Memórias de Carolina

Carolina Maria de Jesus. Diário de Bitita. Nova Fronteira, 1986.

“Minha mãe ficou com dois filhos para manter. Minha mãe disse que bebeu inúmeros remédios para abortar-me, e não conseguiu. Por fim desistiu, e resolveu criar-me. […] talvez seria melhor não existir. Porque eu já estava compreendendo que o mundo não é a pétala de rosa. Há algo sempre a escravizá-lo”

Natural da cidade de Sacramento, no sudeste de Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914. De origem humilde, neta de escravizados, Carolina era uma entre os muitos filhos de uma lavadeira analfabeta. Desde muito nova, se mostrava muito interessada em aprender a ler e curiosa sobre tudo no mundo.

O Diário de Bitita, obra póstuma da autora, não se trata de um “diário”, apesar de trazer essa palavra no título. Na realidade, é um livro com narrativas autobiográficas baseadas nas memórias da escritora, remontando à época em que vivia com a família em Sacramento. Nele, observamos a luta constante de uma família negra no período do Brasil pós-colônia. Sob o olhar de Bitita, apelido de Carolina, uma menina sagaz e questionadora, vemos que a dificuldade para se conseguir trabalho e a constante luta para viver com alguma dignidade são temas que têm destaque na obra. Para além disso, encontramos também histórias da infância, do período em que frequentou a escola, conhecemos sua paixão pela literatura e os preconceitos que sofreu e presenciou ao longo da vida.

O livro é dividido em capítulos; cada uma das narrativas trata de um tema da vida da autora. A primeira narrativa é dedicada à infância, e somos apresentados à realidade em que Bitita e sua família viviam: um lugar humilde e de extrema pobreza. Carolina descreve com riqueza de detalhes sua casa, a casa do avô e como, muitas vezes, viviam com menos que o mínimo.

“Quando os pretos falavam: – Nós agora estamos em liberdade. – Eu pensava: “Mas que liberdade é essa se eles têm que correr das autoridades como se fossem culpados de crimes? Então o mundo já foi pior para os negros? Então o mundo é negro para o negro, e branco para o branco!”.

Nos capítulos seguintes, a autora narra acontecimentos que deixam evidente a relações de poder – branco vs. negro. Em um dos casos, ela discute com um homem branco muito poderoso na cidade e ele revida com a famosa frase: “Você sabe com quem está falando?” – muito repetida, ainda hoje, por diversos “cidadãos de bem”.

Bitita relata também a situação de trabalho das mulheres negras, que eram muito exploradas e subjugadas de todas as formas. Esse tratamento também era concedido aos seus filhos, pois se o filho do patrão agredisse o filho da cozinheira, nada seria feito; afinal, ela precisava do emprego para manter a família.

Há ainda relatos de abuso sexual; obviamente, não haveria denúncia – e se a mulher engravidasse, além de todo o sofrimento já vivenciado, ainda seria julgada pela sociedade.

“[…] mas se a cozinheira tinha filha […] O filho da patroa a utilizaria para o seu noviciado sexual. Meninas que estavam pensando em bonecas […] eram brutalizadas pelos filhos do senhor Pereira, Moreira, Oliveira, e outros porqueiras que vieram do além-mar”

Em uma das narrativas, ela fala de como a revolução “bagunçou” o Brasil. Ela traz a questão do preconceito racial nas escolas, pois agora os negros podiam estudar, mas não tinham o mesmo rendimento que as crianças brancas. As mães negras culpavam o racismo das professoras: elas não discutiam, mas se queixavam por serem confrontadas por mães negras que se sentiam no direito de falar de igual para igual.

Há uma crítica de como os imigrantes italianos eram tratados em relação ao negro africano livre. Os italianos tinham oportunidades de enriquecer, e cabia aos negros trabalhar para eles. A escritora apresenta muitos aspectos da vida nos negros no Brasil pós-abolição, abordando assuntos como a promessa da criação de leis trabalhistas e o alistamento no exército. Ainda dentro no contexto da pobreza, ela fala das meninas que tinham que se prostituir, expondo-se a ambientes hostis, para ajudar a família e garantir que as irmãs mais jovens tivessem oportunidades de alcançar uma vida melhor.

A todo momento, ainda que sob a perspectiva de uma criança, a autora está expondo e denunciando o racismo, a misoginia, o machismo, usando como pano de fundo suas próprias experiências. O livro é incrível, mas temos que ter ciência de que leremos alguns relatos muito pesados. Alguns vão até nos lembrar de histórias de mulheres e homens negros mais velhos de nossas famílias. À medida que ia avançando na leitura, ficava muito indignada e me questionava, pois mesmo depois de tantos anos, ainda podemos presenciar e vivenciar algumas das questões que afligiram a vida de Bitita.

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