O legado de Maurinete Lima

Maurinete Lima. Sinhá Rosa. Organização de Élida Lima. Invisíveis produções, 2017.

page_1_thumb_largeSinhá Rosa pode ser pensado como um livro-legado de Maurinete Lima – que publicou a obra em 2017, aos 74 anos, pouco antes de seu falecimento. Nascida no Recife, Maurinete construiu uma carreira como intelectual negra, formando-se socióloga e atuando como professora da UFRN. Em 2004, após o assassinato do dentista negro Flávio Ferreira Sant’Ana – executado em 3 de fevereiro daquele ano por policiais militares que, posteriormente, forjaram provas a fim de acusá-lo de resistência à prisão –, Maurinete fundou a Frente Três de Fevereiro, grupo de pesquisa e de ação direta comprometido com a luta antirracista no Brasil. Em 2013, Maurinete começou a frequentar saraus literários, enveredando pelas sendas da poesia. Como sintetizam as palavras de Roberta Estrela D’Alva, no posfácio a Sinhá Rosa:

Dona Mauri costumava frequentar, como público, as noites do ZAP! – Zona Autônoma da Palavra, poetry slam realizado na sede do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, companhia de teatro hip-hop da qual faço parte. Eis que um dia, de repente, lá estava ela no palco recitando um poema. E outro, e mais outro. Os poemas de Dona Mauri começaram a tomar corpo forjados no calor dessas noites memoráveis de poesia falada, fomentados não só pelo ZAP!, mas também pelos encontros do Slam do Corpo, primeiro slam entre surdos e ouvintes do Brasil, o qual também ajudou a fundar com sua presença, poesia e reflexões.

A potência poética de Maurinete não tardaria a ser reconhecida – quando, na FLUPP 2016, foi laureada com o terceiro lugar no campeonato nacional de poesia falada; na mesma edição do evento, recebeu o prêmio Carolina Maria de Jesus, oferecido a pessoas que tiveram sua vida transformada pela literatura. Como atesta Roberta Estrela D’Alva, o livro surgiu a seguir, a partir de uma provocação (“Dona Mauri, a senhora tem que lançar um livro!”) da qual resultou um conjunto de 73 poemas inéditos.

Dividido em cinco seções (“Recifes”, “Brasis”, “Tempos”, “Migrantes” e “Versos pra que versos”), o livro de Maurinete Lima pode ser lido como a síntese poética de uma densa trajetória intelectual. Há nele todo o balanço de uma vida: de alguém que, já na maturidade, opta por dedicar-se a uma nova linguagem, capaz de expressar poderosas verdades entranhadas na subjetividade. Como lemos em “Aldeia”:

Só agora que comecei a escrever
a minha aldeia,
a minha aldeia vive perto de mim,
a minha aldeia está dentro de mim.
Fecho os olhos,
tampo os ouvidos
e escuto a minha aldeia.
A minha aldeia
não sai de mim,
ela é
a minha cicatriz tatuada.

A tarefa de escrever esta “aldeia interior”, de revisitar espaços íntimos e memórias profundas, determina essencialmente a construção de um poderoso discurso lírico, manifesto ora em poemas mais curtos, ora em textos que se desdobram por várias páginas. Vale ressaltar, no entanto, o uso econômico da linguagem: mesmo nas peças mais longas, não há sobras ou excessos; Dona Mauri sempre tinha o que dizer – e o fazia com precisão.

Não menos relevante é o modo como o substrato intelectual dos poemas não compromete sua qualidade estética. O vasto repertório de saberes acumulado pela professora encontra expressão em versos bem urdidos, como naquela estrofe que abre “Para os anais de maio”:

A senzala sempre existiu
em cada marco desse Brasil
tão cantado.

O registro mais reflexivo ou militante – que tem, como notáveis exemplos, peças como “Breviário para os jovens” ou “Falando dos Ts” – se manifesta ao lado de poemas mais íntimos e memorialísticos, que predominam em seções como “Tempos” (a mais extensa do livro) e “Versos pra que versos”. Assim lemos, no pungente “Viver”:

Viver sem pensar quão velha estou.
Viver sem ter pena de mim por não ser.
Viver sem o temor de ser açoitada.
Viver sem receio da casa cair,
do leão rugir, do elefante tombar,
do lagarto se transformar
e da galinha dos cinco dedos voar.

Maurinete Lima não partiu sem deixar heranças para os que ficaram; entre elas, Sinhá Rosa – uma herança inscrita em versos: legado de uma trajetória de luta; síntese de memórias e vivências que nos cabe honrar e reconhecer.

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