“Ai, a Conceição?!” (um caso de racismo acadêmico)

photo_2018-08-15_22-53-43Durante minha trajetória na faculdade, até por volta do 6° período, não tinha acontecido um episódio ou uma situação na qual eu tivesse sofrido racismo de uma forma explícita. Não que o meio acadêmico seja um espaço maravilhoso e acolhedor para negras e negros, o que, definitivamente, ele não é. Nem me refiro àquelas situações em que você nunca é lembrado pelo professor, ou, ao contrário, quando parece que você é o único aluno presente em sala de aula e que o professor pode dirigir todos os seus questionamentos a você. Mas, como nem tudo são flores, esse dia chegou.

Eu ainda não conhecia a poesia de Conceição Evaristo. Na verdade, eu tinha conhecido a autora há pouco tempo e estava super maravilhada com o quanto a sua obra é fantástica e, também, com o quanto sua escrita comunicava a mim, enquanto mulher negra. Esse fato é ainda mais significativo porque ela foi a primeira autora negra contemporânea sobre quem eu tive conhecimento. Surgiram duas oportunidades em que pude ouvir suas palavras ao vivo e a cores: uma tinha sido uma palestra que a autora deu no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), do Rio de Janeiro; a outra, sua presença no evento da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada), que aconteceu na Uerj, em 2017, em que a escritora foi homenageada.

Na primeira palestra em que eu a ouvi, não pude esconder a minha alegria. Era muito bom, finalmente, perceber que as nossas histórias estavam sendo contadas por nós (“nossas”, pois as experiências são muito parecidas entre nós, mulheres negras), deixando de ser o objeto para ser a autora de sua própria história. Nessa ocasião, eu conheci seu livro de poesia, Poemas da recordação e outros movimentos, e fiquei abismada com a sensibilidade de Conceição e com a destreza com a qual ela brinca com as palavras. Comprei o livro na semana seguinte, assim que soube que precisaria fazer um trabalho sobre um poeta contemporâneo para uma disciplina da faculdade. Eu nunca fui muito fã de poesia, justamente por ter muita dificuldade com esse gênero literário, mas a leitura desse livro simplesmente fluía, e eu entendia o que a poeta dizia com aquelas palavras.

Na ocasião do evento da ABRALIC, tive a oportunidade de conhecer a autora um pouco mais “de perto”. Ela é superacessível e megafofa, muito solícita a atender as (muitas) pessoas que lhe pedem autógrafo, fotos ou só um abraço. Por alguma razão que, até hoje, não compreendo, não fui falar com ela. Acho que tinha ficado meio paralisada por aquela pessoa, cujo trabalho eu passara a admirar tanto, estar bem ali, ao meu lado. A sua fala foi extremamente tocante e necessária, sempre tocando em questões que são muito particulares a nós, mulheres negras.

Nessa época em que eu conheci Conceição Evaristo, eu tinha puxado uma disciplina intitulada Literatura Brasileira VI, em que o programa tratava da poesia contemporânea brasileira. O enfoque da disciplina era uma abordagem mais biográfica dos poetas trabalhados. Certo dia, a professora falou sobre qual seria a proposta para a avaliação final do curso: um trabalho biográfico sobre um poeta contemporâneo brasileiro. Quando escutei isso, não tive dúvida, faria meu trabalho sobre a Conceição. Na minha cabeça, não havia nenhum empecilho para que eu pudesse fazer essa escolha, já que a condição para tal partia do ponto de a/o poeta escolhida/o ser contemporâneo. No entanto, me enganei.

No mesmo momento, levantei minha mão e perguntei se eu poderia fazer meu trabalho sobre a Conceição; não queria dar o mole de alguém escolhê-la antes. A reação da professora não poderia ser mais inesperada para mim: ela me olhou com uma expressão de extremo enfado e, logo, indagou, num tom sarcástico e intimidador: “Ai, a Conceição?! Não aguento mais!”. Como sou meio obstinada quando se trata de algo que eu quero muito, insisti em perguntar se poderia utilizar essa opção, ela se virou e perguntou: “Qual parte do ‘não’ você não entendeu?”, diante de toda a turma. Não satisfeita, ela começou a falar, numa tentativa de diminuir a autora e, sempre, muito sarcástica: “Mas a Conceição é prosadora! Ela não faz poesia! Ela tem algum livro publicado de poesia?”. Nesse momento, eu estava com meu livro na mochila e o retirei com o maior gosto, dizendo: “Tem sim, é esse aqui”. Era visível o constrangimento na face da professora, porém tinha sido um mal-estar extremamente desnecessário e causado, única e exclusivamente, por ela. Eu me senti muito mal, num misto de repressão e constrangimento que eu realmente não esperava. Fiquei chateada, não entendi qual tinha sido a necessidade de a professora me tratar daquela maneira, ainda mais perante toda a turma. Até hoje, não entendo qual foi a sua intenção ao causar toda aquela situação.

Depois que isso aconteceu, eu não queria mais frequentar as aulas dessa docente, mas era “obrigada” porque não queria me atrasar mais do que já estava depois de duas greves. Tive de continuar, escolher uma outra autora — branca e uma das poucas mulheres da lista disponibilizada — qualquer e fazer um trabalho sobre ela. Mas, eu refleti bastante sobre toda a situação, pensei sobre o quanto o cânone literário ainda é muito restrito a um certo tipo de escritor e o quanto o meio acadêmico é resistente e relutante em ouvir outras vozes que, antes, eram silenciadas. Eu pensei muito e só consegui chegar à conclusão de que o único obstáculo nessa situação toda era a cor da pele de Conceição, nada mais. No entanto, a academia terá de ouvir, por mais que não queira, as vozes que não suportam mais serem caladas. Sigamos!

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