A invisibilidade da militância periférica

Para iniciar esse texto, encontrei uma dificuldade considerável, por dois motivos: não é algo simples falar de uma militância orgânica dentro da periferia, primeiramente, porque o assunto não é muito falado – há pouquíssimo interesse, quase nenhum, em saber como a periferia tem sobrevivido; além disso, porque é algo que me constitui como indivíduo, e é muito complexa a vivência de uma mulher negra periférica perante toda a invisibilidade à qual é relegada, tanto pela sociedade quanto pelos próprios movimentos sociais.

PERIFAO movimento feminista foi o primeiro movimento a me dar a chance de entender o contexto social no qual estou inserida, principalmente, por ser uma ideologia que já estava presente no meu cotidiano, sem que eu percebesse. Feministas somos todas nós e, numa condição de vulnerabilidade social, já éramos antes mesmo de conhecermos essa palavra. Nossas avós enquanto diaristas, nossas mães enquanto babás e nossas tias também já eram. E aquelas mulheres que estão ao nosso redor, nossas vizinhas que utilizam o transporte público todos os dias, que não possuem um sistema público de saúde de qualidade, que não possuem uma creche para colocar seus filhos também já são feministas. Pois apresentam uma forte resistência, apesar de todas as dificuldades e desigualdades presentes em nossas periferias. O feminismo periférico existe há muito tempo.

Desde quando iniciei a militância na universidade, observava que os espaços de luta e fala sempre estavam ocupados pelas mesmas pessoas que não representavam a minha realidade e de muitos estudantes.

Desde quando iniciei a militância na universidade, observava que os espaços de luta e fala sempre estavam ocupados pelas mesmas pessoas que não representavam a minha realidade e de muitos estudantes. Não há intenção da minha parte em fazer nenhum tipo de generalização; certamente havia alunos periféricos inseridos nos movimentos, porém numa porcentagem quase invisível. E hoje, a coisa não mudou muito, precisamos ao menos reconhecer. Nas movimentações, fala-se sobre a periferia, mas não há um diálogo real e prático com a própria. Em muitos momentos, fico completamente abismada com a superficialidade de certas análises acerca da periferia feitas por teóricos, intelectuais e líderes dos movimentos sociais. A periferia não é um conjunto simples e uniforme. É tão múltiplo e complexo como qualquer outro segmento social ou espaço territorial. Todavia, o distanciamento de muitos militantes, formadores de opiniões e intelectuais desta zona territorial os conduz a interpretar a periferia com base em estigmas.

Foi então que percebi a necessidade de lutar pelo meu lugar, entendi que o meu local de combate sempre foi a periferia e era nesse espaço que eu precisava atuar. A academia já estava cheia, havia muitas pessoas disputando aquele espaço. A militância periférica pode até parecer inexistente para aqueles que só militam em regiões centrais, mas ela se faz presente e mais resistente que nunca. Existem inúmeros coletivos e organizações difundidos pelas periferias do Rio de Janeiro, onde acontecem espaços de formação, grupos de estudo, espaços de autonomia feminina e espaços de cultura e lazer com a participação de toda a comunidade. A periferia tem muitas possibilidades de criação justamente por ser um lugar aberto e extremamente potente; dito isso, reforço como é importante que os indivíduos que estão em outros espaços de poder – por exemplo, a academia – se voltem para as favelas e periferias para compreender, de uma vez por todas, que a questão de classe é muito mais profunda do que pensamos, e enquanto as discussões sobre raça e classe seguem invisibilizadas dentro da academia, mulheres e homens negros permanecem sendo massacrados.

O ativismo na periferia se faz muito mais prático. E quando falo sobre praticidade, não me refiro a um trabalho braçal, muito menos sobre poucas leituras, pouco tempo de reflexão ou pessoas alienadas com nenhum senso crítico; me refiro à necessidade do diálogo real a ser construído, dentro e juntamente com a própria comunidade. A ideia aqui não é fazer uma crítica à teoria. É de suma importância estarmos imbuídos de teoria, principalmente se viemos de um ambiente invisível, onde poucos são ouvidos e onde somos minoria nos espaços de atuação. Inclusive, permito-me dizer que a periferia não está aquém da teoria, há muita produção e estudos teóricos aqui. O que não podemos fazer é classificar a luta das companheiras e companheiros de acordo com as leituras que fizeram ou não. Não adianta chegar despejando teoria, sem ao menos ter a empatia de ouvir as nossas posições e não se importar se naquele espaço há um conhecimento comum. Afinal, sua militância é para quem?

Quero que a periferia, que está completamente viva, seja reconhecida nos espaços de luta: somos sujeitos da nossa própria história, e nunca estivemos dormindo, apenas fomos silenciados.

Como mulher negra e periférica, me recuso a lutar por causas que não contemplam os meus. Ninguém vai alcançar a libertação sozinho, e à medida que a periferia continuar sendo marginalizada e invisibilizada, tendo porta-vozes que não nos representam, estaremos retrocedendo cada vez mais. Quero que a periferia, que está completamente viva, seja reconhecida nos espaços de luta: somos sujeitos da nossa própria história, e nunca estivemos dormindo, apenas fomos silenciados. Na periferia tem feminismo, tem ativismo, tem movimentos sociais, e a luta por aqui vai muito além das reuniões na faculdade e dos textões de Facebook; o embate aqui se faz dentro, fora, nas ruas, no trabalho, no transporte, de forma PRÁTICA E REAL. Que todas as irmãs periféricas sintam-se acolhidas e contempladas: continuarei lutando por todas. Até que todas sejam emancipadas!

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