Enegrecendo a educação

Clarissa Brito. O enegrecer psicopedagógico: um mergulho ancestral. São Paulo: Jandaíra, 2021.

Lançada em outubro de 2020, a obra O enegrecer psicopedagógico: um mergulho ancestral, de Clarissa Brito, pode ser considerada uma contribuição fundamental para os estudos das práticas educacionais do nosso país, principalmente no que diz respeito a uma educação antirracista. Aliás, atrevo-me a escrever – e a sugerir – que o livro em análise é uma leitura importante não apenas para professoras e pesquisadoras da área, mas também para aquelas que desejam pensar a sua própria construção enquanto intelectuais negras. Já no título, a publicação de Clarissa revela a sua dimensão profunda: trata-se de um processo de imersão pelas teorias e processos que compõem a caminhada da autora. 

O livro de Clarissa não é extenso (tem em torno de 94 páginas), mas é fundamentalmente preciso ao abordar, de forma sintética e perspicaz, os principais caminhos de uma educação transformadora. Ao mesmo tempo em que lida com uma temática densa, a linguagem utilizada pela autora é simples. Quando falo em simplicidade, leitora, não compreenda um menosprezo à obra; pelo contrário: a simplicidade reside na habilidade de Brito com as palavras, fazendo com que o próprio texto seja reflexo de uma forma de ensino acessível e preocupada com o entendimento de quem o lê. Pensando nisso, cabe destacar que a primeira seção do livro, intitulada “Palavras de interlocução”, contribui significativamente para a compreensão da obra. Nesse trecho, Clarissa insere o significado das palavras ajeum, axé, ebó, exu, Irmandade Rosário dos Pretos, ifá, omi, ori, oríki, Oxóssi, Oxum e sankofa; ao final da leitura, nota-se que são as palavras-chave da teoria proposta pela psicopedagoga. 

Além da seção mencionada, o livro também conta com a introdução – destinada a trazer um breve relato sobre o percurso de autoconhecimento pessoal e profissional da autora, que culminaram no trabalho em análise – e mais quatro capítulos. Partindo da própria subjetividade, Clarissa desenvolve diante dos olhos da leitora uma teoria que é marcada não apenas por perspectivas para o porvir, mas também – e principalmente – por sua conexão ancestral. No primeiro, cujo título é “O movimento sankofa: ‘o futuro ancestral’”,  a autora evidencia o seu ponto de partida para pensar uma psicopedagogia antirracista: o movimento sankofa – isto é, “a jornada de retorno em si para o renascimento de um fazer profissional e vital ancestral” que ela realiza a partir de suas memórias afetivas, mas também do processo de conexão com a própria ancestralidade durante uma viagem à Bahia.

A psicopedagogia olha o sujeito em sua completude, considera todos os atravessamentos de um viver. Essa descoberta abriu uma gaveta interna, em que reconheci minha forma de leitura e interpretação de mundo, além de encontrar meu caminho de atuação psicopedagógica. Acredito que essa foi a primeira grande transformação vivida até chegar ao Enegrecer Psicopedagógico: a consciência de quão revolucionário é o olhar psicopedagógico na relação das experiências para o conhecimento e a autonomia.

Se no primeiro capítulo Brito expõe a realização do seu processo de sankofa, no segundo (denominado “O grande ebó: o verdadeiro abrir de caminhos”) temos o ponto de partida do fazer psicopedagógico da educadora. Trata-se de um capítulo importante porque, além de apresentar referências teóricas valorosas como Neusa Santos Souza, por exemplo, o texto une teoria e prática ao abordar um ponto nevrálgico das discussões raciais, especialmente para nós, mulheres negras: o cabelo. Segundo Clarissa, “o cabelo foi o traço estético negro que mais sofreu apagamento. […] A construção da estima negra passa também pelo olhar sobre nosso cabelo!”. É a partir dessa percepção que a autora compartilha a sua experiência clínica, evidenciando o quanto o cabelo é uma questão fundamental para o processo de construção da subjetividade negra, principalmente no período da infância. 

De todos os capítulos, recomendo que você dê uma atenção especial ao terceiro, intitulado “Por um enegrecer psicopedagógico: caminhos para a aprendizagem e a autoria de pessoas negras”, visto que é, na minha concepção, o ponto alto do texto produzido por Clarissa. Afirmo isso porque é nesse momento da leitura que a autora evidencia, tratando de si – e também acredito que isso vale para nós –, que a partir do momento em que nos apropriamos de quem somos, conseguimos ressignificar processos educacionais que outrora não nos compreendiam como sujeitos possíveis dentro das estruturas de ensino e de aprendizagem. Além disso, Brito insere mais intelectuais que fazem parte do processo de construção antirracista como Grada Kilomba, Chimamanda Adichie e Djamila Pereira, por exemplo. Ademais, nesse capítulo, encontramos o pressuposto fundamental da teoria psicopedagógica de Clarissa: a conexão com a ancestralidade, pensada, especialmente, em relação aos materiais que fazem parte do cotidiano escolar. Só é possível educar sujeitos da diáspora negra se ele estiver em contato com a sua identidade, que é solidificada a partir do momento em que, nas palavras da autora, “o sujeito se veja objeto de amor para que ele desenvolva o afeto sobre si e sua história”.

O quarto e último capítulo, com título de “Considerações finais: a cabeça em expansão”, é bastante curto, porém compila toda a reflexão feita por Clarissa e traz um desfecho aberto: diferentemente de outros textos teóricos que têm suas ideias encerradas ao fim, a intelectual nos convida a trilhar o processo da educação antirracista, evidenciando que esse é um movimento inacabado, isto é, contínuo que se faz e refaz sempre. Não há a pretensão de encerrar o diálogo; ao contrário, a ideia é ampliá-lo, fazer com que a cabeça fique em expansão, conforme o título prenuncia.

A obra de Clarissa Brito é uma grata surpresa, porque durante a leitura refletimos sobre nossas práticas docentes, nossas práticas em relação às crianças que nos cercam e, principalmente, sobre a nossa própria construção intelectual. Além do brilhantismo do texto de Brito, é preciso destacar o prefácio de Rodrigo França, que pontua como a questão do tempo é fundamental para a psicopedagogia. Há muitas questões que o “mergulho ancestral” de Clarissa aborda; convido você, leitora, a mergulhar nesse mar de ancestralidade e a se encharcar  nessas palavras de (auto)conhecimento. 

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