O afrofuturismo e a Sankofia de Lu Ain-Zaila

Lu Ain-Zaila. Sankofia: breves histórias sobre afrofuturismo. Edição da autora, 2018.

Após iniciar a minha leitura dos contos de Lu Ain-Zaila, fiquei imaginando como seriam os filmes de ficção científica caso introduzissem a cultura de matrizes africanas. Será que Blade Runner teria alcançado tanto sucesso, se no papel principal tivesse uma atriz negra? E se De Volta Para o Futuro fosse a história de um escravizado que gostaria de reverter os acontecimentos do seu povo, teria sido aceito em Hollywood? Sankofia: Breves Histórias Sobre Afrofuturismo vai além da presença e da simbologia do afrofuturismo; acredito que o livro é o elemento chave que faltou na minha infância – e que, infelizmente, chegou tarde. Penso que qualquer menina mais nova, que curte uma boa ficção e fantasia, se sentirá representada ao se ver nas histórias enfrentadas pelas personagens criadas por Lu Ain-Zaila.

Em meio a tantos contos apresentados de forma sankofica, ou seja, contos cujo intuito é resgatar a identidade de uma sociedade reinventada, o livro também é repleto de fatos históricos que a autora inscreve na sua escrita – fatos que podem deixar a leitura bastante cansativa e sobrecarregada, caso você não esteja acostumada a ler tantos detalhes de uma vez só. Mas dá para sentir o cuidado que Lu Ain-Zaila teve ao pesquisar cada detalhe e ao registrar tanto conhecimento por uma causa tão justa; afinal, estamos trabalhando com uma obra que fala sobre a cansativa luta do movimento negro e os sinais de resistência passados à comunidade negra, não é mesmo?

‘’E então… de certa forma eles lutaram por mim, mesmo sabendo que nunca me veriam nascer ou meus pais ou ninguém aqui. Então… eles lutaram pelo futuro de gente negra que jamais saberiam os nomes. Aquilo me deu um nó na garganta e quando estávamos para sair de lá, resolvi dizer baixinho para alguns deles, caso estivessem por ali ouvindo. Obrigada e obrigada por tudo.”

Lu Ain-Zaila traz pra literatura afrobrasileira um assunto muito pouco presente e explorado. Aliás, se você não for familiarizada com o termo afrofuturismo e não faz ideia do que se trata, ou é uma leitora iniciante, não precisa se preocupar, pois isso não atrapalhará sua leitura. A autora introduz o conceito com uma explicação muito bem desenvolvida para quem é iniciante no assunto e também para quem possui um certo conhecimento do termo. A escritora também traz várias indicações de autoras e autores representativos para a literatura e para a cultura afrobrasileira e afromericana, como Octavia Butler, Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Angela Davis, Toni Morrison, Nnedi Okorafor, etc., sendo grandes referências para a ficção científica ou não.

“E eu reconheci a palavra – Afrofuturismo, a ideia de um modo geral tem a ver com a projeção de pessoas negras no futuro: protagonistas de seus destinos, se vendo capazes de salvar o mundo e mudar qualquer mundo, em qualquer época através de suas decisões e ações, se tornando heroinás e heróis de face negra diante de qualquer jornada que tomem como sua.”

Por fim, Sankofia: Breves Histórias Sobre Afrofuturismo tem como marca a forte presença de personagens femininas, que nos lembram a todo momento que devemos ter orgulho de carregar a história das nossas raízes ancestrais e da nossa cor. E que não devemos ter medo para enfrentar os desafios e as aventuras que a vida nos oferecer; que nós, podemos sim, ser as heroínas das nossas próprias histórias.

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