Sem perder a raiz (III)

A segunda e a terceira parte do livro de Nilma Lino Gomes apresentam ao leitor as entrevistas feitas com clientes e funcionários dos quatro salões étnicos que foram campo de pesquisa da autora na virada do século XX para o XXI, dedicando-se ainda a um maior aprofundamento teórico que visa discutir os conflitos do negro brasileiro com o tenso processo de formação da sua subjetividade, em uma sociedade estruturada no ideal estético do branqueamento.

Discutir o cabelo crespo não se trata apenas de discutir o cabelo como um código de aceitação da estética do negro. Nilma Lino Gomes consegue mostrar a sua dimensão política, cultural, psicológica e sociológica, que influenciam diretamente as estruturas de poder e o lugar do negro na sociedade brasileira. A abordagem, que parte da relação entre cor de pele e cabelo crespo como partes fundamentais do que constitui a imagem do negro, vai sempre fazendo um paralelo entre os conflitos do “ser negro” e a “hierarquização de raças” presentes na cultura brasileira até os dias atuais.

Vários são os assuntos delicados, relacionados tanto à autoimagem que o negro cria ao longo da vida como a movimentos de resistência que surgem na sociedade brasileira, que tentam fazer frente à sofisticação das novas formas de submissão do negro a uma “supremacia branca”. Umas das reflexões trazidas pela autora diz respeito à postura de alguns grupos do movimento negro, que apelaram para a não modificação dos sinais diacríticos do corpo negro – desde cirurgias para afinar o nariz até os métodos para intervir quimicamente na estrutura do cabelo crespo; isso seria feito com base na busca pela valorização de traços estéticos naturais do corpo negro que remetam à ancestralidade africana e evidenciem a beleza estética negra. Com uma perspectiva extremamente crítica a respeito desses assuntos, Nilma adverte que essas causas devem ser vistas com cuidado, tendo em vista que, se forem impostas ou levadas às últimas consequências, podem representar a imposição de uma leitura ideológica.

A obra apresenta sempre um paralelo entre discutir o assunto de um ponto de vista macro – ou seja, de uma perspectiva que revise as estruturas sociais no Brasil, suas raízes históricas e o lugar do negro brasileiro – e uma perspectiva que priorize apresentar esses códigos estéticos como um processo de aceitação/negação da própria identidade, vistas pela perspectiva do próprio negro; para isso, ela sabe aproveitar bem os relatos da trajetória de vida das pessoas negras ou mestiças que foram entrevistadas durante a pesquisa. Os relatos são extremamente emocionantes, e com certeza possibilitam que qualquer leitor ou leitora que se reconheça como uma pessoa negra possa se identificar com as diversas histórias narradas. Entre as muitas entrevistas transcritas na parte II do livro, chama muito atenção que uma obra que fale sobre cabelo e estética traga o ponto de vista dos homens negros e a discussão de como isso também se relaciona a ideias sobre sua própria masculinidade. Um dos entrevistados fala sobre como foi educado a ser um “homem de bem”, e que isso envolvia um “cabelo baixinho”: um homem negro deveria ser sempre “bonzinho” e “limpo”; uma vez limpo por fora, as outras pessoas veriam como ele estaria limpo por dentro também.

A dimensão do cabelo crespo como um código constituinte da própria subjetividade ganha tons ainda mais dramáticos quando o assunto é da perspectiva das mulheres negras entrevistadas. Algumas relatam a perda do cabelo após algum processo químico ou a impossibilidade de usar implante como gatilho de doenças mentais severas, como a depressão, resultando até na internação de uma das entrevistadas, que relata não ter coragem de ser alvo dos olhares de outras pessoas.

A parte conclusiva do livro parte de um olhar de Nilma a respeito da própria infância, do seu processo de aceitação como negra e a relação disso com as motivações e o aprendizado de sua pesquisa. Isso mostra como, ao invés de colocar em cheque a possibilidade de um “distanciamento científico”, o tema – relacionado a questões tão importantes da negritude – só poderia ser tratado com tamanha profundidade pela voz e perspectiva de uma pesquisadora negra. Sem jamais cair na armadilha de romantizar ou tratar dessas questões de forma superficial, Nilma consegue trazer ao leitor as inquietações de uma pesquisadora que, ao apresentar seu objeto de pesquisa, também se repensa como sujeito no tenso processo de reconhecer o “ser negro”. A obra é de extrema importância para que se perceba que pensar a trajetória e subjetivação do negro na sociedade brasileira vai muito além de pensar em pequenas lutas identitárias; trata-se de repensar as questões que fundamentam, até os dias de hoje, as múltiplas identidades da população negra na formação do nosso país.

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