Cecile Mendonça. plantar somente onde há bocas famintas. Editora m.inimalismos, 2024.

Cecile Mendonça (Rio de Janeiro, 2000) é graduada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e artista multidisciplinar. Se aventura, principalmente, na colagem, no desenho e na escrita. Publicou poesias na Antologia “Nós” da editora Selo Off Flip [2023] e na edição da revista Felisberta do verão de 2024. Além disso, publicou o livro de poesias “plantar onde há bocas famintas” [2024], pela editora m.minimalismos, e a plaquete “Língua sem chão” [2025], pelo selo Janela + mapa.lab.
Ao começar a ler o livro “plantar somente onde há bocas famintas”, de Cecile Mendonça, me lembrei da menina que fui: aquela que gostava de escrever poesias. Por isso, me emaranhava nas palavras – como quem tem fome de poder inventar um outro eu que fosse outra parte do meu próprio (só que poético). E sempre pensava comigo mesma: “Há algo nos versos. Há algo nos ritmos. Há algo no som. Há algo nas palavras. Há algo, sempre há algo… aqui, na escrita”.
Mas a poesia não é sobre a escrita, é sobre o mundo que nela se configura. Ou melhor, é sobre como o mundo se forma aos nossos olhos perante o tempo. Se o tempo muda, a poesia muda. Se mudamos, a poesia muda.
E se a poesia muda, tudo muda.
Nesse contorno, me parece que a obra se constrói como um percurso que, através dos versos, narra a vida pelo tempo, pela memória e pelo sentir. Assim, a escrita passa a ser a própria poesia que constitui a forma, com o livro separado em três partes:
I. no princípio, a palavra
II. no meio, ausência
III. ao fim, entender
Em “I. no princípio, a palavra”, a poeta se volta para a infância, para o gestar, para o parir (ideias, visões de mundo, versões de si mesma) e a relação com sua mãe. Nesse sentido, a palavra como um rito de iniciação parece ir mais longe do que um bebê quando começa a balbuciar. Parece que tomar a palavra é tomar a própria voz e escutar seu próprio movimento interno sobre o que acontece e o que se vê.
O poema que abre essa sessão alude ao título do livro e já o transforma em oração: “plantai somente onde há bocas famintas”. Assim, ao longo dos poemas, a poeta fala sobre sonhos, sobre medos, sobre recomeços, sobre feridas e cicatrizes e sobre as dores e as belezas do crescimento.
“sair de trás dos olhos de minha mãe
entrar em meus olhos despidos
perceber que nem mesmo
o meu olhar é límpido”
Como diz Cecile em um de seus versos, “uma criança percebe as ondulações do vento” e, com isso, há sempre vontade de um devir-criança e de se estar esperta e atenta ao mundo. Dessa forma, a poeta quer se olhar de novo como criança mesmo madura de corpo – mas nunca de alma. Talvez essa seja a liberdade da poeta que ousa versificar “desordenar-se também é caminho”, enquanto segue.
A poeta segue quando “lágrimas negras caem” e sua pele queima ao (re)nascer longe e perto da forma que veio ao mundo. Ela diz que “gostaria de aproveitar mais os gerúndios” e a vejo respirando, escrevendo, sentindo, texturizando, lembrando e tecendo o passado e o presente através das palavras.
“dissipar o calor do desejo
nesse passado
tão presente
andar alguns passos
deleitar-se na chuva
com a língua estendida
como fazíamos
quando nossos maiores medos
eram descascar frutas
e escrever de caneta
por medo de se ferir
e de não conseguir esconder os erros”
Em “II. no meio, ausência”, a dor aparece como falta, como um entre, como saudade e como borda. É importante ressaltar que as licenças poéticas que usa para falar da vida, da memória e de uma nostalgia de uma anterioridade provocam efeitos colaterais. Assim, é no meio que a poeta realmente passa de um estágio de liberdade a prisão. Uma poeta que não fala de dor é poeta? Uma poeta que não metaforiza sua dor é poeta? É a passagem do meio que é Diáspora, Cecile.
É no meio da encruzilhada que a criança torna-se gente: quando dói. Nesse sentido, a poeta percebe que “as nuvens só existem/ graças a queda” e que uma hora a perda da inocência chega – talvez, por isso, a necessidade de preservá-la na lembrança (ou nos versos).
“eu costumava cantar
i´m on the edge of glory
sua alma me acalentara
você dizia nos meus sonhos
me esperar do outro lado
eu nunca tive coragem
eu continuei na beira
achava
que era melhor
do que varrer as bordas
e arriscar um encontro com o vazio
um novo mantra nasceu
fincar-se na beira é um pacto com a morte
-isso quem diz sou eu”
É da borda que escreve, quase sempre, tentando não se afogar. É, aqui, que algo fica sério. Parece ser uma dor diferente (dor de quem ama?). De modo que ao dizer “talvez seja a hora/ de deixar os galhos/ e parar de fingir/ que a terra ainda nos cobrem”, percebo que a criança se esconde – e a vontade de permanecer na borda também. Estar no meio é a passagem de um ponto a outro ou é simplesmente habitar a passagem? As poesias não respondem à minha indagação, mas é a ideia de fingimento que alude ao que pede pelo real. Aliás, poeta escreve a realidade? No meio, a poeta sente falta das tuas mãos – seja lá quem for.
Em “III ao fim, entender”, a poeta quer sorrir para o caos (seria a vida adulta?). Nossa poeta cresceu rápido aos nossos olhos e agora se sente forte o suficiente para dizer “eu quero fugir da beira” e corajosa o bastante para dizer “da beira você não me ouve”. No fim, o mar aparece com protagonismo como universo simbólico – talvez, eu não estivesse errada em pressentir uma Diáspora, Cecile. Logo, o mar permite que fim não seja partida, seja entendimento.
“tenho pensado mais em mim
e no meu cansaço de nadar contra a maré
às vezes só queria boiar
deixar a correnteza me conduzir
entender que os inertes e esbaforidos
chegam todos no mesmo lugar
continuo a nadar
até sentir minhas pernas sucumbirem
me finco na areia
ouço um silêncio
uma linha salgada nasce em meus olhos
deságua em meu rosto
iluminado por uma fresta de luz
um fervor me alcança
molhada de fervor
desperto
quando parei de submergir?
acho que vivo uma mentira”
O poema do fragmento retirado acima se chama “irreal”. O corte no prefixo é a retirada da ilusão – da palavra e da realidade. A poeta diz na primeira linha desse poema: “tenho sonhado com o mar”. No entanto, há um retorno já que os sonhos apareciam quando antes se falava de infância, mas, agora, a poeta adulta não quer voltar a sonhos de nostalgia infantil; ela quer sonhar o presente e vivê-lo – mesmo que doa. E esse é o mar que a poeta deseja.
No mar de si mesma
a poeta navega
até o fundo
até o fim
do começo
Além disso, o projeto estético da autora – que também é colagista – aparece não só na sua poesia, mas também na capa do livro, que contém uma colagem sua cheia de bocas famintas, inclusive, de plantas carnívoras.
Recomenda-se a leitura – para aquelas que também não querem viver à beira, querem entrar no mar, olhar para o céu para contar nuvens e não ter medo das quedas (da vida).
E, para Cecile,
Plante palavras onde há espaço
Para devorar o mundo
Mulher-terra
Nasce do teu chão
(firme)

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