Neusa Santos Sousa e a subjetividade negra

Neusa Santos Souza. Tornar-se Negro – ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Zahar, 2021.

“Uma das formas de exercer autonomia é possuir um discurso sobre si mesmo.”

A epígrafe com a qual se inicia esta resenha é uma das frases mais conhecidas da autora Neusa Santos Souza, além de ser também a primeira frase do seu célebre livro Tornar-se Negro. Uma obra que redirecionou o campo da psicanálise no Brasil ao explorar o recorte racial, a partir da tentativa da autora de elaborar um discurso do negro sobre o negro, na perspectiva da emocionalidade.

É importante destacar que, logo no início do livro, Neusa Souza reconhece a dificuldade de trabalhar tais questões, uma vez que, na época da publicação da obra, o campo científico ainda era carente de trabalhos como o da autora. O livro, publicado originalmente no início dos anos 80, questiona a subjetividade do negro no Brasil; para além disso, Neusa Souza questiona a condição do negro que ascende socialmente, ocupando espaços de poder que historicamente foram destinados aos brancos. Hoje, o Brasil e outras partes do globo parecem perceber tais questões, das quais Neusa Souza há 30 anos já tinha consciência. Temos filmes, séries e a sensação de representatividade nas esferas sociais. Militantes do movimento negro e outros movimentos sociais tiveram grande relevância na construção das pautas raciais, que também são levantadas dentro do espaço acadêmico.

Uma reflexão que parece pertinente é: a sociedade está começando a ter consciência racial ou devemos nos questionar sobre as pautas das quais a sociedade capitalista se apropria? É uma longa discussão e, mesmo que o sistema se aproprie de tais lutas, ainda assim é melhor termos pluralidade e representatividade nos espaços sociais. É sabido que, durante muito tempo, a questão da representatividade não era problematizada dentro dos espaços, embora fosse uma reivindicação antiga do movimento negro no Brasil.

Já no segundo capítulo, a autora apresenta um panorama histórico, que ajuda os leitores a amplificarem seus entendimentos sobre o processo de colonização no Brasil. Nas palavras da autora:

“A sociedade escravista, ao transformar o africano em escravo, definiu o negro como raça, demarcou o seu lugar, a maneira de tratar e ser tratado, os padrões de interação com o branco e instituiu o paralelismo entre cor negra e posição social subalterna.”

É importante mencionar que raça, dentro dessa perspectiva, é definida como concepção ideológica, ou seja, percebida como uma elaboração da sociedade de classes. Numa sociedade escravocrata, a representação dos negros como subalternos correspondia a um imaginário factual. Uma das grandes problemáticas trazidas por Neusa Santos diz respeito à emocionalidade do negro que ascende socialmente, ou seja, aquele que ocupa lugares que antes só eram garantidos à branquitude. Dessa forma, a autora utiliza o termo “identidade renunciada” para nomear o processo através do qual os negros tiveram que negar sua identidade para ascender socialmente. Essa negação pode ser compreendida por diferentes perspectivas: a da mulher que alisa o cabelo para se encaixar num padrão imposto no seu ambiente de trabalho, o homem que raspa a cabeça para ser aceito em determinada esfera social e assim por diante.

O livro aborda perspectivas sócio-históricas do negro na sociedade brasileira, além de denunciar consequências da construção da subjetividade do negro no Brasil, observando os efeitos da colonização sobre aqueles que foram racializados. Os resquícios de uma sociedade colonizada ainda se fazem presentes dentro da nossa sociedade. Neusa comenta:

“O negro que ora tematizamos e aquele que nasce e sobrevive imerso numa ideologia que lhe é imposta pelo branco como o ideal a ser atingido”

A leitura nos traz um registro testemunhal, através de falas transcritas de diferentes pessoas negras. O quinto capítulo, intitulado “Luisa”, relata a trajetória de Luisa, uma mulher negra que vivenciou diversas situações ao longo de sua trajetória. Luisa é uma médica, neta de uma empregada doméstica e filha de pais de classe média baixa. O capítulo é marcado por uma série de depoimentos de Luisa, abordando desde a infância; uma questão relevante se refere ao depoimento de Luisa, quando ela afirma que “ser negro é ter que ser o mais”, ou seja: ser a primeira da turma, a mais inteligente, a mais educada, a mais esforçada e assim por diante.

Neusa Santos Souza reconhece o esforço dos entrevistados ao relatarem suas vivências e experiências. As entrevistas duravam cerca de uma hora; o trabalho com a fala e a escuta traziam memórias que eram difíceis, tanto para autora quanto para as pessoas entrevistadas. O livro de Neusa é hoje reconhecido como um clássico dos estudos raciais no Brasil. Uma leitura desafiadora e repleta de sentimentos; sem dúvidas, um texto fundamental para aqueles que pretendem compreender um pouco mais sobre como o racismo afeta o psicológico de todos aqueles que são racializados em diferentes níveis dentro da nossa sociedade.

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