E eu não sou uma mulher?

bell hooks. E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.

51qM9DD-E3Lbell hooks é uma emblemática intelectual negra estadunidense, autora de diversas obras, ativista social e educadora. Seu nome de batismo é Gloria Jean Watkins, sendo o nome pelo qual é conhecida uma homenagem à sua vó, Bell Blair Hooks. Nascida em 1952 em Hopkinsville, cidade rural de Kentucky – antigo estado escravocrata sulista –, a autora se formou em literatura inglesa na Universidade de Stanford, fez mestrado na Universidade de Wisconsin e doutorado na Universidade da Califórnia. Com mais de trinta livros publicados, de diversos gêneros, a escritora concentra seus estudos nas questões que envolvem raça, gênero, classe, educação e relações de opressão.

E eu não sou uma mulher? (Ain’t I a woman?, do título original) foi publicado originalmente em 1981 e é o primeiro livro de bell hooks, escrito quando a intelectual ainda estava na faculdade. Seu título faz referência ao célebre discurso de Sojourner Truth, uma das mais famosas abolicionistas negras e defensora dos direitos das mulheres dos Estados Unidos, que em 1851 proferiu um veemente discurso em que expunha os mecanismos de dominação que incidiam especificamente sobre as mulheres negras. A obra é composta por cinco capítulos, que constituem artigos sobre os seguintes temas: sexismo e a experiência da mulher negra escravizada; a desvalorização contínua da mulheridade negra; o imperialismo do patriarcado; racismo e feminismo; mulheres negras e feminismo.

A primeira edição de E eu não sou uma mulher? apresentava a foto da mãe da autora na capa; já a edição utilizada na presente resenha traz o retrato em sua contracapa. No prefácio, bell hooks afirma que o substrato para a escrita da obra foi a relação com sua mãe – que, mesmo não conhecendo teorias feministas, educou a autora e suas irmãs para a liberdade. Tal relação também motivou o estilo da escrita, cujo objetivo maior era o alcance de pessoas de diversas classes, tendo como referência de “público ideal” sua própria mãe. O esforço para compreender as diferenças entre as experiências das mulheres negras e das mulheres brancas fundamentou a produção da obra.

O primeiro capítulo trata das vivências das mulheres negras que foram raptadas e escravizadas. Como as mulheres africanas também contribuíam com a força de trabalho em sua cultura, elas provavelmente foram vistas pelos homens brancos comerciantes de escravizados como o sujeito ideal para a escravidão, uma vez que também era “obedientes” aos homens negros. A autora destaca que, além dos castigos físicos e trabalho excessivo que eram impostos às mulheres e aos homens negros escravizados, a mulher estava sujeita a outro tipo de tortura, não comumente aplicada aos homens, visto que se tratava de uma sociedade patriarcal sexista: o estupro. O sexismo institucionalizado legitimava a exploração sexual das mulheres negras; ele consistia num método de terrorismo para desmoralizar e desumanizar as mulheres escravizadas.

No segundo artigo, bell hooks faz uma análise crítica acerca da desvalorização contínua que a figura da mulher negra sofreu no contexto da sociedade patriarcal racista. A intelectual aponta como a exploração sexual perpetrada contra as mulheres negras reverberou no âmbito político e social, criando uma série de estereótipos depreciativos e negativos, e mitos racistas e sexistas. Tal depreciação constante, mesmo após o fim da escravidão, constituiu uma nova prática opressiva, em que houve um esforço consciente da branquitude para sabotar a construção da autoconfiança e do autorrespeito da mulher negra.

O terceiro artigo, “O imperialismo do patriarcado”, aborda os mecanismos de funcionamento e os impactos do sexismo na vida das mulheres, sobretudo negras. Faz-se interessante a observação da escritora de que o sexismo também é praticado por homens negros, porque tanto estes quanto as mulheres negras não estariam dispostos a reconhecer que o racismo não é a única prática opressora sofrida pela comunidade negra.

Já no penúltimo capítulo, a autora traz a problemática do racismo dentro do movimento feminista. Uma vez que os Estados Unidos foram colonizados a partir de um fundamento imperialista racista, o racismo impediu que se estabelecesse qualquer tipo de conexão entre mulheres negras e mulheres brancas. bell hooks aponta que tanto as primeiras defensoras brancas dos direitos das mulheres quanto as sufragistas não estavam interessadas em igualdade social para todas as mulheres, somente para as mulheres brancas.

O último capítulo realiza um estudo sobre a relação entre as mulheres negras e o feminismo. No início, a autora traz à memória diversas mulheres negras que contribuíram na luta pelos direitos das mulheres nos séculos XIX e XX, tais como Mary Church Terrell e Anna Cooper. São abordados diversos acontecimentos sociais que ocasionaram num afastamento das mulheres negras do feminismo. A escritora não hesita em apontar o oportunismo e egoísmo de algumas mulheres que usam o movimento em benefício próprio e a necessidade de nos espelharmos na mulher negra ativista do século XIX.

Assim, E eu não sou uma mulher? é um livro fundamental para se entender as relações de gênero, classe, raça e práticas opressoras e como elas se configuram atualmente. Apesar de sua escrita leve e acessível, bell hooks traz assuntos densos e que podem ser, caso você também seja uma mulher negra, cruéis. No entanto, faz-se necessária a apropriação desse conhecimento por nós para que possamos ser pessoas livres ou feministas, segundo a concepção da autora: “‘feminista’, em qualquer sentido autêntico do termo, é querer para todas as pessoas, mulheres e homens, a libertação dos padrões de papéis sociais, da dominação e da opressão sexistas”.

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