Kathleen Cleaver, Pantera Negra (parte II)

KC3Outra demonstração da visibilidade que Kathleen Cleaver alcançara no Partido Pantera Negra foi sua candidatura à Câmara Municipal, em 1968 – mesma ocasião em que Eldridge Cleaver se candidatara à presidência. Resultado de uma coalizão com o Peace and Freedom Party, a candidatura consistia basicamente em um gesto político contra Willie Brown, negro eleito deputado que não atendia à agenda política do povo preto (ignorando, por exemplo, a luta pela libertação de Huey Newton). Não obstante, os Panteras Negras efetivamente realizariam uma campanha por votos, e a fotografia de Kathleen Cleaver estampada nos cartazes, tendo nas mãos uma escopeta, logo se tornaria icônica.

Enquanto permanecessem vinculados ao Partido Pantera Negra, os Cleavers seriam figuras centrais na organização: Eldridge se firmaria como um de seus principais ideólogos; Kathleen administrava as relações com a imprensa, planejava eventos e manifestações, assinava artigos, proferia palestras e se consolidaria como uma das mais importantes faces públicas dos Panteras Negras. As coisas começariam a mudar em abril de 1968, quando Eldridge precisou partir para o exílio após o confronto com policiais em Oakland que resultou na execução do “Pequeno” Bobby Hutton, então com apenas 17 anos. No fim do ano, Eldridge fugiu para Cuba, deslocando-se posteriormente para a Argélia. Em 1969, Kathleen e o Ministro da Cultura do Partido Pantera Negra, Emory Douglas, uniram-se a Eldridge, fundando a seção internacional do Partido. Neste ano e no ano seguinte, Kathleen daria à luz seus filhos: Maceo, nascido na Argélia; e Joju, nascida na Coreia do Norte, para onde os Cleavers viajaram como militantes anti-imperialistas.

KC4Em 1971, as divergências políticas com Huey Newton fizeram com que Eldridge Cleaver fosse expulso do Partido Pantera Negra. Ele e Kathleen fundaram então a Rede de Comunicações dos Povos Revolucionários (Revolutionary Peoples Communications Network – RPCN), cujo estabelecimento nos Estados Unidos ficou a cargo de Kathleen, visto que Eldridge ainda não podia retornar ao país – só o faria em 1975, quando Kathleen já cuidara de todos os procedimentos legais para que ele obtivesse uma sentença reduzida. Após essa nova passagem pela prisão, Eldridge consumou a guinada política para a direita conservadora que levaria o casamento ao fim. Na verdade, Kathleen admitiu em entrevistas que já considerara anteriormente o divórcio, mas relutara em levá-lo adiante por não desejar separar a família, uma vez que a escravidão cindira famílias negras por séculos e o próprio Partido Pantera Negra havia sucumbido em meio à paranoia, a acusações e divergências. A separação finalmente ocorreu em 1981, quando Kathleen partiu para New Haven e completou sua formação na Universidade de Yale; o divórcio foi concluído em 1987 – dois anos antes da morte de Eldridge.

KC5Hoje em dia, Kathleen Cleaver mantém seu compromisso com a militância política, seja defendendo prisioneiros políticos, seja ministrando palestras sobre o Partido Pantera Negra. Em uma entrevista recente, Kathleen expressou sua alegria por não estar presa – destino de muitos Panteras – nem ter se tornado uma republicana. Sob o chiste, há uma veemente mensagem: Kathleen preserva sua coerência política, não repetindo a viragem reacionária de Eldridge, e luta ativamente pela libertação de figuras como Mumia Abu-Jamal. Em outras palavras: Kathleen Cleaver é uma das vozes que mantêm vivo o espírito dos Panteras Negras – e de tudo o que ele significou para a luta revolucionária das mulheres negras.

Leia a primeira parte deste texto aqui.

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