Kehinde: a construção da liberdade

Ana Maria Gonçalves. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2006.

1407629Luisa Mahin foi assunto em nosso programa na Rádio Uerj, alguns meses atrás. Trago-a nesta resenha como Kehinde, narradora personagem em Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Como dito em nosso programa, Luisa Mahin segue sendo considerada uma lenda, um mito, uma vez que não há documentos que comprovem sua existência. No prólogo de Um defeito de cor, a autora Ana Maria Gonçalves afirma que a base dessa obra seria um manuscrito da própria Kehinde, o que dá força aos personagens do romance histórico.

A respeito do título: Um defeito de cor faz referência a uma lei de dispensa da época (século XIX) que consistia em liberar um cidadão negro para qualquer cargo importante, independentemente de ele já ser livre. A lei em questão me remete à própria Luisa Mahin e à perspectiva de que ela seria apenas uma lenda. Soa, para mim, como um descrédito do heroísmo do nosso povo, que apesar das barbaridades conseguiu preservar muito de sua cultura, cultuar seus deuses mesmo que clandestinamente, organizar guerras, insurreições e, principalmente, pensar e criar táticas para alcançar a – até então – utópica liberdade. De todo modo, em Um defeito de cor Luisa é símbolo de resistência ao sistema escravocrata; uma resistência vivida em várias instâncias de sua vida. Ainda que seja vista muitas vezes como meramente uma lenda, aqui Luisa é autora da sua própria história e destino, na medida do possível.

Enfim, Um defeito de cor é o lugar onde Luisa – ou melhor, Kehinde – conta toda sua trajetória, oralmente, a Geninha, enquanto viaja, idosa e cega, de volta ao Brasil. A propósito, viajando (obrigada ou não) é que se dão várias peripécias de sua vida, como a procura do filho perdido há muitos anos, filho esse que seria supostamente o poeta Luis Gama.

As memórias de Kehinde – no batismo dos brancos, Luisa – falam de si para um filho perdido, trazendo uma humanidade íntegra, apesar de tantas fragmentações. Começam cronologicamente, pelo menos a princípio, com a infância em Savalu junto de sua mãe, avó e irmãos; lá ela vivencia sua primeira violência, trauma e, de certo modo, fragmentação, quando perde a mãe e o irmão. Segue, então, com a avó e a irmã gêmea, Taiwo, para Uidá, onde são capturadas. Nesse momento, quando se dá a diáspora, Kehinde se vê chegando sozinha ao Brasil, pois a avó e a irmã não sobreviveram à travessia. Temos até aqui uma criança africana sequestrada, assustada, sozinha em um país desconhecido.

A partir daí, acompanhamos o crescimento de Kehinde e a vida de uma menina-mulher preta escravizada no século XIX, narrada a partir de sua própria perspectiva; portanto, de um olhar feminino e negro. Posteriormente, Kehinde sofre abuso cometido por seu “dono”, o que produz um fruto (Banjokô); mais tarde, depois de conseguir se tornar escrava de ganho, compra a sua liberdade e a do filho. A partir disso, temos uma Kehinde que constrói sua liberdade possível, tendo um outro filho, que aos 10 anos é vendido pelo pai, um português branco. Em resumo, a partir desse episódio nasce a necessidade de Kehinde deixar essas memórias ao filho, como herança.

Kehinde, para além de ressaltar a força e o heroísmo do povo preto, também devolve a humanidade à mulher preta dentro do contexto social-histórico em que vive. Ela fala de suas paixões, da maternidade, da família, dos (des)afetos, entre muitos outros assuntos. Parto daqui, agora, para os principais pontos da obra, a meu ver: (a luta pelo) direito à humanidade e a história contada desde uma perspectiva própria.

A narrativa em Um defeito de cor é construída de modo fluido; mesmo se tratando de um livro de quase mil páginas, dificilmente a gente se sente entediada. Kehinde lembra, nesse sentido, a figura do griô, por trazer essa tradição oral, ainda que na escrita. Lembra a avó que narra histórias para os pequenos, a fim de transmitir conhecimentos que só os mais velhos têm. Kehinde diz, a certa altura: “Os africanos não gostam de pôr histórias no papel, o branco é que gosta […] esta é uma história que eu teria te contado aos poucos, noite após noite, até que você dormisse”. Daí a sensação de estarmos vivendo a tradição oral enquanto lemos.

Ela conta tudo com riqueza de detalhes; muitas vezes, todas as sensações que seu corpo e sua memória registraram. Há, por isso, muita violência – como abusos, agressões e mortes relatadas pela narradora-personagem. Entretanto, vemos em seus relacionamentos afetivos a paixão, o desejo, a ternura, o envolvimento real, a entrega. Sentimentos que são descritos com naturalidade, em todos os seus aspectos – desde a descrição de um amor mais maduro ou sentimental ao desejo sexual, passando longe da mera objetificação sexual. Passa longe, ainda, da passividade “esperada” de uma negra (ex-) escravizada. A gente observa que Kehinde era astuta, inteligente e até vingativa, quando ela mesma julgava necessário. Kehinde busca pelo seu filho, e essa é aparentemente a sua grande busca, mas podemos perceber que ela se entrega a várias outras buscas pelo caminho – buscando o tempo inteiro seu lugar, suas origens e cultura. Ela sonha várias vezes com África antes de retornar, sonha com seus mortos. Ela luta e sonha. Ela é sonho e é luta. Ela relembra sempre a família que ficou na África e a nova família, constituída no Brasil. Fala das dores pelo luto de um filho e pelo desaparecimento do outro.

Kehinde fala também sobre as religiões que conheceu, sobre as línguas que aprendeu (a que precisava reprimir, inclusive) e sobre os costumes de diferentes povos com os quais teve contato. Nos ensina muito sobre suas histórias pessoais, mas também sobre a história da época em que viveu – quando, por exemplo, participa da Revolta dos Malês, visita a casa da Perpetua Mineira, fala sobre a história de Tiradentes, sobre a coroação de D. Pedro II – o casamento e o nascimento do seu primogênito –, a transição dos feudos para a manufatura; até no lançamento do livro A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, Kehinde teve participação.

Kehinde ou Luisa, apesar de todas as conquistas, de conseguir liberdade e ascensão – vale lembrar de seu desinteresse em adquirir escravizados pra si –, não é uma personagem sobrehumana: ela assume falhas (várias vezes ligadas à maternidade, por exemplo), também tem medos, receios, comete erros. A personagem não vive só um lado entre o bem e o mal, entre o passivo e o ativo; ela é completa, tem força e vida dentro da narrativa e nos faz acreditar (des)propositalmente em suas histórias.
Em suma, a constante sensação ao ler Um defeito de cor é que temos uma herança, necessária e preciosa, em mãos. Temos o direito de ouvir histórias contadas pelos nossos; histórias que restituam nossa própria humanidade, nossa própria força.

Um comentário em “Kehinde: a construção da liberdade

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  1. Eu amei, já era louca pra ler e esse livro com essa narrativa me sinto apaixonada esse é o livro de cabeceira de todas as mulheres pretas!!! Parabéns por narrar de forma tão envolvente os fatos contados bo livro. 🙂

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