Valiosas vivências

Oi, pretas!

Eu me chamo Mariana Oliveira e sou aluna do sétimo período de Português/Literaturas de Língua Portuguesa na UERJ. Tive a honra de ser escolhida como voluntária no LetrasPretas e, como este é o meu primeiro texto, resolvi começar com uma apresentação – e, espero, uma reflexão para vocês, também!

American People Series 16 - Woman Looking in a Mirror, 1966
Faith Ringgold, ‘American People Series #16: Woman Looking in a Mirror,’ 1966

No início da minha vida, eu via minhas amizades da mesma forma que as crianças normalmente veem: com quem a gente brinca. Eu era o tipo de criança que faz amiguinhos na beira do mar, brinca no recreio, troca bilhetinho durante a aula. Não consigo, de fato, me lembrar de nenhuma violência racista marcante na minha infância nesse sentido, embora reconheça que o preterimento se apresenta em nossas vidas até mesmo nas nossas relações mais puras da infância, ao redor de outras crianças. Quem sabe, mesmo, tenha sido porque nos meus primeiros anos eu tenha convivido mais com pessoas pretas.

Mais tarde, depois que perdi a pessoa mais importante da minha vida e meus relacionamentos parentais foram frustrantes no quesito amor, que é para mim o mais importante (e aí sim, tenho diversas recordações de preterimento na adolescência), encontrei consolo ao assumir uma ideia de amizade que é basicamente a mesma que tenho atualmente: amor verdadeiro, incondicional – resumidamente falando. Comecei a me apoiar em amigues, que felizmente são pessoas que se mantêm na minha vida até hoje.

Pouco depois dessa perda, tive um relacionamento abusivo que me afastou demais delis. Quando finalmente terminei o namoro, me senti totalmente sozinha; e foi aí que, juntamente com os conceitos que comecei a desconstruir, comecei a querer compartilhar completamente minha existência com as pessoas que representam o que é o amor para mim. Essa atitude foi tanto uma forma de demonstrar arrependimento por ter me afastado quanto de não estar vulnerável em possíveis casos de novos abusos em relacionamentos românticos (já que muitos deles acontecem quando ficamos isoladas e não falamos sobre o que estamos vivendo, como foi meu caso).

Pouco depois, comecei a faculdade e entrei em contato com diversas pautas de militância (sexualidade, gênero, raça, classe…), mas minhas questões internas eram mais urgentes – não por escolha minha, mas porque era (e é) com elas que acordo e vou dormir cotidianamente. Eu estava muito fragilizada, tanto pela perda de um ente querido, e o que se deu a partir disso, quanto pelo relacionamento tóxico.

Sempre tive amigues ao meu lado, me apoiando, ajudando e ouvindo no que era possível. Mas já havia passado o tempo em que eu era aquela criança que lida com as amizades de forma simples: me apoiei tanto naquelas pessoas que acabei criando expectativas que demandavam mais tempo do que elas verdadeiramente poderiam dispor para mim, principalmente porque não fui só eu que virei caloura nessa época. Por esse motivo, muitas vezes me senti frustrada por não me considerar plenamente acolhida. Além disso, minhas referências pretas (e aqui coloco pretas tanto com um sentido de cor quanto de gênero), especialmente as afetivas, eram muito frágeis, para não dizer inexistentes. Então, basicamente, eu contava com o afeto e a atenção de pessoas brancas com quem não tinha uma relação de sangue, relação essa que somos ensinades a considerar como a mais importante de todas.

Repito que tenho plena certeza de que tenho amigues que me amam demais. Só que, tanto pela militância universitária ser praticamente nosso primeiro contato com questões de raça, quanto devido à nossa própria vivência, considerando as particularidades delis e minhas, alguma coisa sempre me parecia estar faltando.
Embora eu nunca tivesse percebido apatia em amigues diante do que eu contava, muito do que eu dizia não parecia ser suficiente para que fosse validado. Muitas vezes ouvi conselhos que circulavam em torno da ideia de que eu estava “pensando demais” ou “me sabotando”. Mesmo que fosse com a melhor das intenções, aquelas pessoas cuja vivência era tão diferente da minha frequentemente não viam que muito do que eu sentia tinha a ver com o fato de eu ser uma mulher preta. Não era eu pensando demais ou me sabotando. Era eu sofrendo.

Avançamos, tanto eu quanto elis, no nosso entendimento sobre as pautas mencionadas. Também sinto que posso dizer que melhorei com relação à minha dependência sobre amigues e não descarrego sobre elis apenas coisas ruins. Faz muito tempo que não escuto que penso demais ou que preciso tomar cuidado para não sabotar meus relacionamentos, por exemplo, por achar que não sou boa o suficiente para eles. Os ouvidos que me acolhem seguem carinhosos e gentis; mas agora, principalmente com a chegada da vida adulta e o amadurecimento das desconstruções trazidas pelos primeiros contatos com a militância universitária, creio que tenho recebido conselhos muito menos focados na minha tendência a potencializar questões simples e mais na forma como meus relacionamentos, não apenas românticos, se dão individualmente. Assim como nos amamos, nos entendemos cada vez mais (até porque já são 10 anos de amizade!).

Mas, nesse mês de fevereiro, depois de ter recebido uma verdadeira aula de uma mana preta, ganhei de presente reflexões a serem feitas sobre meus constantes pedidos de desculpas e de referências sobre o que ela pensava sobre temáticas da negritude. Foi naquele momento, e apenas naquele momento, depois de tantos anos, que eu entendi que o fato de eu ter sempre sido mais próxima afetivamente de pessoas brancas me deixou o resquício de sentir que preciso ter sempre à mão bases teóricas para validar meus sentimentos. É daí que vem minha busca constante por teorias de mim.

A partir daqui, minhas reflexões sobre essa descoberta se misturam com os conselhos dessa mana preta, cuja vivência, por esse motivo, se assemelha mais com a minha do que a maioria das referências que tive na adolescência.

Vocês vão notar que eu sou bastante prolixa e falo exaustivamente de mim, especialmente por meio de listas (não se enganem, o que parece um mero “Top 5 filmes favoritos” está repleto de dissertações nas entrelinhas sobre como e porque eu me identifiquei com eles!). Mas, mesmo tendo todo esse trabalho interno com autocríticas e até me dando, com ressalvas, a alcunha de “ensimesmada” (sim, como Bentinho!), frequentemente sacrifico minha matéria em prol de uma ideia dela.

Sabemos que estamos vivendo na e da academia. Sabemos que é importante entrar em contato com nossas teorias e referências teóricas, especialmente para quebrar o costume de basear nossa luta na revolução branca, na qual somos sempre recorte. Mas o quanto de nossas vivências, nossas mesmo, enquanto indivíduos, estamos deixando de lado? Quanto de nós mesmas estamos sacrificando para finalmente sermos parte de uma teoria de nós, quando na verdade nós estamos em nós e somos nossa própria teoria?

Vamos pensar nisso, pretas? Estamos dando o devido valor a nós mesmas, à nossa jornada? Estamos nos ouvindo ou ansiamos tanto por pertencimento e legitimação de nossas vivências, que passamos por cima delas como se não soubéssemos, literalmente na pele, sobre o que é ser quem somos? Eu acredito que toda teoria preta que se preze veio de uma pessoa preta. Se valorizamos as vivências das teóricas, por que não as nossas?

Um beijo!

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