“Nós protagonizamos as nossas próprias histórias”

Se eu soubesse o que eu estou fazendo, eu diria que estou “descolonizando os currículos”, como nos ensina a nossa ministra e professora mineira Nilma Lino Gomes (2012). Dessa forma, como num passe de mágica, a minha narrativa se fez visível e as pessoas se emocionaram. Não, pera! Esse é o discurso deles, porque nós (mulheres pretas acadêmicas) sabemos que os anos acadêmicos não são um mar de rosas e nem um passe de mágica. Para me tornar visível, muito conhecimento foi adquirido e produzido; aceitar o convite de discursar para o Magnifico Reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – na última cerimônia de premiação da 26ª Semana de Iniciação Científica, Prêmio de Iniciação à Ciência “Monica Heilbron” – e para um auditório lotado foi difícil, mas o maior desafio está sendo agora, escrever para aquelas que assim como eu são pretas e têm acesso às letras; escrever para o LetrasPretas. É um desafio porque não fomos ensinadas a falar, tampouco a escrever. Representar um determinado grupo é uma responsabilidade muito grande, pois o medo de “errar” com vocês é maior do que o de “errar” com “eles”, ou seja, não ser aceita pelos meus pares me causaria talvez um novo trauma. Por isso, de antemão já inicio pedindo “desculpas” por nem sempre conseguir ser forte, e por nem sempre a minha escrita contemplar o que se espera de uma ex-estudante de Graduação do Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação EDU/UERJ que teve seu rosto estampado na fanpage da UERJ, mas que anteriormente havia recusado tal convite. O medo às vezes nos torna mais ignorantes do que nós realmente somos. Ele nos trava, nos impede de enxergar além e de ver que algumas escolhas nossas não privam somente a nós mesmos, privam tantas outras pessoas.

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Durante 5 anos, pesquisei sobre o processo de formação de mulheres negras, e me parece que foi somente “no último dia” que eu entendi, de fato, a importância dessa pesquisa. Minhas experiências e descobertas enquanto mulher preta se relacionam intimamente com a Universidade – espaços de formação –, com a entrada na UERJ e o ingresso no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PIBIC-CNPq) entre 2013-2017; através do Grupo de Pesquisas “Culturas e Identidades no Cotidiano”, fui afetada pelas pesquisas na área da Educação e das Relações Etnicorraciais, e a partir de então venho contribuindo com a produção de material sobre os estudos dessas temáticas. A minha Monografia – trabalho de conclusão de curso –, foi como um feedback para UERJ, que, mesmo com toda a dificuldade por conta da situação de abandono governamental em que se encontra, tem resistido em continuar sendo uma Universidade aberta e acolhedora para/com todos. Por isso, optei por pensar e discutir sobre histórias contadas por mulheres: experiências e desafios de ingresso e permanência de mulheres pretas em universidades públicas, e a importância desses espaços acadêmicos na contribuição para/com o processo de (des)construção da sua identidade negra/preta. Apresento algumas narrativas de estudantes e ex-estudantes do Ensino Superior de instituições públicas de ensino –– histórias que em algum momento cruzaram-se com as minhas –, em diálogo com pensadoras eleitas como base teórico-metodológica para ajudarem nessa reflexão: as autoras Nilma Lino Gomes (2003), com as contribuições sobre educação, identidade negra, formação de professores e descolonização dos currículo; Conceição Evaristo (2015), com as contribuições de suas “escrevivências”, e Mailsa Passos (2014), com as contribuições referentes à “metodologia do encontro”, segundo as quais fazer pesquisa na área da educação é “encontrar-se com o outro” e deixar que esse outro nos encontre, e de forma atenta ouvir suas narrativas enquanto valorizamos todas as possibilidades de troca que cada encontro nos proporciona. Conhecimento é poder, e eu tenho expandido o meu através dele; e você, “para que(m) serve o teu conhecimento?”

Receber um prêmio em que a pessoa homenageada é uma mulher é bastante significativo, e seria mais ainda se essa mulher fosse uma mulher preta, se naquele local de cerimônia houvesse mais meninas/mulheres pretas. Mas, assim como ainda são poucas as estudantes negras, também são poucas as docentes.

Sentir medo fez/faz parte do meu processo de formação. Hoje eu entendo que todos os meus trabalhos, principalmente esse último – o premiado – são produções coletivas, e não falam só do meu ENCONTRO (Passos, 2014) com a UERJ, como também falam de tantas outras meninas/mulheres pretas que a academia tem ajudado a formar, e que nos mostram que “outros lugares” são possíveis para TODAS nós! E foi por isso que, depois do “não, eu não vou conseguir falar”, eu pensei e disse “sim, eu aceito”. Foi difícil conseguir falar para um público tão grande, mas foi necessário mostrar a todxs que, assim como a UERJ, nós existimos, produzimos conhecimento, resistimos também e desejamos resgatar a dignidade que nos foi roubada através das várias formas de apagamento das nossas histórias, contadas por outras bocas e mãos que não as nossas – do nosso povo! Nós somos protagonistas das nossas próprias histórias, e essas histórias precisam ser contadas por nós!

Receber um prêmio em que a pessoa homenageada é uma mulher é bastante significativo, e seria mais ainda se essa mulher fosse uma mulher preta, se naquele local de cerimônia houvesse mais meninas/mulheres pretas. Mas, assim como ainda são poucas as estudantes negras, também são poucas as docentes. E esse é um dos motivos pelos quais esse prêmio foi dedicado a todas as mulheres pretas que vieram antes de mim e às que virão depois, porque entendo que falar de “coisa de preto” é trazer histórias que não são só minhas, são de tantas outras mulheres pretas que ingressaram, que permaneceram e que a academia tem ajudado a formar, e também mulheres pretas que não estão aqui (que não conseguiram chegar e/ou que não querem estar aqui), mas cujos saberes transbordam e talvez nem caibam aqui dentro. Mulheres em constante processo de formação, que nos mostram que histórias importam! Histórias de lutas e resistências cotidianas que se cruzam e se completam, mas não se tornam uma única história. Como nos ensina a escritora nigeriana Chimamanda Adichie (2009), “não existe apenas uma única história sobre determinado local, há sempre muitas histórias e muitos sujeitos” que fazem parte direta e indiretamente, afinal, nós não andamos sós!

Se “falar é existir absolutamente para o outro” como nos ensina o filósofo martinicano Frantz Fanon (2008), eu suplico: FALE, GAROTA! Em toda oportunidade que tiver, mostre ao mundo a potência que a fala tem. Afinal, estamos vivendo tempos difíceis, e resistir se faz cada vez mais necessário. Como o conhecimento é uma das coisas mais preciosas que temos, resista com/pela fala e com/pela escrita, faça delas suas armas e lute! E se der “medo”, vá com medo mesmo! “Os preto é chave, abram os portões!”, como diria o músico paulista Rincon Sapiência (2017).

Estar na universidade é uma grande viagem, sobretudo em uma universidade pública, gratuita e de qualidade como a UERJ. E por esse motivo me identifico bastante com esse trecho do livro Na Minha Pele (2017, p. 13), escrito pelo ator e diretor Lázaro Ramos:

Esta viagem que começa aqui só é possível porque redescobri um mundo que é meu, mas que não pertence só a mim. Ele é parte de uma busca que todos nós devemos fazer para compreendermos quem somos. Por isso, sempre que eu falar de mim neste livro, estarei também falando sobre você. Ou, ao menos, sobre essa busca saudável por identidades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADICHIE, Chimamanda. O perigo da história única. TED Ideas Worth Streading, 2009. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=qDovHZVdyVQ&gt;. Acessado em: 20 dez. 2017.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

GOMES, Nilma Lino. Educação, identidade negra e formação de professores/as: um olhar sobre o corpo negro e o cabelo crespo. In: Educação e Pesquisa. São Paulo: v. 29, n.1, 2003, p. 167-182.

GOMES, Nilma Lino. Relações étnico-raciais, educação e descolonização dos currículos. Currículo sem fronteiras, v.12, n.1, jan/abr 2012, p. 98-109.

PASSOS, Mailsa Carla Pinto. Encontros cotidianos e a pesquisa em Educação: relações raciais, experiência dialógica e processos de identificação. Educar em Revista, Curitiba: Editora UFPR, n.51, jan./mar. 2014, p. 227-242.

RAMOS, Lázaro. Na minha pele. 1ed., Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. ISBN: 978-85-470-0041-7.

SAPIENCIA, Rincon. Ponta de Lança (Verso Livre). Galanga Livre, São Paulo, 2017.
Disponível em: < http://www.rinconsapiencia.com.br/&gt;. Acessado: 20 dez. 2017.


Sobre a autora

danielle_perfilDanielle Oliveira é  graduada em Pedagogia pela Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, com bolsa PIBIC/CNPq entre 2013-2017; pesquisadora com interesses em educação e relações étnicorraciais, incluindo as discussões de gênero ancoradas à perspectiva do feminismo negro a partir do processo identitário da afrodiáspora. Participa do Grupo de Pesquisas Culturas e Identidades no Cotidiano, na linha dos “Cotidianos, Redes Educativas e Processos Culturais”. Currículo Lattes.

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