Tornar-se uma historiadora negra

Eu sempre tenho o costume de contar para as pessoas que escolhi o que iria cursar na faculdade aos 12 anos de idade. E o que aconteceu quando eu tinha 12 anos de idade foi, mais ou menos, o seguinte: eu estava na escola e era uma menina extremamente tímida que me dedicava muito às aulas, já que entendia que essa era uma das únicas opções para que eu tivesse uma vida minimamente confortável. Mais especificamente, eu tive contato com uma professora de história que tinha uma maneira única de repassar os seus conhecimentos aos alunos, e em diversos momentos conseguia trazer elementos lúdicos para o ambiente da sala de aula.

Mas eu preciso afirmar que não comecei a gostar de História por ser uma disciplina que poderia ser ensinada através de jogos virtuais, gincanas criativas, músicas e outros elementos; e sim porque aquela professora conseguiu tornar claro que a História não se resume a fatos que aconteceram em algum marco temporal da humanidade, mas sim, que poder de explicar a sociedade atual. E por que o uso da palavra “poder”? Vivemos em uma sociedade na qual muita coisa é naturalizada. Na qual pessoas negras, mesmo sendo maioria no país, demoraram séculos, em comparativo com pessoas brancas, para poderem ter acesso ao ensino superior. Na qual pessoas negras são assinadas no caminho para a escola ou para o trabalho. Vivemos em um país no qual estamos perfeitamente acostumados a ver a população negra e pobre ter rotinas exaustivas de trabalho para que, no final do mês, mal consiga pagar suas contas, e muito menos ter qualquer tipo de acesso ao lazer.

Contudo, a História nos permite ver que a humanidade vive em ciclos viciosos. Em um momento, o Brasil experimentou o amargo gosto da escravidão, e hoje ele vê muitos de seus trabalhadores sendo quase obrigados a viverem o tempo todo no ambiente de trabalho, sem que, mesmo assim, tenham condições mínimas de vida – o que mostra que, seja no passado ou no presente, pessoas negras não são livres.

Eu escolhi não só estudar História; escolhi ser uma educadora dessa disciplina, e desejo profundamente que meus alunos entendam o quanto o nosso país não trata de forma igualitária, em nenhuma instância, indivíduos negros.

Quando finalmente realizei meu sonho de entrar no curso de História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (já que esperei alguns anos; precisamente, seis anos) muita coisa aconteceu. Eu entrei no início do ano 2020 e a primeira semana de aulas foi um dos momentos mais felizes da minha vida.

Eu fiquei (e fico até hoje) encantada com a grandeza e a beleza do estádio Maracanã (Estádio Jornalista Mário Filho), que é bem próximo da minha universidade. Estava imensamente feliz por poder conhecer pessoas que eram bem diferentes de mim, mas que compartilhavam o mesmo sonho.

Porém, infelizmente, aconteceu algo que afetou a vida de todas as pessoas do mundo, de alguma maneira: a disseminação em massa do vírus Covid19 – e, consequentemente, a pandemia, algo que eu nunca tinha vivido até aquele momento.

Logo na minha primeira sexta-feira após a aula, no noticiário local era anunciado a todo momento que lojas, shoppings, museus, escolas, universidades e uma lista imensa de outros locais seriam temporariamente fechados.

Aquilo foi um momento extremamente doloroso. A UERJ passou alguns meses sem atividades acadêmicas que envolvessem o meu curso diretamente; após esse período, as aulas de forma remota tiveram início. A princípio, achei que elas seriam fáceis, e fui completamente enganada!

Meu primeiro período foi extremamente dificultoso, a tal ponto que eu até precisei interromper uma matéria. Atualmente, eu estou no quarto período, e encontro um pouco menos de dificuldade na leitura de textos, bem como em testes, provas e trabalhos.

Acredito que todo vestibulando mantém no coração um pouco de medo de escolher o curso errado; e hoje, após dois anos de graduação, eu tenho a plena certeza de que me tornar professora de História é uma decisão que me trouxe e traz muita alegria.

Por fim, gostaria de enfatizar que muitas meninas que têm a mesma cor que a minha não tem a mesma chance que estou tendo: a de poder cursar o ensino superior. Como educadora, quero lutar com as armas que estão ao meu alcance para mudar essa realidade.

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