Um casamento, um descaso, não por acaso

Tayari Jones. Um casamento americano. Arqueiro, 2019.

51Kamxu8zCLUm casamento americano é uma obra de Tayari Jones, escritora estadunidense. Tayari é autora de quatro romances, ganhadora de vários prêmios literários; além disso, faz parte do corpo docente do Departamento de Artes da Rutgers, em Newark, e atua como pesquisadora visitante no Black Mountain Institute, na Universidade de Nevada.

Um casamento americano possui uma narrativa envolvente, sem superficialidades, que não nos permite sair ilesas das questões raciais, sociais, psicológicas e emocionais que atravessam os personagens. Você será, inevitavelmente, sacudida por elas de algum jeito, especialmente se for negra; e, pode ser ou não um sacolejar violento – comigo, foi.

Os capítulos são narrados por Roy, Celestial e Andre, personagens centrais que ganham seus devidos lugares de fala enquanto vítimas de um sistema que, direta ou indiretamente, os atingiu. Roy, preso injustamente acusado de estuprar uma mulher. Celestial, esposa de Roy há pouco mais de um ano, quando ele foi preso. Andre, melhor amigo de Celestial e, posteriormente, seu amante – no mais abrangente sentido da palavra.

O enredo não é meramente sobre o desenrolar desse drama que vivem os personagens; para além disso, é sobre a questão racial nos EUA, que pode ser pensada também a respeito de outros lugares do mundo. Outrossim, a obra me remeteu a alguns casos semelhantes de prisões injustas vividas por negros aqui no Brasil. Por exemplo, o caso de Rafael Braga, que segue cumprindo pena desde 2013, acusado de carregar material explosivo e associação ao tráfico de drogas. O que difere Roy e Rafael, a principio, é o status social antes da prisão. Rafael era um preto pobre. Roy, um preto em ascensão. Na prisão, Roy e Rafael se igualam. O neguinho com bala na agulha pode até temer menos a bala na testa mas, ainda assim, há o que temer.

É importante a forma como é frisado que o sistema penitenciário não ressocializa nenhum indivíduo, pelo contrário, ele desumaniza em um nível absurdo. Roy expõe isso muito bem em suas cartas; aliás, as cartas também representam uma tentativa de aproximação, ao mesmo tempo que revelam a separação e o retrocesso na relação: de que gênero se torna o casamento de Roy e Celestial? Não era um romântico, revelado em longas trocas de cartas. Na real, era um amor interrompido pelo caos, pela prisão e o que isso implicava, atravancado pela injustiça do Estado, pelo braço armado do capataz.

Vários episódios narrados pelos personagens me causaram algum tipo de rememoração ou identificação. Foi como jogar luz sobre vários assuntos ao mesmo tempo, iluminar o palco e enxergar bem na frente do meu nariz o racismo, a maternidade preta, a paternidade, as relações interpessoais e tudo mais. Mas, principalmente, como o racismo permeia tudo.

Exemplo disso foi visualizar Celestial exposta apenas na combinação branca, sendo arrastada pela polícia, no dia que o esposo vai preso. Particularmente, lembrou-me um dia em que minha casa foi revistada, numa manhã qualquer de um dia qualquer das férias escolares. Eu tinha 14 ou 15 anos, dormia suave na minha sala quando, de repente, a casa ficou preta de polícia. Começaram a vasculhar tudo. Eu me levantei assustada, só depois notei como estava pouco vestida num baby doll, meio infantil até. Minha cunhada e minha sobrinha, de um ano e meio na época, estavam comigo. Perguntaram de quem eu era esposa. Eu, tonta ainda do sono e amedrontada, respondi “de ninguém”. Apontaram pra minha sobrinha bebê, que dormia ao meu lado, e perguntaram de quem ela era filha; apontei para minha cunhada que estava ali sentada na beira da cama tentando falar, inutilmente.

Hoje, eu consigo analisar melhor essa situação bizarra, entender que eles não tinham o direito de invadir minha casa, nem de revirar minhas coisas, tampouco fazer perguntas descabidas como aquelas. Foi uma violência significativa, hoje percebo.

Essas reflexões todas sobre as diferenças de tratamento e julgamento dado aos pretos na sociedade e nas relações são postas de formas muito fluidas no decorrer da narrativa. Portanto, a leitura de Um casamento americano produz empatia; isso fez com que eu me encantasse por sua narrativa, ao passo que eu emergia de um mundo de interrogações. A força de suas palavras nos faz sentir exatamente como eles, os personagens, se sentem. E nós não conseguimos tomar partido, pelo menos, não por completo. A gente vai cambiando, como os capítulos: ora estamos na pele de Roy, ora na de Celestial, ora na de André. Todos pretos, conscientes racialmente e alvos de uma injustiça, vitimados por uma força maior e externa. Uma mesma história narrada por pontos de vistas diferentes. A gente se sente na desobrigação de achar um culpado. O culpado é o racismo, o descaso, a injustiça, o mito do preto estuprador, o não-direito de defesa, a seletividade penal. Mas e o que eles devem fazer do que se perdeu e do que restou? É o que a gente espera poder responder. Qual o nosso papel, enquanto pessoas negras, na sociedade? De alguma forma, essa incógnita ficou em mim enquanto eu seguia tentando ajustar as arestas, junto dos personagens.

“O que acontece com você não lhe pertence, só tem a ver com você pela metade. Não é seu, não é somente seu”: essa citação de Claudia Rankine, no prólogo do livro, marca o caminho da linha tênue que é a trama. Nos faz pensar nas problemáticas mencionadas – em questões históricas como a escravatura, a desumanização do preto, o camburão como navio negreiro, a prisão como senzala. Tudo que existiu e perdura com outros nomes.

E como a gente age sobre tudo isso que já foi decidido, não somente por nós? O que a gente faz do que nos foi imposto, o que é possível moldar?

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