Meu cabelo e Eu

Você é ensinada, desde muito nova, a não construir uma relação saudável com seu cabelo. Ele tem um aspecto mais seco, cresce para cima e não desliza entre os seus dedos. “Um verdadeiro bombril”, como alguns dizem. Você cresceu ouvindo coisas como: “prende esse cabelo”, “seu cabelo está precisando de uma boa hidratação, ele está tão seco”, “precisa dar um susto na raiz desse cabelo”, “que cabelo duro!”, “Por que você não alisa?”, “Faz umas trancinhas pra amenizar o volume. Teu cabelo é muito lá em cima!” Assim, você poderia escrever duzentas páginas neste texto, compostas por frases que ouviu durante toda a vida.photo_2019-07-14_22-27-48

Depois de entender que aquilo que você carrega na sua cabeça não é algo bom, busca inúmeros mecanismos para apagar e esconder seu cabelo. Vai ao cabeleireiro e pede para alisar igual ao da moça na capa da revista. Fica ansiosa durante todo o processo, pronta para ver o resultado final, mas quando se olha no espelho, logo vem a frustração. Seu cabelo não ficou liso como o dela, não tem o movimento, muito menos o mesmo brilho. Você passa prancha todos os dias para tentar deixá-lo liso, todos os dias você queima seu couro cabeludo em nome de um ideal, e ainda assim não consegue alcançá-lo. Seus fios começam a quebrar, e algumas mechas que antes estavam inteiras já estão  curtas a ponto de não suportarem um prendedor de cabelo. Chama-se agressão.

Cansada das tentativas frustradas de alisar, você até tenta dar vez aos “cachos”, desde que eles não sejam naturais. Mais uma vez, compra um relaxante e espera que seu cabelo fique igual ao da mulher da embalagem. Enquanto sua mãe passa a guanidina, só uma pergunta vem à cabeça: será que vai ficar igual ao da moça da embalagem? A cabeça começa a arder, você quer falar sobre o incômodo, mas precisa ficar calada. Lembra? Pra ficar bonita tem que sofrer. É assim desde os quatro anos de idade. Você não aguenta. Sua cabeça está pegando fogo. Pergunta à mãe: “Mãe, minha cabeça está ardendo, posso tirar?” E ela responde: “Tá louca, menina? Acabei de colocar. Se tirar agora não vai fazer efeito nenhum e você vai continuar com esse cabelo duro. É isso que você quer?” O pavor de conhecer o seu cabelo te consome, toma conta de você, e você segura a lágrima que insiste em cair, enquanto a sua cabeça continua ardendo em chamas. Sua mãe completa: “Quanto mais tempo a gente deixar, mais o produto fará efeito e seu cabelo vai ficar realmente liso”.

Você resiste. Insiste. Persiste. Quando você tira aquele produto fedido da cabeça, percebe que algumas feridas se formaram, algumas cascas e bolinhas de pus. Pior que isso é que, mais uma vez, seu cabelo não ficou igual ao da modelo da caixa. Isso é agressão.

Cansada de mais uma tentativa frustrada, você decide trançar seu cabelo, como fazia na infância, numa tentativa de esconder o que ocorre no seu bulbo capilar. Finalmente começa a ouvir alguns elogios: “Ficou bonita com as tranças”; “Ficou melhor do que antes, com o cabelo relaxado”; “Parece até que seu cabelo é liso”. Você fica superfeliz porque é a primeira vez que ouve algo bom sobre o que está na sua cabeça. Entende, então, que as tranças fazem com que algumas pessoas te aceitem mais. Seria a trança uma imitação do liso? Passado um tempo, o discurso muda; você já está há bastante tempo com suas tranças e começam a perguntar como faz para lavar, dizem que parece cabelo de boneca e que lembra um monte de linha de costura aglomerada. Seu mundo, mais uma vez, caiu. E você vai fazer o quê, agora? As dores das agressões de uma vida inteira aparecem. Por que te ensinaram a odiar tanto o seu cabelo? Por que esconder algo que é naturalmente seu? O que te impede de conhecê-lo?

Em frente ao espelho, uma série de questionamentos vêm à tona. Em frente ao espelho, há um ser morto. Vejo fios embaraçados, sem forma, vida e cor. Fios maltratados por processos dolorosos. Identidade negada. Ao lado da dor, encontro a ancestralidade. Há uma mulher do cabelo emaranhado que sorri e grita por libertação. A liberdade do ser. Ergo o olhar, numa tentativa de ver o que restou de mim, e percebo que ainda há vida no meu Ori. Dou espaço para que essa vida vingue. Em minha mão esquerda há uma máquina que vai dilacerando tudo que ficou de ruim. É como a Espada-de-Iansã, que lança fora toda a dor. Depois de raspar minha cabeça, vejo quem eu realmente sou; não preciso me preocupar em ficar parecida com a moça da caixa de guanidina. Sou eu e eu. Meu cabelo e eu.

Um comentário em “Meu cabelo e Eu

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  1. Texto lindo! Porque é isso… só quem é mulher negra nesse país sabe o que é ser agredida profundamente por uma estética branca hegemônica que não nos representa. Aceitar o nosso cabelo é um verdadeiro processo. Quantas de nós dividimos a triste experiência na infância de se sentir a mais feia? Há pessoas que associam nossa cor e nosso cabelo a algo considerado asqueroso. São pessoas cegas pelo racismo e as vezes de forma inconsciente nós nos submetemos a este tipo de auto-violência. A dor é muito mais complexa que o produto químico que arde em nosso couro cabeludo, é a dor da falta de pertencimento. Seu texto termina de uma forma belíssima associando nosso cabelo a uma questão de ancestralidade, que me lembra memória e representatividade que nos é algo muito valioso. Parabéns!!!

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