Negras Almas

Priscilla Mina (organização). Alma. Rio de Janeiro: Conexão 7, 2018.

almaColetânea poética organizada por Priscilla Mina, Alma reúne textos de dezoito autoras, todas mulheres negras. Já numa primeira leitura, chama a atenção o modo original como o volume é organizado: os poemas de cada uma das autoras são reunidos em um capítulo próprio, intitulado a partir de alguma questão ou motivo que os perpassa. O que disso resulta é um valioso e instigante mosaico temático em que assomam inquietações profundamente associadas à condição das mulheres negras na contemporaneidade. Ainda que, inevitavelmente, haja uma constelação temática que perpassa os poemas reunidos na obra, pode-se procurar algumas “linhas de força” que singularmente transparecem nas “antologias” de cada uma das autoras do livro.

Em “Sou de Nanã”, capítulo de abertura que reúne poemas de Alaide Mina, assomam ponderações que, avançando do particular para o universal, tangenciam questões ontológicas fundamentais: “Tempo me leve e me traga de volta / Através de sua bendita vontade / Eu vivo e me entrego de verdade / Ao meu guia até a eternidade” (Oxalá é guia!). A sina imposta à mulher negra e necessidade da resistência é tematizada em “Mulher preta”, capítulo que colige poemas de Francis Madeira – entre eles, Tenho valor, que inscreve a trajetória individual na história de toda uma raça: “Desde muito tempo atrás, / teve na vida amarguras, / Era escrava, era ama, / Fazia trabalhos na cozinha / E muitas vezes na cama!”. A insurreição motivada pela condição concreta da mulher negra se desvela em Indignada, de Marly Ferreira: “Nós mulheres pretas / Não somos tuas negas / Leito quente e lábios ardentes / Esgotam-se nos dias de folias, / Perfumes do cravo e canela / Mais que efêmera alegria”. Já em Tributo à mulher negra, Zezé Barcelos resgata e sintetiza uma luta coletiva, resgatando a “vida singular” de quem “a vida segue enfrentando”, como “desbravadora de espaços”.

“Escrevidências”, capítulo que reúne poemas assinados por Adalgisa Marques, questiona os limites entre vida e escrita na produção feminina de autoria negra: “Minha escrevidão é fatos reais, cheia de erros / De vírgulas mal colocadas e muitas reticências”. A Ana Paula Lopes também interessa a indagação sobre os destinos possíveis, como demonstram as muitas interrogações que pontuam seus versos, reunidos no capítulo “Vivências” – como estes, de Entrevista: “Incomoda? / Minha cor? / Meu calor? / Minha pele? / de gente, que sente / sorridente, aprende / esquece, desvia / não olha pra essas mentes…”. Suzana Barbosa afirma a racialização de sua escrita em Poesia de preto, que se conclui afirmando que “Poesia, meu povo / Pode até ser sobre dor / Mas sendo de preta / é encanto”. Já na poesia de Celeste Estrela, assumem o protagonismo os afetos que moldam a subjetividade periférica, como evidencia Madrugada vida favela, em um registro lírico-cronístico: “Quando chego à tarde na favela / Tem batuque e tem cheiro de panela / Caminho pelo beco passo a passo / Vou sorrindo disfarçando / O meu cansaço”. A linguagem da crônica é também mobilizada em Rebanho, de Valeska Angelo, em que é patente o tom de denúncia: “Sistema público de ensino de que adianta saber contar, / se no fim do mês não sobra nada / para a porca que trabalha para pagar boletos? Sustentar um lar?”

O tema da identidade inevitavelmente permeia muitos poemas reunidos na obra. A seção que compila poemas de Marina Carvalho, intitulada precisamente “Identidade”, tematiza o reconhecimento por meio de uma discursividade loquaz, frequentemente dialógica; assim lemos, na veemente Resposta a Dorival Caymmi por Marina, a preta: “Nego, com amor / Aceita que a preta Marina / Não será posse sua nem de ninguém”. Em “Identidade feminina”, capítulo de Sol de Paula, lemos Memórias de nós mesmas, voz de uma subjetividade que constrói seu sentido a partir da história: “Saí da senzala, passei pela libertação usando os créditos da criação. / E ainda tentam nos escravizar… / Vã tentativa! Ilusão da casa grande. / Permaneceremos aqui fortes, resistentes na afirmação da nossa identidade e sororidade”. Questionamentos identitários também ocupam uma posição de centralidade nos poemas de “Afro-brasileira”, capítulo dedicado à obra de Anamô Soares, que resgata a importância da ancestralidade: “E trança a trança da vida / Do tempo / Da calma / Do alento / e da dor // Trança fios da memória / O traçado ancestral”.

O tema da ancestralidade, a propósito, ressurge como título de outros capítulos – como aquele que reúne poemas de Fernanda Pires Sales, autora do poderoso Negra ser: “Bastasse ser mulher / Bastasse negra ser / Sem direitos… / Ser objeto… / Somente servindo a mais valia, ao bel prazer / Do homem, do branco, do que tem mais poder”; e o que colige os versos de Geise Gomes, urdidos com notável riqueza rítmica, como demonstram os que transcrevo de Tratado de paz para todas as histórias mal contadas: “Vi tantas vezes o medo sufocar o amor / A mulher de meu pai se matou / O marido de minha mãe definhou / E sobre os que me geraram para sempre o peso das escolhas / O temor de novos enganos / […] / Eu estou aqui só de passagem / Eu que vi o amor virar loucura / Me liberto de sentir medo”.

Em “Vozes da Maré”, Anielle Franco tematiza o sentido político das articulações entre gênero, identidade e território, como lemos nos versos de Andar sem temer: “Nossos passos vêm de longe / Nossa dor carrega nossa marca / Nossa ancestralidade é sinônimo de luta”. No capítulo que lhe é dedicado, Emilly Ferreira reflete sobre a “Beleza negra” – dedicando especial atenção aos cabelos, como se poderia esperar: “Minha forma encrespada / Cabeleira macia / Crespa crespinha / Textura d’África / Minha beleza” (Lesa minha beleza). Beleza pura é o título de um dos poemas do capítulo que antologia textos de Roberta Abreu, que contesta frontalmente os padrões de beleza racistas: “O nariz grande / Os lábios carnudos / Cabelo ruim? / Cabelo de preto / O corpo curvilíneo / O corpo recortado / O corpo forte / O corpo marcado / A pele preta, preta! / Minha pele é preta, preta!”. Já no capítulo “Espelho”, de Kenia dos Santos, mesclam-se a autorreflexividade e os afetos, como percebemos em Luta: “Quando o espelho é outro / E a imagem vista sou eu / Vejo a face de um amor / Em múltiplas faces / Esse é o meu desequilíbrio constante / Essa pessoa sou eu”.

Alma é uma obra coletiva, no sentido mais preciso do termo; e cabe reconhecer e valorizar a importância do trabalho de Priscilla Mina, editora e organizadora responsável por produzir este volume que agrega e potencializa as vozes de tantas negras almas.

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