Um inventário do passado que reinventa o futuro


Márcia Silveira. Inventário de vagas lembranças. Penalux, 2023
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À medida que crescemos, acumulamos lembranças, vivências e histórias; e, para dar conta desse montante, o nosso cérebro se encarrega de apagar, guardar, embaçar e até mesmo enfeitar determinadas memórias. Para essa última tarefa ser bem executada, ela precisa ser guiada pela imaginação que se entrelaça com a subjetividade de quem imagina. É com isso que a escritora Márcia Silveira brinca quando constrói crônicas que relatam fatos (enfeitados ou não) de diversos momentos de sua vida. 

A resenha de hoje vai ser sobre o livro Inventário de vagas lembranças, primeiro livro publicado de Márcia Silveira – uma escritora carioca, formada em Filosofia, com pós-graduação em História da Arte. Márcia graduou-se também em Design Gráfico, além de ter trabalhado com fotografia. A fim de imprimir seu ponto de vista sobre a vida por meio da escrita, Márcia vem publicando crônicas e contos e, desde 2019, escreve resenhas sobre livros no jornal Diário do Rio.

“Um levantamento dos bens que o tempo vive tentando me roubar. Ou uma tentativa afetiva de evitar que uma existência inteira se perca nos desvãos do cotidiano.”

As 28 crônicas do livro nos conduzem tanto para momentos recentes quanto para momentos antigos da vida da autora. A obra se sustenta não só pelas suas memórias, mas também pela capacidade que a sua mente tem de inventar, complementar os buracos de lembranças borradas para que os relatos sejam construídos com sentido. Acho importante pontuar que, quando Márcia se deixa levar pelas invenções da memória, esse processo acontece sem o seu esforço, a construção de sentidos não parece acontecer com intenções literárias. Na verdade, seu esforço vem apenas da tentativa de revisitar as suas memórias, já que ela argumenta: “Quando tento recordar, quase tudo me escapa, como se um dia eu tivesse matado minha sede no rio do esquecimento.”. Então, o processo de construção dessas crônicas se desenrola, primeiro, pela tentativa que a autora faz de lembrar de cenas da sua vida; em seguida, pela invenção que a mente exerce para preencher essas lembranças; e, por último, pela escrita da autora que, com certezas e incertezas, insere a sua própria história na eternidade que a literatura proporciona aos personagens e as suas narrativas. 

“A escrita sempre é assunto na terapia”


Os temas frequentes das crônicas são o amor, a família, a infância, a saudade e também a escrita. O Inventário de vagas lembranças tem como abertura um texto metaliterário, que trata da relação da autora com a escrita e evidencia a importância dela para a sua trajetória. Além de evidenciar esse fato, nessa primeira crônica do livro, chamada “Menos um dia”, Márcia Silveira relata a insistência da melancolia em seus escritos e como isso criou um hiato em seu processo criativo, considerando que essa era uma característica que a desagradava. No entanto, o que se sucede são páginas preenchidas por histórias contadas pela percepção de quem observa as miudezas da vida e valoriza a melancolia como fator que também interessa em nossa trajetória. Aliás, um dia nublado também tem a sua beleza.  


A escrita de Márcia pode provocar em nós, leitoras, diversos momentos de identificação e reflexão sobre a nossa caminhada, influenciando o processo de costura das nossas próprias memórias, que se rasgam com a passagem do tempo. Isso acontece graças à escrita-espelho que Márcia constrói nesse Inventário – do início ao fim, as construções das crônicas, os títulos e seus contextos despertaram diversas memórias de minha vida, e aprendo com a autora, quando usa a escrita “para lembrar” e tem como resultado a eternização de sua história e de seu olhar para o mundo. Cada crônica gera uma pausa, uma reflexão, uma identificação. Finalizei a obra tomada pela ansiedade de me encontrar com o papel e com o lápis para tentar imprimir o rebuliço bonito que esse livro fez em mim.

A intenção de Márcia foi escrever para lembrar, mas a força da sua obra serve de fio condutor para aquelas escreviventes que precisam seguir enfeitando linhas de cadernos antigos, se eximindo do compromisso com a perfeição e se valendo do compromisso com a própria essência. Márcia, com sua obra você nos revela um processo de escrita que desemboca num despertar de consciência e valorização da própria identidade. Sua obra é um presente do seu passado que, unido ao nosso, reinventa nosso futuro. 

Obrigada.

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