Tempos difíceis. Tempos cruéis

Imagem por society6

São tempos difíceis. Tempos cruéis. Estamos vivenciando uma situação que se assemelha com o que estudamos nos livros de História e que parecia muito distante de nossa realidade. Um cenário parecido com algum enredo de um filme apocalíptico ou com alguma narrativa distópica. Mas, não. Infelizmente, é nossa realidade atual, a qual temos de confrontar, querendo ou não. Naturalmente, tal conjuntura afetará pessoas diferentes de maneiras distintas e, lamentavelmente, “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”.

Quando começamos a tomar alguma medida de proteção contra o Coronavírus aqui no Brasil, meu primeiro sentimento predominante foi medo. Tal sentimento pode ser muito poderoso se o alimentamos, ele ganha “o poder” de nos paralisar diante de qualquer coisa. Só o que eu conseguia sentir era temor pela saúde e pela vida de familiares e de pessoas próximas. Depois, com o passar das semanas, esse sentimento foi substituído por uma oscilação entre desalento e esperança.

Em fevereiro, eu havia recebido uma proposta de emprego para atuar numa escola. Fiquei super feliz, pois já estava procurando trabalho há um bom tempo, me virando só com os “freelas”. No mês seguinte, as aulas do meu segmento foram iniciadas. Percebi algumas pequenas questões negativas, mas, às vezes, temos de nos adaptar a determinadas situações. Foi quando começou a quarentena. Após as duas primeiras semanas, comecei a notar um comportamento abusivo por parte da coordenadora pedagógica, tais como querer que as professoras fizessem reunião presencial bem no início da quarentena, não respeitar os nossos horários de trabalho etc. 

Também, para complementar o quadro, houve um atraso e parcelamento do primeiro salário e uma redução drástica do salário (menos da metade do valor integral) durante os meses da quarentena. Na única vez que um dos diretores se dirigiu a mim por meio de telefonema, com a intenção de comunicar a diminuição salarial, ele foi extremamente grosseiro, me interrompendo a todo momento, gritando ao telefone e desqualificando o meu trabalho. Eu tenho total ciência da profissional competente que sou, mas isso não bastou. Aquelas palavras me feriram e agrediram a minha autoestima, me fazendo cair na síndrome do impostor, tão conhecida por nós, pessoas negras. 

Todo esse contexto começou a gerar consequências físicas e psicológicas. Não sobrava mais tempo para fazer coisas que eu gosto, como ler, fazer exercícios físicos, etc. meu tempo se resumia a atividades da escola. As cobranças aumentavam cada vez mais, sem nenhum tipo de feedback positivo sobre o trabalho que estava sendo feito. Tive de me adaptar com a estrutura material que tinha para atender às demandas crescentes. 

Por fim, comecei a ter dificuldades para dormir e para relaxar: eu estava sempre acelerada. Meu coração disparava repentinamente, algo que nunca havia sentido antes. Se pararmos para refletir, constataremos que a população que mais está sujeita a trabalhos abusivos e exploratórios é a negra, de classe popular. 

Eu tive o privilégio de poder escolher entre a minha saúde mental/física e esse emprego abusivo, mas quantas mulheres e homens negros são “obrigados” a se sujeitar a condições degradantes de trabalho por necessidade? Ainda estamos na base; qualquer calamidade ou catástrofe toma proporções muito maiores quando se trata de nós. Procuro ter esperanças de que, algum dia, tal cenário mude, embora, às vezes, pareça impossível enxergar uma luz no final do túnel. 

Penso muito sobre a planta cacto como uma metáfora de nós, pessoas pretas, por sua simbologia: um ser que é capaz de sobreviver às condições mais adversas devido à sua incrível resistência. E é sobre isso: resiliência, força e adaptação. Acho que é essa força que nos mantém ainda vivos, afinal, voluntária ou involuntariamente, seguimos sendo resistência.

Um comentário em “Tempos difíceis. Tempos cruéis

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  1. Jaqueline, seguro sua mão com força. Passei por algo muito similar em fevereiro, até mesmo antes da pandemia chegar ao Brasil. Passei em um concurso para professora municipal. Convocada, fiz exames, dei entrada, todo o procedimento. Ao chegar na escola que fui lotada, foram uma semana escutando sobre meta, meta, meta. Que eu não deveria ser próxima dos alunos, sorrir, nem nada. Sem material, sem um acompanhamento, fui jogada em uma sala de aula com sessenta alunos: tinha aluno surdo, autista, hiperativo… Em pleno sertão cearense, a escola sem ventilador…. mas o pior não era isso, era as coordenadoras e diretoras (que não permitem que a porta da sala seja fechada) observado eu dando aula. Ao em vez de me ajudarem, ela interrompiam, me chamavam de canto, e diziam “professora, se imponha/professora, chame aquele menino para sentar na frente/ professora, a senhora está em estágio probatório, cuidado”. Foi horrível. Mergulhei num poço que não via luz. Não dormia, não comia, só chorava. Eu achava que uma hora ou outra iria melhorar, mas nunca melhorava. Eu emagrecendo a olhos vistos. Meu marido e meus pais fizeram uma intervenção em mim e disseram que se eu saísse do emprego ele iriam me apoiar e amparar até eu conseguir outra coisa. Assim eu fiz. Pedi exoneração. Sofri muito me sentindo fraca, incompetente, mimada, vários adjetivos que me diminuíam. Hoje, cinco meses depois, sofro um tiquinho (era um concurso, né? acho que todo brasileiro pobre sonho em tomar posse), mas foi a melhor coisa que fiz. Não sei se retorno para lecionar em escolas, pq sala de aula eu amo e sinto falta, mas o ambiente escolar e sua hierarquia que se diz gestora, é algo que me dá arrepios só em pensa.

    Força, querida.
    Vc fez o melhor em colocar sua saúde em primeiro lugar. Também sofria pensando nos companheiros que não tem outra saída e continuam adoecendo, isso era uma das causas do meu choro compulsivo: cair fora e deixá-los para trás.

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