Não há luta sem repúdio

Screenshot_20191203-210746_2Foi diante do comentado caso do discurso de ódio aos homens gays por parte do cantor Mc Poze que refleti sobre as ideias de “bolhas” colocadas nas redes sociais. Por ser uma aluna oriunda de universidade pública, ambiente majoritariamente branco, concluí que meu corpo atravessa duas bolhas “impermeáveis”, e isso faz com que eu assuma posições e máscaras distintas e opostas durante todos os meus dias.

Estar em uma faculdade pública e morando numa favela me permite viver disparidades em um único dia: enquanto na faculdade recebo a feliz notícia de que fui convocada para um projeto de extensão, ao chegar em casa encontro minhas coisas reviradas após uma operação policial. Enquanto entre os muros cinzentos da universidade choro pelo sentimento de incapacidade que me acompanha em sala de aula, ao chegar na favela meu coração dispara e me embalo na felicidade do morro em festa pela vitória do Flamengo.

Além de pensar na minha vivência nesses locais, analisei a fala de alguns internautas e me deparei com algumas falas homofóbicas (às quais não me dignarei a ceder espaço neste relato) e a frase: “A informação não chega na favela”, que ecoou muito em minha mente. Quando se diz que a informação não chega na favela, penso em questões como: política (que levou uma quantidade massiva de moradores, cristãos e não cristãos, a votarem no atual presidente – e é dever da esquerda dialogar com a base para buscar resultados positivos e dar esperanças para um povo já desacreditado), atuação estrutural e velada do racismo, entre outros assuntos discutidos em outras bolhas impermeáveis.

No entanto, caracterizar o respeito ao próximo ou a distinção entre amor e ódio como “informação que não chega” é o mesmo que animalizar os moradores, recaindo em uma lógica racista sobre a favela, fomentando o estigma de que a periferia é somente local de violência, quando não é só isso: aqui moram o amor, o lazer, o respeito e se vivem muitas alegrias. Meu pai era um desses moradores orgulhosos que batiam no peito ao dizer: “a favela jamais me deixará e eu jamais a deixarei”. E cumpriu a promessa, pois nasceu, cresceu, conheceu o certo e o errado, o ódio e o amor, brincou, chorou e amou demais na periferia.

Por isso, o que a meu ver acontece é que, assim como no asfalto, na favela há uma parcela de pessoas que respeitam corpos LGBTQI+ e outras não. E esse dado negativo pesa muito mais pela pouca chance de denúncias serem efetivas aqui dentro.

As questões de classe, gênero e raça são preponderantes na vivência de uma lésbica, negra e favelada: três características que classificam o quão invisibilizado aquele ser é, seja no asfalto ou na favela. Por isso, no meu caso, fazer denúncias de lesbofobia no asfalto pode muitas das vezes ser tão sufocante quanto fazê-las de dentro da favela. Mas é indiscutível que fora da periferia, ainda com toda a dificuldade e apagamento desses corpos, as chances de que as denúncias sejam recebidas são maiores, já que na prática as leis não alcançam as favelas. Além disso, o lugar ocupado por aqueles de quem partem as ações opressoras importa para o resultado do caso/acontecimento.

Durante as discussões voltadas para a ação do MC Poze, percebi a quantidade de falas racistas que foram disparadas e isso me fez refletir diante de um exemplo real: a fala da escritora caribenha-americana, feminista, mulherista, lésbica e ativista dos direitos civis Audre Lorde, que nos mostrou qual seria o posicionamento ideal a ser assumido pelos grupos oprimidos. Ela disse: “Entre as mulheres lésbicas, eu sou negra; e entre as pessoas negras eu sou lésbica. Qualquer ataque contra as pessoas negras é um problema para lésbicas e gays, porque eu e milhares de outras mulheres negras somos parte da comunidade lésbica. Qualquer ataque contra lésbicas e gays é um problema para pessoas negras, porque milhares de lésbicas e homens gays são negros. Não existe hierarquia de opressão.”. Além dessa fala, Audre reflete: “E não tenho como escolher em que frente vou lutar contra essas forças discriminatórias, independente de que lado elas estejam vindo para me derrubar. E quando elas aparecerem para me derrubar, não irá demorar a que apareçam para derrubar você”. E foi exatamente isso o que aconteceu no caso envolvendo o MC: refleti como, somente nesse caso, homens negros e gays foram violentados duas vezes com a homofobia e o racismo.

Rebatendo ainda os argumentos sobre a frase “a informação não chega na favela”, PASMEM, há na favela corpos LGBTQI+ suplicando por respeito e direito à vida, organizados em grupo ou não, eles estão lá e participam da rotina diária da favela. O que me leva direto ao Grupo Conexão G, formado em 2006, que é a primeira ONG nacional voltada para a causa LGBTQI+ em favelas, tendo o propósito de combater a violência contra pessoas LGBTQI+ e incentivar a saúde e a educação .

Enfim, as discussões sobre o caso, que envolvem “passar pano ou não”, só mostram o quanto não existe “nós” em se tratando de grupos oprimidos: somos divididos.

Durante toda a história de militância negra houve a promoção da virilidade do homem negro, inclusive entre os nacionalistas culturais (que se opunham aos Panteras Negras), estando o machismo e a homofobia extremamente presentes nos seus discursos e ideologias. Deveríamos nos organizar em prol do repúdio direcionado aos preconceitos contra LGBTQI+, assim como lutamos contra a misoginia e o racismo. Além disso, corpos como o meu reúnem essas três frentes. Por isso, somente entender atitudes homofóbicas e esperar que haja desconstrução é ignorar a urgência e o derramamento de sangue que ocorrem por trás dessas falas de ódio.

Diálogo é sim importante, mas não há luta sem repúdio. NÃO HÁ MAIS TEMPO, pois enquanto damos tempo para o outro entender e aprender, corpos como o de Matheusa são brutalmente assassinados a cada 16 horas no Brasil.

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