Contra os silenciamentos

Fernanda R. Miranda. Silêncios prEscritos: estudos de romances de autoras negras brasileiras (1859-2006). Malê, 2019.

Silêncios prEscritos constitui a versão em livro da tese de doutorado de Fernanda Rodrigues Miranda, defendida em 2019 e publicada no mesmo ano pela editora Malê. Qualificar o livro como uma obra de fôlego é recair na obviedade, considerando-se as cerca de 360 páginas do volume; o que temos, de fato, é a corajosa produção de uma pesquisadora que ousou lançar-se ao estudo de romances produzidos ao longo de mais de três séculos, empenhando-se em “salientar as conexões visíveis, contatos e encontros insurgentes na análise”, respeitando ao mesmo tempo a singularidade de cada obra. Trata-se de uma questão de enorme complexidade: se, por um lado, a produção romanesca de mulheres negras é escassa – considerando-se, para usar das palavras de Fernanda Miranda, que “o silenciamento da voz da mulher negra como produtora de literatura é sistêmico no Brasil”, questão que aliás transparece no título do livro –, disso não resulta uma precariedade no que tange à qualidade estética das obras – como atestam, para citarmos apenas uns poucos nomes amplamente reconhecidos pela crítica competente, os escritos de autoras como Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Marilene Felinto. Os problemas associados ao estabelecimento de um corpus, bem como as discussões conceituais e teóricas necessárias para viabilizar a pesquisa são devidamente apresentadas nos capítulos iniciais da obra; assim, Fernanda Miranda opta pelo estudo de oito romancistas: Maria Firmina dos Reis, Ruth Guimarães, Carolina Maria de Jesus, Anajá Caetano, Aline França, Marilene Felinto, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves.

Se as diferenças quantitativas entre o espaço destinado a cada uma das obras é notável – alguns capítulos têm quase o dobro de páginas de outros –, é difícil não associar isso às severas normas que regem a elaboração de trabalhos de pós-graduação no Brasil; com efeito, os capítulos finais (em particular, aquele destinado a Um defeito de cor) apresentam uma análise bastante mais sintética, em comparação com que encontramos nos capítulos dedicados às obras de Maria Firmina dos Reis ou de Anajá Caetano, sendo ainda perceptível a mobilização de uma fortuna crítica mais restrita. Ressalte-se, contudo, que isso não compromete o resultado final: Fernanda não apenas apresenta o contexto de produção de cada romance, como traz informações relevantes sobre cada uma das autoras e apresenta análises que consistentemente contemplam as questões fulcrais das obras, evocando um amplo repertório conceitual majoritariamente urdido por intelectuais negras e negros. O que se pode lamentar são as poucas páginas do epílogo, “Rotas encruzilhadas e caminhos abertos”, que deixam a sensação de que Fernanda Miranda teria ainda muito a dizer; podemos, por outro lado, enxergar isso desde uma perspectiva positiva – por se tratar de uma jovem pesquisadora que, já emergindo com um trabalho de indiscutível relevância, terá muitos anos para dilatar e desenvolver suas investigações.

Uma nova edição poderia corrigir algumas gralhas que escaparam ao processo de revisão do livro – inclusive no importante “Mapeamento cronológico preliminar de romances brasileiros de autoria-negra”, no qual, para além de omissões que podem ser atribuídas aos questionamentos em torno do que se pode ou não classificar como romance (o que talvez explique a ausência das obras de uma autora como Maria Helena Vargas da Silveira, por exemplo), podem ser percebidos alguns problemas no que tange ao título das obras (Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo, aparece como Histórias para adormecer menino grande; e o título de A cientista guerreira do facão furioso, de Fábio Kabral, aparece com um erro de concordância – além de este livro, como o de Nei Lopes O preto que falava iídiche, aparecerem assinalados como se tivessem sido produzidos por mulheres negras). Seria, ainda, importante creditar a tradução do poema de Maya Angelou, “Still I Rise”, citado na íntegra. Problemas desse tipo são, entretanto, compreensíveis no processo de produção de uma obra vultosa como Silêncios prEscritos, em nenhum sentido comprometendo sua qualidade e seu imenso valor para o estudo dos romances brasileiros de autoria negra e feminina.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: