Mariana

mariana

Essa criança da foto acima é Mariana, minha afilhada. Ela tem 4 anos e é uma criança negra – vocês perceberam, né? Mariana é criada por mulheres negras: a mãe, a vó, a tia e eu.

A nossa casa sempre teve a força e a luta matriarcal, e não somos, nenhuma de nós, elementos desajustados (pode rolar indireta ao sr. Mourão?). O fato é que a abertura para a discussão sobre questões raciais na nossa família ainda é recente, começamos a furar a bolha faz pouco tempo. Acredito que a minha inserção na faculdade possibilitou reflexões sobre muitos assuntos, sobre a minha identidade até – sobre poder afirmar, sem medo, que sou negra. Porque a negação não me protegia de ataques racistas na escola, por exemplo. Porém, em casa ou na rua havia comentários do tipo: “mas você nem é preta de verdade”. Gosto de lembrar que meu apelido na primeira infância era “Neguinha da Beira do Rio” (assim, com nome e sobrenome) porque, sim, eu morava na beira do rio na Cidade de Deus e porque, sim, de alguma forma me viam como uma criança negra. Ou talvez só usassem a expressão “neguinha” como uma forma pejorativa, já que eu era uma criança arteira. Não sei. Fica aí a questão. Também não sei em que momento deixei de ser a “neguinha” e passei a ser a parda, mulata, sarará, “não preta de verdade”, ficou uma lacuna. Mas eu estava a falar sobre a primeira infância, e eu quero focar nela para tocar no assunto racismo.

A gente tem a Mariana, né. Pois bem. Mari chegou em 2014 nesse mundo. Um mundo onde o racismo é mais discutido, sim, inclusive aqui em casa. Portanto, Mari tem referências em casa de mulheres pretas empoderadas ou em processo de empoderamento – porque é um processo longo, não é mesmo? Enfim, Mari tem muitas bonecas pretas, coisa que nós não tivemos – eu pelo menos, não tive. Mari assiste desenhos e filmes em que xs protagonistas são crianças negras, como Doutora Brinquedo, A princesa e o sapo – ela assistiu Pantera Negra e amou! Mari lê livros com personagens negros como Menina bonita do laço de fita, Menino Marrom, entre outros. Mari escuta músicas de crianças negras, a música dela preferida é Menina Pretinha, da Mc Soffia, e toda hora ela pede para ouvir. Ela vê crianças negras dançando no Youtube. Enfim, a gente se esforça ao máximo para apresentar a ela novas narrativas a respeito do ser negro e de suas potências. E antes que você pense que ela só vê coisas de pretos: ela também tem bonecas brancas; ela assiste, sei lá, Frozen, ela vê variados desenhos (ela ama O show da Luna, por exemplo). Enfim, o fato é que a gente acrescenta ao universo dela coisas com as quais ela pode se identificar, e de forma positiva, coisas que não tivemos e sentimos muita falta: é a tal representatividade, tão fundamental. Para além disso, a gente fala todo dia que o cabelo crespo dela é lindo e que tudo bem ele crescer pra cima, ela já o chama de “black”. A gente entende que Mariana é privilegiada por ter pessoas dentro de casa que entendem suas especificidades e não a discriminam, e que sabem ou tentam lidar com as suas demandas. Mas, ainda assim, é suficiente para que ela cresça livre do racismo? Essa é uma questão; a gente começou a se dar conta disso e a nos sentirmos mais responsáveis quando recebemos essa mensagem da minha prima, via WhatsApp:

Me ajudem, não estou preparada para isso! Agora pela manhã, estava arrumando a Mariana e na hora de sair de casa falei para ela pegar um brinquedo. Ela me veio com uma boneca já velha e feia.

– filha, pega a outra, pega a pretinha
– a pretinha não, eu não gosto de preto
– O quê? E você é o que?
– Preta
– Seu pai é o quê?
– Preto
– Sua vó, sua tia, sua Dinda Raphaella, seu avô?
– pretos
– então você não gosta de ninguém?
– gosto
– e de você?
[…]
– Você é linda, pega a boneca preta e leva ela
– Mas, mãe, preto é escuro
– Mas é lindo
– Mas, mãe, eu tenho vergonha
– Mariana, ela é igual a você
– Não! E ela é careca!
– Mari hoje você tem cabelo, mas você já foi careca (quando bebê)

Já na rua ela arrastava a boneca com uma mão.

– Mariana leva essa boneca direito!
– Mãe, eu tô com vergonha dela, eu não gosto de preto!
– Quem falou isso pra você?

SILÊNCIO […]
– Mariana, você é linda e eu amo você assim! Não quero mais ouvir isso de você.

Mariana seguiu chorando e arrastando a boneca, com vergonha.

Gabriela disse que estava despedaçada, enquanto mãe. Perguntava onde tinha errado e tudo mais. Eu me fazia a mesma pergunta enquanto tentava digerir tudo aquilo. Aquele discurso era justamente o oposto do que estávamos semeando em casa. Mas de onde surgem esses discursos? Mariana só tem 4 anos.

Dentro de casa, a gente conversa, abraça, acolhe. O problema é que a gente não controla tudo o que ela escuta e vê fora da nossa “bolha”. Quando a gente não estiver presente, como vai ser? Como ensiná-la a se defender? Como impedir que o racismo mine sua autoestima e prejudique seu desenvolvimento? São preocupações que eu acredito que toda mãe e pai de crianças negras têm.

No TEDxUNIRIO, Gabi Oliveira traz um debate sobre o tema Um novo olhar sobre a pessoa negra; novas narrativas importam, e logo no início solta palavras e expressões diretamente ligadas a pessoas negras:

  • Cabelo ruim
  • Cara de empregada
  • Nega Maluca
  • Cara de bandido
  • Nariz de batata
  • Nega feia
  • Coisa de preto

Poderia acrescentar milhares de outras expressões e situações que são associadas as pessoas negras de forma negativa/pejorativa. Por exemplo, sabe quando as pessoas riem de um amigo preto na foto porque ele é muito escuro, e as pessoas sacaneiam porque só apareceram os dentes e/ou a roupa? Então… Mariana dizia não gostar da boneca porque ela é escura. Mariana nunca colocou pregador no nariz, como eu. Mas o cabelo dela é crespo também. E, mesmo que a gente fale sempre sobre o quanto ele é lindo, um dia, sentada no sofá vendo tv, ela viu uma adolescente branca, loira e de cabelão e disse: “Eu queria ser igual a ela, que tem cabelo liso e grande”.

Foi uma dor coletiva nesse dia. A gente se entreolhou e sentiu uma pedra no peito incomodar. Pois foram anos e mais anos com a sociedade reforçando que cabelo crespo é cabelo ruim, e a gente acreditou que em 4 anos conseguiríamos convencê-la do contrário. A gente continua se esforçando, certamente; mas o duro é pensar que ela ainda passa pelo mesmo que nós passamos, com nosso apoio, sim. Mas ainda é mais do mesmo. Dói pensar nisso!

Enfim, antes dessa mensagem da mãe da Mariana, teve um outro episódio em que uma criança no play do apartamento em que ela mora mandou a irmã pequena se afastar da Mari porque ela é preta. Aí eu me pergunto: onde aquela outra criança aprendeu que porque é preto é ruim? Mariana ouviu aquilo, contou para a mãe, eu não sei se minha prima foi atrás para saber o porquê. Acredito que sim. Eu fiquei refletindo como os adultos ensinam crianças a serem preconceituosas e racistas. Mariana só tem 4 anos, repito. Ela sentiu a diferença entre ela e a coleguinha que se achava superior, que se achava digna de brincar ali no play.

Falando sobre esse caso, lembro aqui da empresária e influenciadora digital Ana Paula Xongani, que relatou o racismo sofrido pela filha, também de 4 anos, que foi rejeitada por um grupo de meninas brancas. Ana Paula disse em seu vídeo, chamado eu tenho pressa: “A gente sempre fala da solidão da mulher negra, muitas vezes relacionada à afetividade adulta. Mas essa solidão começa muito cedo, começa na infância. O racismo é aprendido pelas estruturas e reproduzido pelos pequenos de forma assustadora. Tivemos avanços, mas as nossas meninas negras ainda são preteridas, rejeitadas, isoladas.”

E é isso: o Brasil é um país estruturalmente racista e o racismo é, de fato, aprendido pelas estruturas. De forma sutil ou não, as crianças aprendem desde muito cedo. A criança que sofre racismo pode não entender na totalidade aquilo, mas ela sente. Ela sofre. Ela entende de alguma forma as diferenças, e pior: começa a achar desvantagens em ser negra – é onde mora o perigo. São muitas perguntas difíceis de responder quando o assunto é infância e racismo.

A atriz Taís Araújo falou sobre como criar crianças doces num país ácido no TEDxSãoPaulo, e quando falou sobre a cor do filho dela ser a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada nas ruas, surgiram críticas, memes por causa daquele pequeno-grande problema que a gente tem na nossa sociedade: falta de interpretação de texto. Muitos não entenderam que ela estava se referindo à cor do filho dela e não exatamente ao filho dela, embora, veja bem: ele possa realmente ser submetido as situações de racismo que ela expôs, sim, apesar do privilégio de classe. Taís, quando fala sobre a filha, diz que se sente apavorada ao pensar nos riscos que a filha corre apenas por ter nascido mulher e preta. E as várias perguntas seguem: “Como criar crianças doces num país tão ácido? Como criar crianças que acreditem que pluralidade e diversidade são riquezas num país que é tão plural, tão diverso e que é tão desigual? Como não jogar sobre elas uma vivência, uma experiência e até uma mágoa que é minha? Mas também como não permitir que elas enfrentem o mundo de uma maneira ingênua pra que não sejam atropeladas pelo racismo que existe na estrutura do nosso país?”

Sei que o texto está extenso e cheio de interrogações, mas o intuito é realmente despertar o incômodo com todas essas questões e despertar o interesse por essa dificuldade de criar crianças negras dentro de uma sociedade racista, que naturaliza expressões como as citadas anteriormente. O objetivo é fazer você refletir sobre essas questões, especialmente se você tem filhos negros ou crianças negras no seu dia-a-dia. Se você não tem filhos negros, mas tem filhos brancos, também é válido repensar que tipo de discursos eles estão reproduzindo e se estão respeitando, de fato, a diversidade, a pluralidade. Eu não tenho um desfecho bonito para esse texto, não tenho respostas fáceis, prontas. Estou na busca, mas eu acredito no afeto e no respeito, principalmente na educação. Eu tenho um tanto de indignação e eu tenho também muita pressa, assim como Ana Paula Xongani e tantas outras mães e pais de crianças pretas. Todos somos responsáveis por isso; portanto, ajudem-nos com nossas crianças pretas.

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