“Heroína crespa”: o lirismo empoderador de Cristiane Sobral

Cristiane Sobral. Não vou mais lavar os pratos. 3ª ed. Brasília: Garcia, 2016.

photo_2018-03-05_18-16-44Mestra em Teatro pela UnB, Cristiane Sobral nasceu em Coqueiros, no Rio de Janeiro, e atualmente reside em Brasília. É escritora, atriz, professora e, merecidamente, vencedora do prêmio FAC Culturas Afro-Brasileiras, da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, de 2017. Sobral dedicou seus estudos ao teatro negro e à sua estética, ademais é diretora da área de Literatura Brasileira e Gestão Cultural no sindicato dos Escritores. Além de ser autora do livro de poemas Não vou mais lavar os pratos (primeira edição: 2010), objeto de análise desta resenha, a talentosa Cristiane Sobral também publicou O tapete voador (2016), Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz (2014) e Espelhos, Miradouros, Dialéticas da percepção, contos (2011).

A afirmação Não vou mais lavar os pratos, que intitula o livro de poemas escolhido para esta resenha é, sem dúvida, instigante. É um título que convida, provoca e arrasta aquela que o lê para dentro do livro, além de ser a primeira demonstração da genialidade da obra. Trata-se de um título que, além de instigar, propõe à leitora imediata reflexão — e talvez esse seja um dos propósitos dos poemas: estabelecer com a leitora uma reflexão sobre o cotidiano da negritude através do lirismo encantador das palavras.

A obra é composta por 123 poemas que evocam, como já enunciado acima, a experiência cotidiana, especialmente da vivência feminina: são versos que falam do universo que circunda a maternidade, especialmente sobre desejo e a impossibilidade da gestação, como no poema Abrúptero; sobre o poder de decisão e a situação da mulher negra na sociedade atual, como em Nzingas guerreiras e Escova progressiva?; sobre o ato de criação poética, no caso de Parindo poesia; sobre diversos tipos de relacionamentos, especialmente o seu viés amoroso expresso em Infinitamente provisório; e sobre a saudade de um passado distante, de familiares e das raízes africanas, como em Saudade. A partir dessa breve e simples apresentação da temática da obra, percebe-se a pluralidade de temas que percorrem todas as páginas. Cristiane Sobral desenvolve esses temas em versos majoritariamente livres e que refletem uma sensação de liberdade que percorre todo o livro. Os poemas de Não vou mais lavar os pratos são libertadores, parecem manifestar o desejo do eu lírico pela emancipação negra dos padrões estéticos pré-estabelecidos, das relações humanas desiguais, da exploração e da imposição tácita de posturas ao gênero feminino.

Além de despertar um desejo por autonomia, alguns poemas do livro sugerem uma importante inversão de lugares. O poema de abertura possui o mesmo título que a obra; nele, fica muito claro o porquê da afirmação contundente expressa na capa: “Não vou mais lavar os pratos/ Nem vou limpar a poeira dos móveis/ Sinto muito/ Comecei a ler”. Esses versos iniciais demonstram uma tomada de consciência do eu lírico, ao mesmo tempo em que evidencia – e antecipa algo que estará nos versos seguintes – uma nova configuração pessoal. “Sinto que posso começar a ser a todo instante/ Sinto/ Qualquer coisa”, note que nesses versos o eu lírico evoca a sua própria transformação ao estabelecer uma mudança interior, provocada a partir da reflexão através da leitura, que modifica o seu estilo de vida exterior. O sujeito poético quer romper um paradigma histórico e se colocar em posição de igualdade com outros indivíduos não negros.

Dito isso, outro tema sobre ruptura de posturas pré-estabelecidas diz respeito à libertação feminina proposta pelo eu lírico da autora. No livro, a questão da maternidade é trabalhada de maneira profunda e reflexiva, diferentemente da perspectiva tradicional que a concebe como algo natural e inerente ao feminino:

Quem disse que são infelizes as mulheres inférteis?
Quem disse que são felizes as mulheres com as suas mamadeiras?
É preciso ter muito peito para não parir e não parar
É preciso ter muito peito para enfrentar as surpresas da existência

Abaixo os inacreditáveis roteiros com final feliz.

Esses versos pertencem ao poema Abrúptero, em que, através dos questionamentos iniciais, a persona poética provoca o leitor sobre a noção de felicidade que a sociedade procura incidir sobre a mulher. Não existe roteiro ou caminho certo para a realização pessoal feminina; a existência é uma experiência individual que deve se desenvolver à parte dos “inacreditáveis roteiros com final feliz”. Atrelada de certa forma à maternidade, outra questão relacionada à ruptura diz respeito ao poder de decisão feminino. Em Nzingas guerreiras, o eu lírico fala sobre “Mulheres corajosas diante da cruel chibata da realidade/ Que souberam dar a volta por cima/ Olhar para trás e seguir adiante/ Mulheres que reinventaram o poder de decisão”; há uma valorização e um incentivo para que o sujeito feminino delibere cada vez mais sobre a própria vida e se distancie das imposições sociais.

Além dessa valorização, o sujeito poético exorta o leitor para um empoderamento estético. Há diversos poemas no livro que exaltam a beleza do cabelo crespo e que falam do processo de aceitação e compreensão dessa curvatura capilar pouco valorizada pelos padrões estéticos racistas – se você que me lê agora já passou pela transição capilar, certamente se sentirá tocada(o) por esses temas; se você está em transição, esses versos são importantíssimos, pois são força auxiliadora nesse difícil processo de aceitação. No poema Invisível, por exemplo, o eu lírico reforça a beleza da sua individualidade: “Percebo não caber nos esclarecimentos disponíveis/ Assumo quem sou/ Minha carta de alforria está escrita em papel pardo/ Mas meu sangue é negro/ Meu cabelo é bom”.

Outro aspecto que vale destaque diz respeito ao aspecto formal e aos metapoemas que compõe a obra. Como já mencionei anteriormente, a maioria dos poemas é constituída por versos livres, fato que reforça a sensação de liberdade que há por todo o livro; a liberdade expressa no conteúdo alcança os níveis formais. Outro recurso recorrente em alguns poemas é a repetição, estratégia que reforça a importância de uma ideia para a fruição literária e para a reflexão. Ademais, os poemas que falam sobre o processo de criação literária são muito interessantes, especialmente porque o espaço do negro como autor de literatura ainda é pouco reconhecido. De alguma forma, esses versos também incentivam uma produção literária cada vez mais negra. Em Poema de Narciso, há o que considero ser uma síntese do projeto de dizer da obra:

Não será um exercício fútil
Verás que trago um poema útil
Munição para os tempos de violência
Cachecol para os dias frios
Palavras pretas luzeiro
Poema farol.

 

Há muitas coisas boas para se dizer e para analisar no livro Não vou mais lavar os pratos. É uma linda compilação de poemas que tem um sujeito poético centrado numa primeira pessoa negra. É inevitável não mergulhar nessa obra lírica e se reconhecer em alguns versos. Infelizmente, foi necessário fazer um recorte de temas e poemas para esta resenha, pois a obra é muito rica, plural e permite uma série de reflexões e análises que este pequeno texto não comporta. Portanto, sua leitura é fundamental, porque a qualidade dos versos é notável, constituindo uma bela exaltação à negritude.

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