(Re)ler “Úrsula”

20170803171452673605o.pngÚrsula, de Maria Firmina dos Reis, foi publicado em 1859 e é considerado o primeiro romance escrito por uma mulher negra no Brasil. Foi o primeiro romance que jogou luz sobre a temática assombrosa da escravidão, sistema vigente da época, haja vista que a Lei Áurea só foi promulgada em 1888 no Brasil, quase 30 anos depois da data de sua publicação. Nesse sentido, o reconhecimento de Úrsula, enquanto obra pioneira na categoria de literatura afro-brasileira, é imprescindível para a comunidade negra, especialmente, e para a sociedade brasileira de uma maneira geral.

Estão presentes na narrativa o homem branco, o homem negro escravizado, a mulher branca, a mulher negra escravizada. As relações entre eles, negros e brancos, não são apenas de proprietário-propriedade, mas se estabelecem com toda a complexidade existente dentro das estruturas sociais daquele contexto que é de opressor e oprimido, sim, mas também é de uma relação de ambivalências, empatia, antipatia, amizade, submissão, respeito, etc.

Assim, no primeiro capítulo, intitulado “Duas almas generosas”, há a cena de um jovem negro que encontra um jovem branco acidentado, caído do cavalo. É essa, então, a primeira subversão: a imagem do branco que cai do cavalo, ainda que metaforicamente, inverte a hierarquia entre homem branco e homem preto, visto que ali o preto estava de pé e o branco caído, e o destino do branco se encontrava nas mãos do preto, por acaso. É este o primeiro contato entre os dois diferentes, no que diz respeito à classe social e à cor, que se igualam naquele momento, pela vulnerabilidade. O negro, infeliz pelo destino da escravidão; e o branco, infeliz por ter sido traído pela mulher e pelo pai, assim como pela morte da mãe – contudo, ainda assim, privilegiado pela cor e pela liberdade que esta lhe conferia – dependeu do preto para se salvar da má sorte.

Túlio, o jovem escravizado que salva um desconhecido branco com generosidade, tem destaque neste capítulo em que sua personalidade é apresentada. Ficamos conhecendo, então, a alma generosa de Túlio, pelo alívio que sente ao perceber que Tancredo estava vivo. A narração que se segue ressalta sua alma nobre:

E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos, e puros como sua alma. Era infeliz, mas era virtuoso; e por isso seu coração enterneceu-se em presença da dolorosa cena que se lhe ofereceu à vista.

Nas primeiras páginas do romance, Maria Firmina dos Reis denuncia as desventuras de um escravizado, ressalta suas virtudes e lhe restitui a humanidade que a escravidão rouba, revelando a alma do preto escravizado que o sistema nega existir. Túlio é a primeira alma generosa do romance. Tancredo, a segunda. Essa segunda alma generosa amaldiçoa o primeiro homem que escravizou o seu semelhante, e afirma: “Dia virá em que os homens reconheçam que são todos irmãos” (e aguardamos ainda este grande dia em que a democracia racial não será apenas falácia). Tancredo é, portanto, nitidamente um homem que apoia as ideias abolicionistas, embora viva os privilégios por ser branco.

Após o encontro e o estabelecimento da amizade entre Túlio e Tancredo, abre-se margem para o início da história romântica e trágica entre Úrsula e Tancredo, permeada de perseguição, violência, loucura e mortes. No desenrolar dessa trama, que depois descobrimos ser de cunho familiar, conhecemos outros personagens a fundo, como o terrível Comendador, que é pai de Tancredo, mas totalmente o oposto do filho. Em função disso, somos convidadas a refletir sobre a personalidade do filho expor muito mais a influência da mãe – que é, para Tancredo, semelhante a um anjo ou uma santa, e cuja morte foi provocada pelo próprio marido a quem permaneceu submetida a vida toda.

A mãe de Úrsula, por sua vez, também sofria nas mãos de seu pai; quando Úrsula nasceu e ele pensou em melhorar, foi assassinado – aparentemente, também pelo pai de Tancredo (que é responsável por todas as mortes na trama). Podemos pensar, então, na condição da mulher naquela sociedade que era mais acentuadamente patriarcal – da branca, sim, e também da preta, quando conhecemos a certa altura, por exemplo, Preta Susana ou “mãe Susana”.

Preta Susana, que no início de sua história em África era feliz, casada e tinha família, mas foi sequestrada como escrava e teve sua vida toda interrompida e alterada para um destino infeliz, de perdas irreparáveis. Preta Susana é a representação máxima da condição da mulher preta escravizada, arrancada de seu solo, sozinha, sem nem poder exercer sua maternidade. Foi ela quem criou Túlio – que por sinal, também é mais um que deve a uma mulher a formação de sua personalidade forte e generosa; lidando com a escravidão, com a perda da família e da liberdade, ainda assim encarou de cabeça erguida o homem branco aterrorizante. Falou quando queria falar, omitiu quando achou por bem omitir; resguardou os seus e andou com honra, mesmo em direção à prisão e à morte.

Preta Susana teve seu lugar de fala resguardado e precisamos ouvi-la, cedendo o espaço para uma escuta que se faz necessária:

Eu gozei a minha mocidade! […]
Ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Tranquila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu país, e louca de prazer a essa hora matinal, em que tudo aí respira amor; eu corria as descarnadas e arenosas praias, e aí com minhas jovens companheiras, brincando alegres, com o sorriso nos lábios, a paz no coração, divagávamos em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias daquelas vastas praias. Ah, meu filho! Mais tarde deram-me em matrimônio a um homem, que amei como a luz dos meus olhos, e como penhor dessa união veio uma filha querida, em quem me revia, em que tinha depositado todo o amor da minha alma. Uma filha que era minha vida, as minhas ambições, a minha suprema ventura, veio selar a nossa tão santa união. E esse país de minhas afeições, e esse esposo querido, e essa filha tão extremamente amada, ah, Túlio! Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! Oh, tudo, tudo, até a própria liberdade!

Outra subversão: se na visão do colonizador os bárbaros eram os africanos, nessa narrativa, de uma mulher africana escravizada que vivia sua vida e cultura e, de repente, é raptada, os bárbaros eram os próprios colonizadores. Muda-se, obviamente, a perspectiva. Vale ressaltar também que, diferentemente da mãe de Úrsula e da mãe de Tancredo, Preta Susana conseguiu formar família com um homem que a respeitava e a fazia feliz, que era querido, em África – coisa que no Brasil, as outras duas personagens não conseguiram com os seus maridos. As outras, na sociedade “civilizada”, sofriam maus tratos de seus companheiros, eram subordinadas e humilhadas.

Mas segue a fala da Preta e escuta (de Túlio e nossa):

Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário vida passamos nessa sepultura, até que abordamos às praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé, e, para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa: davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca; vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água. É horrível lembrar que as criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim, e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos!
Muitos não deixavam chegar esse último extremo – davam-se a morte.

É por meio das memórias e vivências de Preta Susana que temos a narração das maiores barbáries às quais foram submetidos os negros escravizados; aliás, é através delas que entendemos também que a raiz de toda a desgraça é o Comendador – o homem branco com ego inflado. A partir dessas vivências, pensamos no nível de crueldade dos homens brancos senhores de escravizados; pensamos nas relações dos senhores com seus escravos, raptados. Toda a violência que, por tamanha, torna a morte branda e fácil.

Por tudo isso, Úrsula não é uma história meramente romântica e trágica de dois jovens que, por acaso, são primos; que, dada a circunstância de o tio de Úrsula, que é também pai de Tancredo, também amar a moça, acaba em loucura e mortes. Não é apenas uma questão familiar que exige toda a atenção (pausa para o samba). Úrsula é, antes de mais nada, uma obra que expõe a necessidade de se pensar nessa escrita na sociedade brasileira oitocentista; de se pensar na potência da denúncia, da crítica – e, principalmente, na necessidade de restituição da perspectiva do negro, não mais objeto, mas agora humano, pensador e detentor da sua própria história e verdade. A necessidade de se pensar, ainda hoje, nas relações e estruturas sociais que resistem ao tempo – como as relações abusivas às quais mulheres são submetidas; o peso que carrega uma mãe – maternidade que ainda é mais difícil para mães pretas; e pensar, principalmente, no racismo que ainda é perceptível e cruel na nossa sociedade, dois séculos depois, e que ainda compromete tantos destinos.

[Citações extraídas de: Maria Firmina dos Reis. Úrsula. Porto Alegre: Editora Zouk, 2018.]

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