Lugar de fala: uma resposta a Maria Rita Kehl

A primeira vez em que conheci a famosa psicanalista foi no canal Café Filosófico, quando ela ministrava uma palestra sobre o tema da depressão. Eu a achei fantástica. Uma mulher elegante, inteligente e ao mesmo tempo sensível, falando sobre um tema que atinge a “todos”: a depressão. Coloco “todos” entre aspas, e mais à frente explicarei o porquê disso. Pois bem; acabei acompanhando muitas entrevistas e falas da psicanalista, e não há como negar a sua competência e sua posição de destaque em muitos saberes. Eu li, inclusive, o texto de apresentação assinado por ela para a obra Luto e Melancolia, de Freud. Fiquei encantada.

Passado algum tempo, me deparo com um texto da psicanalista, compartilhado por uma das minhas professoras – esta, que também em algum momento cheguei a admirar, por conta do seu trabalho dentro da academia. Mas eis o título do texto compartilhado de Maria Rita Kehl: “lugar de cale-se”. Já me veio um mal-estar. Será que mais uma pessoa branca, pertencente à esquerda intelectual, viria com outro questionamento a um conceito que, para ficar mais evidente, só falta ser desenhado? Era exatamente isso.

Aquela mulher tão elegante, que ocupa uma posição tão privilegiada e sólida dentro da academia, escreve um texto com questionamentos que beiram quase um ressentimento infantil. Duas coisas me chamaram a atenção no texto: primeiro, a tentativa de se defender de críticas ou possíveis “cancelamentos” deixando muito claro que ela é contra qualquer tipo de preconceito, inclusive o racismo. É quase repetitivo isso no texto, de uma forma até bem apelativa. Em alguns momentos, ela nitidamente se dirige a Djamila Ribeiro. Mas teve algo que achei pior: em algum momento do texto, ela diz que, no Brasil, conquistamos direitos iguais. Ela não é nenhuma ingênua e, sim, ela até mostra o lado paradoxal dessa afirmação. De qualquer forma, uma pessoa na posição dela que lança esse tipo de argumento, dentro de tudo o que vivemos no atual contexto social e político neste país, só pode estar ou mal intencionada, ou realmente muito ressentida. Eu digo ressentida porque parei para me perguntar se alguém mandou a psicanalista calar a boca em algum momento, de modo que isso servisse como um gatilho para um texto tão vergonhoso e desastroso. Eu queria muito mesmo que pessoas brancas, intelectuais, privilegiadas socialmente e de esquerda se preocupassem com demandas que REALMENTE têm importância. Acho cansativo citar os milhares de exemplos de negros sendo “exterminados” intelectualmente ainda hoje, dentro da academia. Ainda acontece. Basta nos perguntarmos por que projetos de pesquisa que envolvem recorte racial ainda encontram dificuldade para serem aprovados por bancas que, pasmem, são de professores da mesma classe branca, intelectual e geralmente de esquerda.

A mesma professora que compartilhou o texto de Maria Rita Kehl também costuma se posicionar frequentemente em relação a assuntos que envolvem cultura afro, feminismo ou literatura de autores negros. Vive expondo o medo de ser “cancelada”, mas defende o direito à fala. Gostaria de saber quem são os militantes intelectuais negros que mandaram essas pessoas calarem a boca e geraram tanto “ressentimento”. Não vou entrar em uma análise do livro da Djamila Ribeiro e elucidar o que realmente é lugar de fala. Não farei isso, pois tenho certeza de que essas mesmas pessoas possuem, com certeza, 20 reais para comprar e ler o livro, e possuem também capacidade de interpretação textual. Desde de que ouvi Patricia Hill Collins dizer que não é obrigada a explicar o privilégio da branquitude para brancos, eu me sinto livre dessa “pedagogia”. Eles que lutem.

Lá no início do texto, quando eu disse que Maria Rita Kehl fala sobre a depressão, que é um tema comum a “todos” entre aspas, assim fiz porque quando nós – falo com as pessoas negras –, quando ouvimos um intelectual branco falar sobre certos temas a nível da sociedade como um todo, caímos na armadilha do “universal”. Eu mesma preciso reconhecer que me pego sendo ingênua em relação a essas pessoas. Talvez o ressentimento dessa minha professora, o da Maria Rita Kehl também, venha daí: essas pessoas insistem em falar por TODOS. Enquanto isso, nós, pessoas negras, continuamos silenciadas. Enquanto isso, nossos projetos de pesquisa continuam sendo embarreirados na universidade. É o justo, certo?

Eu sou contra radicalismos, não tenho vontade de mandar ninguém calar a boca; a única coisa que sinto, quando um intelectual branco fala bobagem (não tem outra palavra) em relação a assuntos que não lhe são pertinentes, é vergonha. Não por mim, mas pela pessoa que está tão galgada no próprio ego que não SE PERCEBE no lugar de inconveniente.

Eu não estou “cancelando” Maria Rita Kehl. Imagina. O tempo e o cão ainda está na listinha de livros que quero adquirir. Só fiquei levemente decepcionada pela mistura de falta de bom senso e desonestidade intelectual. Todos têm direito ao erro; aqui, nesse caso, eu tenho direito à resposta. Estava esses dias pensando na minha posição, a de uma estudante negra em uma pós-graduação de uma das universidades públicas de maior destaque no Rio de Janeiro. Depois que passei por todo o processo seletivo, depois que conquistei minha vaga no curso, percebi como adquiri, sem perceber, uma constante sensação dentro da academia de me questionar se qualquer coisa que eu falo, seja em um evento, uma aula ou palestra, é pertinente. Às vezes, em alguma aula, quero falar, olho em volta e só vejo pessoas brancas – pessoas que sempre parecem em um nível de intelectualidade totalmente inalcançável. Minha pesquisa é sobre um assunto que me é pertinente; ainda sim, essa insegurança incômoda me impede de projetar minha voz entre aquelas pessoas. Há quem vá dizer que insegurança afeta a qualquer estudante de pós-graduação; eu concordo. Mas são inseguranças atravessadas por particularidades e contextos sociais, raciais e de gênero muito diversas. Não vou me estender no assunto. Também não vou entrar em questões relacionadas ao passado da família da famosa psicanalista, pois o que estou reclamando aqui se trata, justamente, de desonestidade. Espero que Maria Rita Kehl e cia se curem do seu “ressentimento”. O mundo está bem cheio de coisas mais importantes para se preocupar e textos a serem escritos com motivações que realmente possuem fundamento. Fica a dica.

Sobre a autora

Este texto foi produzido por uma mulher negra que preferiu permanecer em anonimato.

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