Rosane Borges. Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível. Instante, 2025.

Rosane Borges é jornalista, professora universitária e pesquisadora brasileira, com contribuições aos estudos de comunicação, racismo, gênero e pensamento feminista negro. Nascida em São Luís do Maranhão, consolidou-se como uma das vozes contemporâneas na análise da visibilidade e representação da população negra na mídia. Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), possui mestrado, doutorado e pós-doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Atua como professora de comunicação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Seu mais recente livro, intitulado Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível, é um trabalho que busca, como afirma a autora, fazer costuras. Assim, com o ato de tecer suas reflexões em sua linguagem e vocabulário pautados pela criatividade e inventividade, a autora procura sua voz ao dialogar com vários repertórios de conhecimento e lançar linhas para conversar com as intelectuais negras.
Logo na “Parte 1: Gestos políticos de insurreição: o que pode a estética em um mundo que se despedaça?”, a autora se debruça, primeiramente, em pensar sobre os grandes temas que circundam os vários imaginários de colapso ou mudanças no mundo, como ataques e mudanças climáticas, revoluções tecnocientíficas e industriais, revoluções microeletrônicas e os avanços da inteligência artificial, a era atual da geopolítica como o (des)governo de Donald Trump, entre outros. Assim, se aliando ao pensamento com intelectuais negras (e negros), defende o fim de um mundo bem específico cunhado pela modernidade que edifica as dferenças raciais em que pensar uma transformação radical viria das práxis negras capazes de reconfigurar vidas e mundos colapsados. Por isso, faz seu ajuste de contas com as estéticas que mulheres negras tecem entre a estética, política, imaginário e representação.
“Quem somos nós, sujeitas-mulheres negras, para ousar e decretar o fim de um mundo e apresentar um projeto de outro mundo no qual somos protagonistas? Reelaborando um enunciado racista e destruidor: quem a gente pensa que é?”
É importante sublinhar que na “Parte 2: Das incidências do imaginário: o passado que nos governa, sujeito a novas racionalidades”, o foco está em pensar a imaginação e o imaginário, através de pensadoras como Denise Ferreira da Silva, que sofisticam o pensar ontoepistemológico do discurso filosófico ao trabalhar com seu conceito de “dialética racial moderna”. Aqui, com Denise pelo olhar de Rosana, questiona-se que imagem de racialidade sob a égide da modernidade separa e lineariza a temporalidade e os corpos negros. Nesse sentido, Rosane quer fazer uma composição pelo ato de imaginar (mundos, gestos e tempos).
“A imaginação é a arma com a qual colocamos em marcha a potência da ação, da reação e do resistir, uma espécie de panóplia que nos encoraja a entrar em campo de ação”
Na “Parte 3: Por outra plataforma de linguagem, por outro sistema de trocas”, Rosane quer desafiar a linguagem com sua principal aliada: Beatriz Nascimento. Ela enxerga em Beatriz uma força rebelde e transatlântica que devolve aqueles que fizeram da diáspora (seja física ou espiritual) regimes de visibilidade. Dessa forma, foi atravessando uma perda de imagem que o ser-em-diáspora enfrentava o modus operandi do mundo colonial escravagista. A meu ver, Rosane parece querer atestar que imagem comunica e que Beatriz postula uma linguagem para acessar essa imagem.
“O Atlântico deixa de ser somente a extensão do imaginário da modernidade ocidental, por onde afundou parte da nossa civilização (corpos, ideias, culturas…), e passa a ser também um repositório de possibilidades que, em virtude da crueldade do sequestro, pode ser acionado para dimensionar a perda da imagem, do sofrer, do exílio daquelas e daqueles que suportam todo o trajeto, alimentando-se da bagagem ancestral, até chegarem à terra firme. Esse dimensionar nos tira do campo da falta absoluta, ensina Beatriz”.
Conversando com a ideia de memória e experiência, Rosane quer pautar a existência negra em diálogo com o tempo (e também é afetada pela transmissão dos conhecimentos de Leda Maria Martins sobre o tempo espiralar) e a história sobre o tornar e (re)tornar sujeito, a que eu acrescentaria a dimensão de que pensar um devir também precisa ser feito por nossas mãos negras.
Já a “Parte 4: Descolonização do olhar: rasgo feito no tecido carcomido do racismo e do patriarcado” inicia o debate olhando para o “corpo-linguagem negro-feminino” e adentra mais na ideia de representação (seja pelo cinema, fotografia, tv ou qualquer outro tipo de mídias digitais) em que a dimensionalidade do olhar se torna importante para (re)tornar a esse corpo. Procura afastar para longe o olhar-objeto ao escutar as vozes de Oyèrónkẹ Oyěwùmí, bell hooks e Beatriz Nascimento e se envolver com o que chama de “novas epistemes do olhar”.
“O olhar opositor é, assim, um agente importante para gestar o impossível por meio de uma dissolução de uma cena rotineira, repetitiva e hegemônica. É, em suma, um olhar que desver!”
E, finalmente, a curtíssima “Parte 5: Bem viver, reparação e política: costurar, tear e fiar o novo manto do mundo” contém uma última reflexão para pensar a atuação política inspirada em mulheres negras da diáspora, como propõe Rosane, com o Bem-viver como horizonte, que inclui: direito à vida, instituição de nossa humanidade, reconhecimento de mulheres negras como sujeitas de direitos e exercício de cidadania.
“Ainda estamos aqui, e como ensinou Beatriz Nascimento, onde estou, eu sou, o que nos possibilita pela memória da travessia e pela herança das nossas mães, projetar os mundos (im)possíveis”
Destaco que a principal ideia que o livro de Rosane Borges nos proporciona é a do gesto: imaginar (com) as mulheres negras que aparecem como Denise Ferreira da Silva, Leda Maria Martins, Beatriz Nascimento e outras. Aliás, sem elas, para mim, seria deixar para os “modernos” as costuras que compõem o mundo e, com ele, as teorias do conhecimento.

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