À escuta das “Anastácias Redivivas”

Começo este relato falando sobre uma sensação deliciosa que toda pessoa negra, que possui consciência da sua negritude, sente ao chegar a qualquer espaço elitizado: perceber que não se está sozinho, pois existem outras negras e negros ali, compartilhando e fruindo de tudo o que o ambiente pode oferecer. A tal sensação me invadiu logo que pus os pés dentro do Museu de Arte do Rio (MAR) para assistir à última mesa do evento Flip::Flup no MAR – O encontro das festas literárias!. Não posso me furtar, leitora, de dizer que, ao mesmo tempo em que senti imensa alegria por estar cercada de pessoas negras, também senti um incômodo que vem do fato de que se tratava de uma situação pouco costumeira: ao retornar à minha universidade e ao CCBB dias depois, retornei à exaustiva e rotineira sensação de ser a única ou uma das poucas pessoas negras a ocupar esses espaços.

Anastacias
Foto: Ana Paula Lisboa | Instagram

A última mesa do evento – e possivelmente a mais aguardada – fora intitulada de “Anastácias Redivivas – O feminismo negro em meio à tempestade”. O tema prometia; a composição da mesa prometia ainda mais: Ana Paula Lisboa mediaria as falas de Grada Kilomba e de Flavia Oliveira. Os pilotis dos MAR estavam lotados. A estrutura montada para acomodar o público não deu conta do mar de gente que ali estava. Havia muita gente em pé, com pouca visibilidade para o palco, mas isso pouco parecia importar. Estávamos ali ávidos para ouvir e beber das palavras daquelas mulheres. Aliás, não apenas nós, pobres mortais, estávamos desejosos de tudo o que Grada, Flávia e Ana Paula tinham a nos oferecer: Conceição Evaristo também estava presente na plateia. A presença dela causou – e causa em qualquer lugar – um verdadeiro frisson. Palmas e mais palmas se sucederam durante alguns segundos para Conceição. Quem estava sentado, rapidamente se levantou. Aplaudíamos com satisfação a escritora e tudo o que ela representa para nós: raiz, resistência e inspiração. Como resultado disso, Conceição foi convidada a integrar a mesa, para delírios de suas componentes e do público. Linda cena involuntária sobre a capacidade cíclica do tempo: uma multidão de jovens pedia com fervor para ouvir as palavras de uma mulher mais velha.

Foram muitas as contribuições e reflexões tecidas naquela noite, mas há algumas que ficaram marcadas em mim e gostaria de compartilhá-las. A primeira foi sobre o tempo – aliás, esse tema retornou aos comentários das palestrantes muitas vezes. Grada expôs que os corpos marginalizados – especialmente, o corpo feminino negro – são perpassados por uma atemporalidade. O passado incide constantemente sobre nossos corpos, independentemente da nossa vontade. Simultaneamente, nos movimentamos no presente contra os vestígios históricos que nos perseguem, já que a luta e a discussão antirracista não cessam de nos acompanhar. É como se passado, presente e futuro se imbricassem no agora, fundindo-se nos nossos passos. Além disso, Conceição evidenciou que o tempo se realiza na atualização da nossa luta por meio de um resgate e ressignificação do nosso passado, obstado de ser concluído pelo processo da escravidão. A escritora também apresentou a sua concepção de tempo como algo espiralar, porque esse formato mostra a sua constante transformação. Flávia contribuiu para esta reflexão afirmando que o tempo também se realiza no encontro e no diálogo entre as gerações, remontando ao dito Iorubá: “Exu matou o pássaro ontem com a pedra que lançou hoje” – inclusive, Ana Paula Lisboa, em um lindo artigo publicado n’O Globo, falou sobre quantas pedras foram arremessadas para que tivéssemos tantos avanços como temos hoje.

A segunda reflexão incitada pelas palestrantes diz respeito à resistência e aos processos de escrita. Sabemos que resistir é algo vital para nós, negras, e que a língua é um instrumento de poder. A escrita – literária ou não – é uma forma fundamental de difusão dos nossos movimentos de resistência. Sabemos que uma língua pode carregar consigo vestígios de intolerância contra grupos minoritários. Ao fazer uma rápida pesquisa sobre algumas palavras da nossa língua portuguesa, por exemplo, nota-se o quanto ainda carregamos racismos e machismos. Se a nossa língua continua transportando violência e tentativas de dominação, é sinal de que mudanças devem acontecer. Isso dialoga com o apontamento feito por Flavia no evento: é necessário descolonizarmos a linguagem e reconstruí-la através das nossas potências. Grada também falou sobre a necessidade de ressignificar o trauma através da arte, pois é a partir desse movimento que vem a força necessária para continuarmos reagindo. Conceição, com a sua escrevivência, fala sobre a importância de se estabelecer na literatura um ambiente de acolhimento. Se a historiografia da literatura brasileira nos excluía desse espaço ou nos objetificava e nos “representava” através de estereótipos racistas, faz-se necessário ocuparmos essa manifestação artística da linguagem. Por essa razão, é imprescindível valorizarmos a produção de autoria negra para promovermos essa reconstrução apresentada por Flavia no evento.

Outro aspecto levantado na discussão das palestrantes e que dialoga com a existência negra é a necessidade de nos desvencilharmos da prisão que é a expectativa do outro sobre nós. A branquitude tenta nos impor, a todo custo, a posição que devemos ocupar na sociedade. Flavia lembrou muito bem do fato de que, quando conseguimos nos mobilizar intelectualmente, por exemplo, tentam nos colocar como aqueles que só falam sobre assuntos relacionados à negritude – aparecendo, especialmente, em datas como o Dia da Consciência Negra e sendo relegados ao esquecimento no restante do ano. Isso incide sobre a maneira como enxergamos as nossas potências individuais. Não é incomum, por exemplo, que muitos de nós não se sintam pertencentes ou à altura de determinados espaços por causa dessa pressão exercida pela expectativa da branquitude. Em paralelo, Grada afirmou que faz parte do processo de descolonização rompermos com essa pressão, e foi mais além: “sempre que dizemos um não, nosso eu interno é presenteado, pois dessa forma outros caminhos de liberdade se abrem para nós”. É a partir dessa ideia do não que devemos recuperar o nosso poder e o nosso privilégio de sermos quem queremos ser.

A noite do dia quinze de julho de 2019, infelizmente, nunca mais irá se repetir. Todas as palavras ditas e reflexões apresentadas não aparecerão novamente para nós da mesma forma. Talvez essa seja a parte mais cruel do tempo: a impossibilidade de reviver, de maneira fiel, momentos extraordinários quantas vezes quisermos. Por outro lado, talvez essa seja uma forma de nos impulsionar para frente. O tempo, com toda a sua sabedoria e bondade, apenas nos permite evocar o passado, e nós o ressignificamos e o trazemos para o presente através de lembranças e, principalmente, por meio de narrativas. Dessa forma, conseguimos estabelecer para o presente e para o futuro outras possibilidades de viver.

Quando compartilhamos nossas experiências e vivências assim como Conceição, Grada, Ana Paula e Flávia fizeram no evento, evocamos o passado como uma espécie de mola propulsora para não nos esquecermos de toda a luta que foi necessária para chegarmos até aqui. Por isso, acredito ser importante compartilharmos tudo o que aprendemos e que pode ajudar a nos fortalecer na luta cotidiana. Este meu relato, que infelizmente não deu conta de abarcar todo o mar de sabedoria que emanava daquelas mulheres, tentou promover a continuação desse ciclo de difusão atemporal de sabedorias; e eu te convido, leitora, a também continuar a propagar experiências e conhecimentos com outras pessoas: precisamos fortalecer as nossas narrativas e garantir que elas não se percam no fluxo do tempo.

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