Sobre águias e andorinhas

Paulina Chiziane. Andorinhas. Belo Horizonte: Nandyala Editora, 2017.

as-andorinhas-paulina-chiziane-ed-nandyalaAndorinhas, obra de Paulina Chiziane, primeira romancista moçambicana e ganhadora do Prêmio José Craveirinha de Literatura de 2013, é constituída de três contos que fazem referência à liberdade através da simbologia das andorinhas.

O primeiro conto, intitulado Quem manda aqui, conta a história de um imperador que se sente destituído de seu trono após ser acertado no olho pelas fezes de uma andorinha. A partir desse momento, ele declara guerra aos pássaros, e reúne seus melhores guerreiros para pôr fim a todos os pássaros da espécie. A história remete ao passado de Moçambique, quando ainda se chamava Gaza e era governada pelo ditador Frederico Gungunhana, que reinou de 1884 a 1895. O imperador do conto faz referência a Gungunhana, que tinha o mesmo objetivo com o povo Chope – mas que, assim como as andorinhas, resistiu bravamente.

“Se queres conhecer a liberdade, segue o rasto das andorinhas.”

O segundo conto, que se chama Maundlane, o Criador, é o mais longo do livro, tratando de questões como a vida, a morte e o sonho. Nele, narra-se a história de um herói moçambicano – seu nascimento, sua vitória e morte. O conto faz referência a Eduardo Chivambo Mondlane, um dos fundadores e primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique, grupo no qual Chiziane faz parte.

Denominado Mutola, o terceiro e último aborda, através da metáfora da águia e da galinha, a história de Maria Lurdes Mutola, atleta moçambicana. Um homem decide criar uma águia como uma galinha, até que um biólogo o convence de que uma águia nunca será uma galinha porque aquela foi feita para a liberdade. Com isso, ele solta a águia e ela voa. Essa águia simboliza a atleta que, ao quebrar os paradigmas impostos a ela por ser uma mulher, abriu as asas e voou para a liberdade.

Repleto de simbologia, Andorinhas é uma obra que te põe em contato direto com a cultura Chope, além de relatar a história de militância política de Moçambique e a emancipação da mulher, temas característicos nas obras de Paulina Chiziane. O livro resgata o passado moçambicano através do primeiro conto, aborda a relevância do herói e se encerra com o presente, com a força feminina de Maria Lurdes Mutola, que precisou enfrentar um conjunto de imposições sexistas para se tornar uma atleta moçambicana de destaque. Permeando todos os contos está a ideia de liberdade que é representada pelas andorinhas: “o ser humano não tem asas, mas voa, e a mente foi feita para liberdade”.

Com todos os contos se interligando no final, a obra de Chiziane te leva à reflexão sobre o que é verdadeiramente a liberdade, sobre como resistir e voar em ventos que muitas vezes serão contrários. Como dito acima, o último conto se inicia com uma história popular da população Chope, o biólogo e a águia. O ensinamento que podemos tirar é que assim como as andorinhas “as águias são filhas da liberdade”. Às vezes somos levados a pensar que somos meras galinhas, quando na verdade somos águias, andorinhas, prontas para a liberdade, prontas para alçar altos voos.

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