Os desafios da interseccionalidade

Carla Akotirene. Interseccionalidade. Editora Jandaíra, 2019.

O livro Interseccionalidade, escrito por Carla Akotirene, é o quinto da coleção Feminismos Plurais, coleção coordenada por Djamila Ribeiro e publicada pela editora Jandaíra. Carla é uma importante militante, pesquisadora e escritora relacionada ao feminismo negro no Brasil. Na obra, ela aborda o conceito de interseccionalidade desde a sua origem, reivindicando sua ancestralidade, até o uso na atualidade e os seus desdobramentos.

Para a autora, a interseccionalidade é uma perspectiva que possibilita que nós percebamos que o racismo, o capitalismo e o patriarcado existem juntos e são indissociáveis. Desse modo, precisamos olhar para os diversos tipos de opressões existentes para entendermos o lugar em que as mulheres negras são colocadas.

“A interseccionalidade visa dar instrumentalidade teórico-metodológica à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado- atingidas pelo cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos coloniais.”

Carla conta que esse termo foi cunhado por Kimberlé Williams Crenshaw, em 1989, pela necessidade das feministas negras de terem suas pautas contempladas pelo feminismo, visto que a teoria feminista é branca e eurocêntrica. Desse modo, é imprescindível o debate sobre interseccionalidade para que haja discussões sobre questões que são exclusivas das mulheres negras.

“Segundo Kimberlé Crenshaw, a interseccionalidade permite-nos enxergar a colisão das estruturas, a interação simultânea das avenidas identitárias, além do fracasso do feminismo em contemplar as mulheres negras, já que reproduz o racismo. Igualmente o movimento negro falha pelo caráter machista, oferece ferramentas metodológicas reservadas as experiências do homem negro.”

“Para a mulher negra inexiste o tempo de parar de trabalhar, vide o racismo estrutural, que as mantém fora do mercado formal, atravessando diversas idades no não emprego, expropriadas; e de geração, infantil, porque deve fazer o que ambos – marido e patroa- querem, como se faltasse vontade própria e, o que é pior, capacidade crítica. Independentemente da idade, o racismo infantiliza as mulheres negras. Velhice é como a raça é vivida; e classe-raça cruza gerações, envelhecendo mulheres negras antes do tempo.”

O livro é composto por 5 capítulos, sendo o primeiro deles “Cruzando o Atlântico em memória da interseccionalidade”, no qual Akotirene marca sua contraposição à neutralidade científica, colocando o Atlântico como o lócus de opressões cruzadas e se opondo às construções hegemônicas. Para isso, Carla apresenta uma sorte de contribuições de intelectuais negras como Sojourner Truth, Patrícia Hill Collins, Conceição Evaristo e algumas outras. Além disso, ela mostra como a apropriação inadequada da interseccionalidade por certas instituições nega a autoria feminina negra do termo e criminaliza os corpos negros, havendo assim a atuação do racismo epistêmico, como denomina a autora.

O segundo capítulo do livro, chamado “Vamos pensar direito: Interseccionalidade e as mulheres negras”, Carla Akotirene aborda o tema interseccionalidade mostrando que as mulheres negras são mais ou menos discriminadas de acordo com as avenidas identitárias em que estiverem posicionadas. Assim, Carla critica a desconsideração das múltiplas experiências discriminatórias que se dão pelo entrelaçamento das múltiplas vias identitárias.

“Atlântico e diferenças entre irmãs: críticas ao conceito de Interseccionalidade” e “A crítica de Angela Davis” são os terceiro e quarto capítulos e se preocupam em evidenciar as críticas feitas à interseccionalidade. No terceiro capítulo, há uma atenção ao termo sororidade e suas limitações, pois o afeto e a empatia a todas as mulheres por todas as mulheres são apenas ideias utópicas, visto que a realidade se mostra bem diferente. O capítulo seguinte, trazendo Angela Davis, abolicionista penal, mostra como o mau uso da interseccionalidade pode aprisionar homens negros, havendo, desse modo, a emergência de um “feminismo carcerário”.

No último capítulo, “Cruzar o Atlântico nem sempre encerra a travessia”, Akotirene reforça a importância da interseccionalidade para todas nós, mulheres negras. Apesar desse conceito tão importante ter sido utilizado para fins que, de certa forma, negam seu real significado, ele é crucial para entendermos cada vez mais sobre nós. É uma forma de quebrarmos os silêncios tantas vezes impostos para nós no decorrer da nossa história.

Interseccionalidade é um livro que muito me marcou. Em uma de suas passagens, uma fala de Sojourner Truth apresentada por Carla me chamou a atenção: “ninguém nunca me ajudou a subir nas carruagens, nem pular poças de lama”. E é assim que fomos e somos vistas por muitos, até hoje: menos mulheres, menos merecedoras. Nessa perspectiva, essa leitura é essencial para que entendamos as nossas potencialidades e entendamos que, juntas e unidas, somos VOZ.

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