Uma preta na FLIP 2019

photo_2019-07-15_22-43-26Neste último fim de semana, aconteceu a FLIP 2019, festa literária internacional de Paraty. Foi o segundo ano em que me dei a oportunidade de ir ao evento. Paraty é uma cidade turística que oferece duas principais atrações: o centro histórico e as belíssimas praias e cachoeiras no seu entorno. Para os amantes da literatura e da arte, estar no evento é como se transportar para dentro de um sonho. Em cada casinha colonial das famosas ruas de pedras do centro histórico, é possível encontrar palestras, debates, entrevistas com autores famosos, músicas, ateliês com exposições diversas – desde pinturas, objetos artísticos a fotografia –, pequenos restaurantes charmosos, lojas com lembrancinhas para guardar de recordação e inclusive lojas com as conhecidas e tradicionais cachaças fabricadas na cidade. O centro da cidade é cortado por um rio e atravessado por uma pequena ponte em formato de arco. Embaixo da ponte corre um rio extenso, de uma cor esverdeada escura, e nas margens ficam ancorados lindos barcos coloridos que servem como uma das mil atrações de passeio para os turistas. Nas ruas e vielas estreitas, a multidão de turistas divide espaço com os comerciantes que vendem de tudo: bugigangas, comidas e doces. Mas, pelos cantos das ruas, é possível ver o primeiro sinal de contraste social do evento: enquanto muitos turistas, vindos de outros estados e países, passeiam aproveitando cada espaço da cidade, pequenas multidões de índios tentam melhorar seu sustento com o turismo da cidade, vendendo seus artesanatos, exibindo suas músicas e danças. O olhar desses indígenas é uma mescla de desconfiança e timidez. Mas o que choca são as crianças indígenas. Elas ficam em grupos pequenos, aglomeradas nas paredes. São de diversas idades; há crianças a partir dos cinco anos, e algumas até menores, outras adolescentes. Elas ficam nas sombras ou debaixo do sol, ao meio dia, dançando ou cantando músicas de suas tribos, com um chapéu de palha jogado no chão como uma forma de pedir que os passantes ajudem com dinheiro ou moeda. Algumas dessas crianças circulam sujas e com pouca roupa entre a multidão, pedindo ajuda; outras se sentam em frente à sorveteria, pedindo que alguém lhes compre apenas um sorvete.

Eu passava em frente a um pequeno grupo quando uma amiga me chamou a atenção para uma cena que, segundo ela, representava o ápice do capitalismo: um indígena adolescente dançando com seus amigos para conseguir um trocado, vestido com a blusa do Capitão América. É a partir desse primeiro contraste, dessas pequenas cenas tristes, que gostaria de questionar aqui: um evento tão lindo como a FLIP, que divulga arte, literatura e cultura, é um evento para todos? Teoricamente, sim; na prática, sabemos que não. Ali, entre tantos livros, entre poesias recitadas nas ruas, música tocada ao violão pelas calçadas, praias lindas, arte escrita e pintada nas paredes, artesanatos pelo chão; ali, como em tantos outros lugares desse Rio de Janeiro, vemos um espaço marcado pela desigualdade social. Vemos pequenos absurdos que mostram como, no nosso país, a literatura e a arte não estão ao alcance de todos. Vemos, inclusive, cenas de hipocrisia e episódios de preconceito velado. Mas também vemos resistência. Lugares como a Casa Poéticas Negras e a Casa Insubmissa das Mulheres Negras, que trouxeram trabalhos e eventos lindos relacionados à negritude. A Casa Philos, que abordou uma enorme diversidade de temas importantes sobre o meio LGBT+. Apresentações como as de Djamila Ribeiro e Conceição Evaristo, que lotaram e deixaram gente até do lado de fora. Presenciei pessoas fazendo fila para ouvir essas mulheres negras que têm reivindicado nossos lugares de fala. E, sobre lugar de fala, no sábado – penúltimo dia da FLIP –, pude presenciar um mal-estar coletivo muito interessante. Já era noite quando dezenas de pessoas se reuniram no pátio da capelinha, no centro de Paraty, para prestigiar no palco os jornalistas Gregório Duvivier e Xico Sá e a atriz Maria Ribeiro. Várias pessoas se sentaram pelo chão; havia música, vinho nas taças; era uma noite muito fria, mas com um caloroso clima de boemia. Tudo ia muito bem, até que a plateia presencia a atriz Maria Ribeiro dizer que lugar de fala hoje está bem próximo do fascismo, que não se pode mais falar o que se quer. Imediatamente eu, ali – mulher negra, moradora da periferia, estudante de uma universidade pública, leitora e admiradora da filósofa Djamila Ribeiro – me senti atingida, como se tivesse levado uma pedrada. Como uma pessoa tão esclarecida, em um evento tão lindo como a FLIP, pode fazer uma comparação absurda entre lugar de fala e fascismo? Mas a plateia não se calou. Apesar de estar ali, onde a maioria das pessoas era branca, de classe social média e alta, vi Maria Ribeiro ser criticada, questionada e, algumas vezes, até vaiada. Depois, comentando o ocorrido com um amigo, ele me respondeu algo que fez todo o sentido: pessoas brancas, de esquerda, de lugares privilegiados ainda não se conformam com a queda do mito da democracia racial. Por isso, quando se veem diante da responsabilidade de admitir que mesmo ali, no meio de gente intelectual “de bem”, há racismo, utilizam de argumentos absurdos, como o da Maria Ribeiro, para tentar diminuir a luta da negritude. Mas estar ali, ter presenciado mulheres brancas revoltadas com a fala da Maria Ribeiro, me deixou de certa forma aliviada. Eu pude perceber que, mesmo a FLIP sendo esse contraste de mundos e realidades, as pessoas que a frequentam não estão alienadas do que é homofobia, racismo, fascismo; mas, acima de tudo, não estão alienadas do que é ser um privilegiado. Enquanto em um palco eu presenciei uma atriz dizer que lugar de fala “já deu”, vi filas gigantescas de pessoas querendo receber apenas um autógrafo da Conceição Evaristo, reconhecendo o quanto a presença de mulheres como ela, uma mulher negra e escritora, é importante em qualquer espaço. A FLIP está longe de ser acessível a todos, mas com certeza é um evento que faz valer a pena. Ao andar no meio de tantas pessoas brancas, presenciar cenas lindas e cenas tristes, eu pude refletir que mesmo estando deslocada, no meio de uma realidade à qual não pertenço, devo estar ali presente para fazer valer o meu espaço – que não é só meu, mas será de outras mulheres negras empoderadas que virão depois de mim.

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