A escrita antifascista de Lívia Natália (parte I)

Lívia Natália. As férias fantásticas de Lili. Ciclo Contínuo Editorial, 2018.

csm_lilicapa_ffe2ed4cc7As férias fantásticas de Lili é o primeiro livro infantil da professora e poeta Lívia Natália. Lívia Maria Natália de Souza Santos nasceu em Salvador, em 1979; doutora em Teorias e Crítica da Literatura e da Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), atualmente é professora adjunta do setor de Teoria da Literatura desta mesma universidade. A poeta baiana já escreveu outros livros, entre os quais Dia Bonito para Chover – livro que lhe proporcionou o prêmio APCA 2017, da Associação Paulista de Críticos de Artes, de melhor livro de poesia do ano.

Este livro infantil narra, em forma de versos, a história de Lili, uma menina que é conhecida por sua alegria e simpatia; mas que, no primeiro dia de aula, se encontra triste e desanimada. Exu – Orixá que é uma espécie de mensageiro entre o divino e humano – percebe essa mudança de ânimo e corre para contar à deusa, mãe da menina, que algo não estava bem com sua filha. Oxum – Orixá das águas doces, amor e beleza-, desesperou-se ao ver sua filha chorando e foi até Xangô – Orixá da justiça:

“Minha filha está chorando! Olorum, antes fosse eu!
Mande alguém lá, Xangô, pra ver o que aconteceu!”

Xangô recorre aos Erês – que são crianças encantadas, que intermedeiam o contato entre o Orixá e o humano – para descobrir o que está acontecendo com a filha de Oxum. Lá eles percebem que o que aflige Lili é a volta às aulas, pois ela sabe que a professora pedirá uma redação que conte sobre as férias e a menina acredita não ter nada de extraordinário para partilhar com os colegas:

“Meus colegas todos fazem viagens fantásticas
Veem a neve, vão à Disney e não acreditam
Nas minhas histórias mágicas!”

Podemos perceber que Lili, como toda criança, tem uma necessidade de aceitação. Como semideusa que é – filha de Oxum com um humano –, Lili também faz viagens incríveis, mas não como os seus colegas de classe, nem da mesma maneira, tampouco só para os lugares valorizados socialmente. Vendo toda a tristeza da menina, um dos Erês joga um pedaço de frango em sua boca, iniciando uma linda e fantástica aventura: nessa jornada, ela conhece outras crianças que também são semideuses, filhos de Yemanjá e Xangô, que com ela percorrem essa aventura; conhecem outros mundos, entre eles, a Nigéria:

“Lá dentro havia mulheres negras com a pele muito brilhosa
Com cabelos compridos e trança que dançavam perfumosas.
Em outras mulheres faziam tranças que a menina nunca viu
E ela logo soube que era da Nigéria que vinham, não do Brasil”

Essa longa viagem acaba quando Lili chega à escola, bem inspirada para escrever sobre os lugares que conheceu, deixando a todos admirados e fazendo-os entender que cada um tem a sua própria história.

A beleza das ilustrações, todo aquele colorido das imagens criadas por Carolina Teixeira (Itzá), somadas à leveza com que é exposta a presença dos Orixás na narrativa, nos permite desconstruir toda a demonização que circunda as divindades de matriz africana. Levar essa literatura para o espaço da sala de aula ajuda na construção do respeito; na construção da tolerância religiosa. Para além disto, corrobora para uma construção identitária e de representatividade, visto que Lili é uma personagem negra, de cabelos cacheados, pertencente a uma religião marginalizada.

Na segunda parte desta resenha, apresentarei algumas reflexões sobre a importância política da produção e publicação de livros como  As férias fantásticas de Lili.

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