Kathleen Cleaver, Pantera Negra (parte I)

KC1No texto introdutório a Por uma revolução antirracista, antologia de textos publicados no jornal dos Panteras Negras que traduzi e disponibilizei na internet (baixe aqui), afirmo que “se o Partido Pantera Negra nunca superou plenamente as estruturas patriarcais, ao menos foi capaz de facultar às mulheres – mesmo que não em todos os momentos e em todos os espaços – uma participação muito mais ampla do que a vasta maioria das organizações revolucionárias de sua época”. Com efeito, sem desconsiderar as importantes críticas por parte de mulheres Panteras Negras como Elaine Brown ou Assata Shakur ao sexismo perpetrado por muitos membros do Partido, importa observar que nenhuma outra organização militante negra da época ofereceu tanto espaço para a discussão sobre questões de gênero quanto o Partido Pantera Negra – possibilitando ainda que diversas mulheres alcançassem postos de liderança, chegando mesmo à presidência. Neste texto, pretendo resgatar a importância de uma dessas mulheres: Kathleen Neal Cleaver, até hoje um dos rostos mais conhecidos dos Panteras Negras.

Nascida em Dallas, Texas, em 13 de maio de 1945, Kathleen Neal nascera em uma família de intelectuais: seu pai, Ernest, era professor de Sociologia, e sua mãe era formada em Matemática. Após mudar-se para Nova Iorque, aos 21 anos Kathleen se envolveu com o Comitê Coordenador Estudantil Não-Violento (Student Non-Violent Coordinating Committee – SNCC), então uma das mais importantes organizações envolvidas com a luta pelos Direitos Civis. Kathleen conheceu Eldridge Cleaver em abril de 1967, quando trabalhava na organização de uma conferência estudantil na Universidade de Fisk, em Nashville, Tennessee. Naquela época, Eldridge ainda não participava oficialmente do Partido Pantera Negra, já que estava em condicional, mas já se tornara uma figura política importante por conta da publicação de Soul on Ice, coletânea de ensaios escritos durante sua permanência na cadeia – motivo pelo qual recebera de Huey Newton e Bobby Seale, fundadores do Partido, um convite para unir-se à organização. Kathleen e Eldridge não tardaram a se aproximar afetivamente; já em novembro de 1967, ela deixou o SNCC e se mudou para a Califórnia, passando a trabalhar no Partido Pantera Negra. Apenas um mês depois, eles se casaram – contra a vontade da família de Kathleen, devido à passagem pela prisão de Eldridge.

KC2A ascensão de Kathleen Cleaver entre os Panteras Negras foi quase que imediata. No final de 1967, Huey Newton foi preso – e corria o risco de ser condenado à pena de morte, acusado de assassinar o policial John Frey. Kathleen desempenharia um papel crucial, concebendo algumas das atividades mais importantes da campanha pela sua libertação: foi dela a ideia de fazer manifestações em frente aos tribunais durante as sessões em que Huey foi julgado, a fim de atrair jornalistas. Kathleen também começou a distribuir comunicados à imprensa informando sobre outras manifestações dos Panteras Negras, assim se tornando a Secretária de Comunicações do Partido e uma de suas principais porta-vozes; ela trabalharia, ademais, como editora assistente de The Black Panther, o jornal oficial do Partido Pantera Negra, que seria uma das principais fontes de recursos para a organização.

A segunda parte deste texto será publicada na próxima semana.

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