ele ser oprimido socialmente pela questão racial não o isenta de ocupar a posição de opressor em outras situações; inclusive, Hansen afirma que foram homens como ele e Mano Brown, figuras influentes do rap, que mantiveram as mulheres escondidas para o hip-hop:

Se não tivemos espaço no movimento é porque, por muitos anos, os homens não quiseram que tivéssemos esse espaço. Só conseguimos espaço com muita luta, e isso não pode ser esquecido. Pedimos para o Emicida deixar de cantar “Trepadeira” e ele se negou, defendendo-se o tempo todo. A resposta dele foi de que eu era ignorante em estar vendo machismo naquilo. Disse que a música era uma brincadeira e que, se ele é machista, a culpa é da mãe dele, porque foi criado por uma mãe solteira.

Tenho a sensação de que era impossível que Emicida se mostrasse mais machista nessa postura, principalmente ao finalizar sua fala culpabilizando uma mãe solo por suas atitudes opressoras; uma mulher que, sozinha, criou um filho para suportar as agruras trazidas pelo racismo.

A solidão atravessa esses corpos em intensidades diferentes. Para Assucena Assucena – mulher trans –, “O afeto é sempre uma questão para uma mulher trans. Nossas experiências sexuais são carregadas pela marca do escondido, da perversão, às escondidas; para Liniker, “[…] meu amor é lugar de espera. Ser mulher trans negra é passar por situações nas quais as pessoas não chegam em você. Ou quando chegam, é para sexualizar, para objetificar”, o que nos devolve à ideia de interseccionalidade; e, para Linn da Quebrada – mulher trans negra –, “A transfobia gera solidão. As pessoas se negam a se relacionar com você […] aprendi pouco a amar, justamente por não ser amada. Tanto que não gosto muito da palavra amor, porque está tão veiculada a uma ideia de pré-concebida de se relacionar”. E percebemos como essas emoções atravessam suas composições, como em “Remonta” – fruto de um amor da adolescência –, da Liniker:

Como se não bastasse a guerra também
De te ver todo dia, meu bem
Tem o dissabor dessa ferida, tem
Que germina na pele e insiste em ficar
Tem o dissabor dessa ferida, tem
Que germina na pele e insiste em ficar

A (re)existência desses sujeitos se dá na ocupação desses espaços porque, como disse Elza Soares na orelha deste livro, “A função do artista é questionar seu tempo”; é denunciar em suas composições as violências causadas pela sociedade, com o aval do Estado – recordemos que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), no dia 22 de maio de 2019, criminalizou a LGBTfobia, com exceção para templos religiosos, leia-se: está liberado ser LGBTfóbico nas igrejas; é alinhar discurso e práxis; é, sempre que se sentir massacrado pelos meios de comunicação, reproduzir o questionamento da grande Nina Simone: “como ser artista e não refletir a época?”
Por fim, não esqueçamos: O BRASIL É O PAÍS QUE MAIS MATA TRAVESTIS E TRANSEXUAIS DO MUNDO!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: