Romper o silêncio

Djamila Ribeiro. O que é lugar de fala? Belo Horizonte (MG): Letramento: Justificando, 2017.

823075_ampliada“[…] Ou seja, o lixo vai falar e numa boa”: é com esta citação da antropóloga mineira Lélia Gonzalez que Djamila Ribeiro inicia e encerra seu livro mais recente, O que é lugar de fala? – nos deixando engasgadas, já nas primeiras páginas, com o peso existente nesta metáfora. Esse autorreconhecimento do lugar no qual a sociedade coloca certos grupos sociais é difícil de ser encarado; é cruel sentir como o olhar que parte do outro em sua direção é absolutamente coisificado – em contrapartida, isso não tem força para deter as vozes que reivindicam novos lugares, que buscam desestabilizar as estruturas vigentes: não importa como eles nos veem, vamos falar assim mesmo. Djamila, feminista e Mestre em Filosofia Política, nos oferece abordagens comparativas com mais de três escritoras para tratar deste conceito de lugar de fala – que, se não compreendido em toda sua complexidade social, acaba sendo esvaziado, fazendo com que se estacione no senso comum.

Antes de explicitar o conceito que dá nome à obra, a ativista nos oferece alguns elementos importantes sobre a história de luta da mulher negra, até para que tenhamos uma ideia mínima de como sua falta de representação, mesmo no contexto social de luta, é algo que incomoda desde a primeira onda do movimento feminista, século XIX. Não é novidade que o movimento surgido naquele século representava uma figura muito específica de mulher – branca, de classe média –, tida como universal, o que fez com que mulheres que não se encaixavam nesses padrões reivindicassem suas necessidades, tentando tornar evidente a especificidade de cada uma: não existe um modelo único de mulher, existem vários; para além disto, existem mulheres posicionadas em situações de maior vulnerabilidade que outras, e ignorar isso é manter muitas delas nesses lugares de risco. Como exemplo, Djamila apresenta o discurso E não sou eu uma mulher?, de Sojourner Truth – abolicionista afro-americana, escritora e ativista pelo direito da mulher –, que denuncia, além de toda invisibilidade da mulher negra, a crueldade do poder epistêmico, estabelecido por brancos para favorecer a si próprios, categorizando ou definindo quem tem ou não direito a algo tendo como base o intelecto. Esse discurso também é citado por Angela Davis em Mulheres, cultura e política, o que só nos reafirma sua grande relevância para o feminismo negro.

Ainda pensando sobre um feminismo eurocêntrico e branco, teremos aqui a figura muito conhecida de Simone de Beauvoir – escritora, filósofa, intelectual e ativista política francesa – com sua obra O segundo sexo, que aborda a definição de mulher comparativamente com o “ser homem”, demonstrando como essa definição é concebida arbitrariamente a partir da perspectiva masculina, o que resulta na objetificação da mulher. Em uma tentativa de mostrar esse não pertencimento imposto à mulher negra – mulher e negra –, Djamila nos apresenta Grada Kilomba, escritora e artista portuguesa que trata a mulher negra como sendo o Outro do outro, não encontrando espaço nem no racismo – protagonizado por homens negros –, nem no feminismo – protagonizado por mulheres brancas. A partir desta questão, levantada pela escritora portuguesa a partir de uma insatisfação, conseguimos mais uma vez notar que as opressões não se dão de modo isolado: uma mulher negra não sofre racismo em um dia e sexismo noutro; essas identidades têm o mesmo peso, não se desvinculando. Do mesmo modo, ao falar do homem negro, Kilomba nos alerta que a realidade vivida por este não é a mesma de um homem branco. Quando essas especificidades não são aceitas, Djamila afirma:

“Se não se nomeia uma realidade, sequer serão pensadas melhorias para uma realidade que segue invisível. A insistência em falar de mulheres como universais, não marcando as diferenças existentes, faz com que somente parte desse ser mulher seja visto.”

É, justamente, esse seguir ignorando essas intersecções que tem feito com que o índice de violência contra mulher branca caia, enquanto o da mulher negra segue subindo alarmantemente. As pessoas precisam se perguntar o porquê disto.

Pensar em discursos nos leva até diferentes perspectivas, ou seja, toda enunciação está inserida dentro de um contexto social e vem sobrecarregada de uma ideologia, mesmo que não consigamos captá-la em um primeiro momento; a imparcialidade talvez seja nossa maior lenda. Viajemos brevemente pela história inicial do Brasil: 1500, “descobrimento”; 1530-1815, Brasil colônia; 1530-1888, período escravocrata; 1822, independência – pensando ainda na ideia de perspectivas, quem será que nos têm contado, há séculos, sobre esses eventos históricos? O que falam, ou como falam, sobre os índios nas escolas? “Portugal nos trouxe cultura”: que ideia de cultura vem sendo difundida? O que fizeram com a cultura indígena? Com a língua indígena? – aqui, somos capazes de perceber língua como puro sinônimo de poder: quando se quer dominar algo, a imposição da língua é o primeiro passo. Como os negros são retratados historicamente? E a princesa Isabel? Nossas crianças, certamente, não sairão das escolas sem ter ouvido falar na mulher branca, que por “pura bondade” libertou os escravos; mas e Dandara, que morreu lutando por liberdade tanto para si, quanto para os seus? Esses questionamentos nos fazem perceber a urgência em romper com essa perspectiva discursiva hegemônica do homem branco: existem outras muitas formas de olhar e analisar todos esses acontecimentos, porque simplesmente as pessoas não vieram dos mesmos lugares, não ocuparam as mesmas posições, não sentiram as mesmas dores. Sobre o direito à voz negado a alguns grupos sociais, Djamila pondera:

“A reflexão fundamental a ser feita é perceber que, quando pessoas negras estão reivindicando o direito a ter voz, elas estão reivindicando o direito à própria vida.”

Daí a importância do surgimento de outros lugares de fala, capazes de romper com todo esse silenciamento – romper com, como afirma a ativista, a autorização discursiva, que persiste há séculos.

Para finalizar, Djamila trata de diferenciar lugar de fala de representatividade – o que de algum modo desmistifica algumas críticas que acreditam que esse conceito se reduz a um limitador de discurso. Ela diz, por exemplo, que uma travesti pode não se sentir representada ao ter suas questões abordadas por um homem branco cis, mas que ele pode cooperar para a propagação de ideais – desde que, obviamente, seu discurso parta do lugar em que ocupa socialmente, enfatizando que, por mais que conheça dada opressão, seu conhecimento não é suficiente para tratar de experiências que não vive. Não esqueçamos quem ainda é detentor da legitimidade. Logo, lugar de fala não designa o direito reservado exclusivamente às minorias sociais para discutir dados assuntos, mas alerta sobre a não universalização do indivíduo; sobre o entendimento de que essa divisão ocasiona os diferentes lugares de fala, e que esses diferentes lugares de fala precisam ganhar voz e espaço.

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