Muitos se descobriram negrxs, e vítimas do racismo, mas o Brasil não se assumiu racista

Bianca Santana. Quando me descobri negra. SESI-SP editora, 2015

O livro Quando me descobri negra, de Bianca Santana, é composto por 28 pequenos relatos. É de uma linguagem simples, objetiva, que narra vivências com as quais, nós, pessoas pretas nos identificamos, uma vez que temos algumas (muitas) experiências comuns. Eu, enquanto leitora preta, relembrei meu próprio processo de (re)descoberta na negritude e senti uma aproximação, um sentimento de pertença tão grande – como se também estivessem ali minhas próprias histórias.

Quando me descobri negra é, antes de tudo, sobre um processo de (re)descoberta, ou melhor, aceitação. É sobre o desenvolvimento de uma racialização necessária para entender o lugar, a posição da pessoa preta na sociedade e no mundo.

O livro é dividido em 3 partes – sendo elas: “Do que vivi”; “Do que ouvi”; “Do que Pari” –, que compõem este pequeno caldeirão com narrativas que a autora viveu, ouviu, pariu, viu e imaginou; com olhos, ouvidos, ventre e mente de, agora, pessoa preta.

“Tenho 30 anos, mas sou negra há 10. Antes, era morena.”

Assim Bianca inicia o primeiro relato sobre suas experiências do que viveu antes de se descobrir negra, como se descobriu e como lidou com tudo o que descobriu e o que mudou a partir disto. Antes dos 30, por exemplo, Bianca aceitava a classificação “morena”,; e é compreensível essa aceitação porque, enquanto negra de pele clara, cresceu ouvindo, vendo, observando, abstraindo que ser negro não era uma coisa positiva, de maneira alguma. Portanto, Bianca cresceu com o desejo de não-ser. Movimento muito comum entre pessoas negras que têm sua autoestima minada desde muito cedo; em alguns relatos, a gente vê o racismo na infância, inclusive. Quem tem criança preta sabe que, a qualquer momento, ela vai sentir o desejo do não-ser, porque o racismo que permeia toda a sociedade vai dizer para ela isto: que seria melhor ser outro.

É nesse sentido que uma pessoa negra de pele clara vai tentar anular seus traços negroides; em especial, podemos falar do cabelo, aspecto importante da nossa identidade, quando sonhamos alisá-lo. No momento em que a autora diz que pensava que só seria bonita de cabelo liso, também identificamos um forte desejo de não-ser. Essa tentativa de reduzir, anular, ocultar (ainda que inconscientemente) é um processo de camuflagem, e os indivíduos só se camuflam para se proteger; ou seja, este não é um lugar seguro. Ainda que consiga se parecer com o outro, a pessoa camuflada não vai ser aceita recebendo um tratamento igual, tampouco com direitos iguais, ao seu “pseudo-igual”.

Por tudo isso, contar a história na nossa perspectiva preta é um ato político poderoso. Bianca começa narrando suas próprias experiências, como foi o susto de ser lida enquanto negra no Educafro (curso comunitário), como era/ é a sua relação com o seu cabelo, suas experiências em lugares que os outros julgam não ser lugares de negros – porque, como a própria diz em tom de indignação e denúncia: “negra não pode ser consultora, bem remunerada, especialista em algum tema específico, com livro publicado e algum reconhecimento.” Para além do estranhamento do negro em lugares e posições de privilégios, vemos em alguns relatos o julgamento e a delimitação do espaço que seria dos negros como servidores. Porque, óbvio, “daquele café que quem frequenta é branco, quem trabalha é o preto”, alguém vai te fazer um pedido. O pedido, indiretamente, é que você se ponha em seu lugar. E qual seria?


Eu, enquanto mulher preta que também se descobriu “tardiamente”, me identifiquei com muitos relatos do livro, naturalmente. Primeiramente, quaisquer relatos sobre cabelo crespo rola MUITA identificação. Quando li o relato intitulado “Desculpa, Nati”, eu terminei me pedindo desculpa também, por ter acreditado que só seria bonita se eu não fosse como eu sou: crespa. Já publiquei um relato sobre meu cabelo aqui no blog.

Outro aspecto desse relato, na postura de Bianca, ainda criança, ainda construindo sua identidade, é quando conclui que não seria bonita, já que não teria cabelo liso. Então, ela poderia ser “boazinha, inteligente e estudiosa”. Durante muitos anos da minha vida, eu me esforcei para ser estas três coisas: boazinha, inteligente e estudiosa. Uma vez que eu não era considerada bonita, não fazia parte do grupo de alunos queridos. Eu me sentia, de fato, invisível na escola. Quando me viam, era quando eu passava cola. Eu era considerada “nerdzinha” e poucos eram os momentos em que outros alunos interagiam comigo, que não fossem para pedir ajuda em algum trabalho ou cola em alguma prova.

Outro dia, andando pelas ruas da Cidade de Deus, um menino (branco) me gritou da boca de fumo, portando um fuzil que tinha a metade do meu tamanho (eu tenho quase 1.80 de altura): “Raphaella!!!” Eu demorei a reconhecê-lo. Dei um sorriso constrangido, sem jeito, e continuei andando; e, de repente, ouvi a voz que ainda me alcançava, mesmo tendo apertado os passos; ele disse pra um amigo, colega de trabalho, sei lá: “É a Raphaella, pô, ela passava várias colas lá na escola… várias colas”.

Não me orgulho disto, mas eu era a que passava cola, sim.

Um outro relato que me fez lembrar outro episódio da minha vida foi “A patroa”, que fala sobre Claudia, uma mulher negra médica e rica que sempre era confundida com instrumentadora; e, por fim, ao atender uma mulher recém-chegada a sua casa, é questionada sobre a sua patroa, sendo confundida com empregada.

Já faz alguns anos, eu estava visitando uma amiga que morava no Leblon e alguns homens estavam pendurando os quadros na sala dela. Essa amiga tinha uma empregada chamada Rosa; naquele momento, Rosa não estava mais lá, mas tinha deixado um bolo de cenoura com calda de chocolate. Comemos juntos, a tal amiga, os rapazes e eu. Terminamos todos elogiando o bolo que estava , realmente, divino. Eu levantei ao terminar e fui lavar meu prato, porque assim aprendi em casa. A minha amiga falou com os rapazes: “Rosa, minha empregada que fez, ela estuda gastronomia, ela arrasa”. Os rapazes terminaram também. Levantaram, agradeceram, estavam indo embora quando um deles virou para mim e disse: parabéns, Rosa, já pode casar. E ele conseguiu, em uma frase tão curta ser: babaca, machista e racista.

São muitas histórias que me lembram relatos que eu vivi. Eu, que também saí do lugar do não-ser muito tardiamente, coincidentemente aos 20, quando comecei frequentar a universidade. Tenho 7 anos de aceitação da minha origem; abandonei os adjetivos “morena”, “parda”, e revi meus trajetos na busca da minha identidade junto com este livro. A luta continua, porque nosso auto de resistência é estarmos vivos em uma sociedade racista, em que muitos ainda acreditam não serem racistas.
E você?


“Antes de me despedir,
Você se lembra de quando foi racista com um preto ou uma preta? Não precisa contar para ninguém. Só tente não repetir.”

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