Os caminhos de Yzalú

Yzalú. Minha Bossa é Treta. 2016.

YzaluYzalú lançou seu primeiro álbum, Minha Bossa é Treta, em 2016, no simbólico dia 8 de março; não obstante, ali estava o resultado de uma longa trajetória – que envolveu uma passagem pelo grupo de rap Essência Black, de São Bernardo, e pela árdua rotina de cantar em barzinhos. Em algumas entrevistas, Yzalú resgata a ocasião em que conheceu a rapper Dina Di – precocemente falecida em 2010, apenas um ano após receber o Prêmio Hutúz, para o qual já fora indicada em 2008. Segundo Yzalú, o encontro com Dina Di lhe permitiu compreender seu lugar como mulher dentro do rap, fortalecendo também a decisão de inserir o rap no violão. Com efeito, se no início dos anos 2000 Rappin Hood enfatizava a aproximação entre o rap e a MPB, a obra de Yzalú abraça essa ideia com uma proposta inovadora, aliás bem expressa no título de seu álbum.

“Bossa” remete à bossa nova – gênero que elaborou uma nova forma de se tocar o samba, nascido na classe média carioca da zona sul, em fins dos anos 1950, caracterizado pelo “cantar baixinho” e pela suavidade temática (“o amor, o sorriso e a flor”, como afirmavam Tom Jobim e Newton Mendonça em Meditação). Ao qualificar sua “bossa” como “treta”, Yzalú instaura uma poderosa reversão, ao conceber um tipo de “bossa” fundamentada no embate e no conflito – elementos fundamentais do rap, enquanto forma de expressão nascida de negros marginalizados. Desse modo, Yzalú efetiva um movimento de reapropriação: se a bossa nova foi criada por uma elite que se apossou da cultura negra, a “bossa treta” de Yzalú constitui a reapropriação, por uma preta, de elementos da bossa nova – como o uso do violão e a pronúncia cuidadosa das letras –, mas de modo a preservar a essência combativa e politizada do rap. Não por acaso, Yzalú destaca como ponto de partida para a concepção do álbum o lançamento da canção Mulheres negras, escrita pelo rapper Eduardo, interpretada pela cantora com uma dicção áspera e veemente, acentuada pelo acompanhamento ao violão. Das 12 faixas de Minha Bossa é Treta, 7 foram compostas exclusivamente por Yzalú, e é sobre algumas delas que me concentrarei nesta resenha; as outras 5 foram compostas por Sabotage (Figura difícil, que reaparece no fim do álbum), Mariel Reis (Lamentos de um Poeta) e pela artista em parceria com Pazsado e Marko Andrade (Teu Sorriso) e com Amanda NegraSim (#ÉoRapTio).

Alma Negra, canção que abre o álbum, já dá o tom da obra de Yzalú: a letra curta e cortante explora habilmente as rimas internas, de modo a compor uma mensagem direta e contundente. A “alma” identificada como “negra” é imediatamente qualificada como “pura” e “verdadeira”, o que restaura a autenticidade própria do sujeito racializado e reverte as determinações brancocêntricas; o reconhecimento da exclusão em decorrência do racismo (“sem convite”), seguida pela instigação confrontadora: “Me convide / Não hesite! / Não hesite!”. Ao fim, a incessante repetição daquilo que “crescemos ouvido” – “Que o preto não tem vez / Que o preto não tem vez / Que o preto não tem vez” – tem um sentido retórico: se assim ocorre na sociedade que nega aos negros as oportunidades, será diferente em Minha Bossa é Treta, visto que ali apenas a voz negra terá vez.

“Raspe o fundo da verdade até permitir que / voa”, canta Yzalú em Deixa pra lá, jogando com as conjugações e repetindo por três vezes este último verbo: uma música que é também um canto de libertação – que trata do gesto de reinventar-se, por meio de um retorno à própria subjetividade:

E vou te falar
Que o que me desanimou já passou
Agora eu sou outra, vou
Resumindo assim um verso
Retomando o passo certo
Não quero ego, me nego
Ouça o som de alma meu irmão
Sem pique bandidão, favela na função
Sente o flow, no meu tom

Não obstante, isso não quer dizer que a resistência possa efetivar-se unicamente como uma afirmação da individualidade. Reencontrar-se, “sentir o flow”, implica refazer alianças e repensar caminhos; por outro lado, isso significa abrir caminhos que levem ao fortalecimento de lutas coletivas – uma lição que o povo negro conhece desde o tempo dos quilombos. Assim é que, em Camin, Yzalú abre novas trilhas, convoca companheiros, saúda seus mestres –

Evolução, construção, essa é a ideia
E desestressa, desestressa, sai do meu camin
Tô com meus irmão, é claro, não tô sozin
Ideia reta tiozin, não vou pra grupo, neguin
E Zé fini, quem duvida negou
Subestimando a força nagô
Firmeza vacilô, se pá nem se ligou
Ouvi o mestre Saboti, rainha Dina Di
Essa é a humildade, fi

A trajetória de Yzalú segue muito longe dos lugares-comuns e das fórmulas feitas. Se sua “bossa treta” já desafia rótulos e categorias, sua abordagem dos temas e suas letras confirmam a disposição para seguir uma senda própria: o camin de Yzalú. Sigamos seus passos.

 

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