A narrativa gingante de Cidinha da Silva

Cidinha da Silva. Vamos falar de relações raciais? Crônicas para debater o antirracismo. Autêntica, 2024.

Em que momentos você já discutiu relações raciais com outras pessoas? Como essas conversas aconteceram? Acredita que podemos ampliar e aprofundar esse diálogo? É esse o convite que Cidinha da Silva nos faz em Vamos falar de relações raciais? Crônicas para debater o antirracismo. A obra surge como uma excelente oportunidade para enriquecer e transformar as discussões sobre antirracismo, um assunto cada vez mais presente nas mídias e especialmente relevante para aqueles envolvidos em movimentos educativos, tanto formais quanto informais.


O conjunto dessa obra desafia a abordagem das relações raciais no Brasil, pois vai além de um simples convite ao diálogo. Ele é um chamado à ação. Com um olhar agudo que desestabiliza tanto posicionamentos estereotipados quanto aqueles que, por vezes, aparecem em discursos que se querem contra-hegemônicos, cada uma das vinte e sete crônicas é acompanhada de uma proposta de atividade conjunta, intitulada “Para saber mais”. Elaboradas por Vanusa de Melo, essas atividades incluem QR codes com links para documentários, resenhas, exposições virtuais e entrevistas. Algumas trazem recomendações como “que tal dividir a turma em grupos, fazer um levantamento bibliográfico e compartilhar os resultados?”, sugerindo um direcionamento para o ambiente escolar. Mas não só. A linguagem, pensada para ser clara e acessível ao público mais amplo, preserva a profundidade necessária para estimular mudanças. Afinal, nenhuma teoria que não possa ser discutida numa conversa cotidiana é adequada para uma educação formativa, concorda?


Cidinha da Silva utiliza temas amplamente discutidos nas mídias para aprofundar o debate sobre relações raciais, nos provocando a olhar além da superfície. Com uma narrativa que nos conduz por ângulos menos visíveis, a leitura se torna instigante. A organização das crônicas, segundo o prefácio, segue um fio narrativo que se intensifica gradualmente, como se contasse uma história única, preparando o leitor para enfrentar “as águas densas e lamacentas” do racismo enraizado nas estruturas brasileiras. O prefácio já nos antecipa esse percurso. A organização dos textos parte de temas apropriados pela indústria cultural, avança pela precariedade exposta pela pandemia e pelos casos de racismo amplamente noticiados, até culminar em reflexões sobre o Brasil contemporâneo.


Como uma história a ser contada, a primeira crônica da compilação, “O que é colorismo? Isso faz sentido no Brasil?”, funciona como abertura da situação inicial, abordando a apropriação de temas raciais pela indústria cultural, como o engajamento nas redes sociais e a transformação de Angela Davis em uma popstar no Brasil (sobre esse assunto, sugiro também a leitura desse texto). Destaco ainda a crônica “10 anos da Lei de Cotas Raciais”, que traz, nas atividades propostas, o link para o texto integral do “Manifesto contra as cotas raciais”, com o nome dos 110 signatários. Além disso, levanta questionamentos instigantes: “Passados quase vinte anos, será que essas opiniões mudaram? Alguém se arrependeu? Quem tornou pública sua mudança de postura?”. A crônica também propõe uma atividade de pesquisa para que os leitores elaborem tabelas sobre as universidades públicas que adotam o sistema de cotas, avaliando os desafios enfrentados para garantir o sucesso dessa política.


O debate cronístico avança com uma discussão sobre privilégios, exemplificada em textos que abordam crimes de racismo amplamente divulgados, como os casos envolvendo o filho de Mirthes Renata e os filhos de Giovanna Ewbank. Há também uma crônica que contrasta o desespero de mães que, durante a pandemia, dependiam da merenda escolar para alimentar seus filhos, com aquelas que se queixavam do ganho de peso das crianças devido ao excesso de comida em casa. Essa sequência culmina na crônica “Quanto vale a vida de um homem negro?”, que reflete sobre o brutal assassinato de Moïse Kabagambe.


Outra das crônicas aborda a inversão no nome de Carolina Maria de Jesus, uma questão que também me incomoda profundamente. Na seção “Vamos conversar mais desta crônica”, há links para canções inspiradas em Carolina e seus intérpretes. No entanto, na crônica “Tardes negras na paulista”, senti falta de um link para as obras de Maxwell Alexandre, especialmente por Cidinha expressar suas reflexões sobre a entrevista de Sueli Carneiro para a Ilustrada ser tão curta. Apesar disso, o link para a canção de Cassiano é um ponto positivo.


No desfecho do livro, há “As contas do meu rosário são as balas de artilharia”, que trata de Itamar Vieira Junior e da urgência em emitir opiniões, especialmente quando envolvem críticas ao povo negro. Esse texto me fez refletir sobre a importância de valorizar nosso quilombo literário, como aqui no LetrasPretas. Portanto, apesar de ainda recente, já considero esta obra imprescindível para aprofundarmos mais o debate sobre antirracismo. Pela consistência de seu trabalho, é possível afirmar que a personagem-narradora-cronista Cidinha da Silva peregrina pelas “lamacentas águas”, convocando-nos à ação. Como Itamar, sua linguagem ginga entre o ataque e a sutileza, contribuindo para melhorar a visão antirracista a fim de enxergar temas complexos com a devida nitidez.

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