Pensar a alteridade no feminismo

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foto colaborativa de Nabil Shash, Luam Kidane e janaya khan

“Toda a teoria feminista produzida por um grupo pequeno de mulheres brancas, letradas, burguesas ou em lugar de privilégios pretende a universalidade”: fala da teórica e ativista Yuderkys Espinosa-Miñoso, em entrevista ao segundo volume da revista Brejeiras (Feminismo descolonial: uma teoria voltada para luta) . Se eu não fosse uma mulher negra, se eu fosse branca e com o agravante de pertencer à classe média, com toda a minha contradição aquariana e com um forte ascendente em câncer, talvez cairia facilmente na sensação, bem à flor da pele, de que o que se quer com este pensamento é dividir o movimento feminista. Talvez, pior: poderia cair no mesmo erro superficial que a atriz Maria Ribeiro mostrou na última FLIP, em achar que lugar de fala no feminismo se aproxima ao fascismo ou a uma atitude ditatorial. Mas não se trata disso. Nestes dias, li uma frase que me chamou muito a atenção: O lugar mais difícil de alcançar no mundo é o lugar do outro. O mito da universalidade ou teorias que falem das necessidades humanas com a utopia de abranger a todos de forma igual, independentemente de gênero, classe e raça é tóxico e enganoso.

Eu digo por mim. Por mim, que demorei muito tempo para entender de onde minha autocobrança e minha afiada insegurança acadêmica vinham. Não quero dizer aqui que estes são problemas apenas das mulheres negras, mas temos que entender que eles vêm de raízes e contextos diferentes. Não podemos considerar tentativas de “dividir o movimento” a sensibilidade de perceber as profundas diferenças no nosso meio, mas é necessário ampliar o debate para que ele, paradoxalmente, fale de todas.

Enquanto lia a excelente entrevista da Yuderkys para a revista Brejeiras, algo a mais me tocou. No início, nos meus primeiros contatos com o movimento feminista, enquanto ainda me reconhecia como uma mulher hétero, me incomodava muito não entender o porquê do feminismo falar tanto sobre lesbianidades. Agora me parece óbvio: Como podemos defender um movimento em defesa das mulheres, se não defendermos o direito de mulheres amarem outras mulheres? É simples assim. Somos mulheres, sentimos orgulho de sermos mulheres e podermos amar outras mulheres. Sendo cis ou trans, podemos ser héteros; podemos ser bissexuais ou lésbicas. Mas se somos mulheres, acima de tudo o que devemos defender é a nossa liberdade, e isso inclui o livre direito de amar. Acho que não só o movimento feminista passa por uma turbulência com relação a conflitos internos; temos visto isso em outros movimentos, também. É tenso. Mas, se queremos mudanças, devemos encarar nossos conflitos sem perder, é claro, a possibilidade do diálogo saudável, na medida em que isso for possível.

Quando ficamos apenas com a categoria gênero, não vemos que esta foi produzida também no processo de construção e avanço da modernidade. Portanto, esse feminismo é cúmplice de uma ordem racista de mundo (olho), na medida em que oculta o racismo ou supostamente o ignora, o que se torna uma ignorância produtiva, porque serve para que determinadas mulheres sejam “a representação” de todas as mulheres e as que irão obter benefícios da luta feminista. Ao assentar-se somente no gênero, esse feminismo não desarma o racismo, o capitalismo e a heterossexualidade obrigatória. Ao contrário, serve a um grupo de mulheres que já tem uma série de privilégios e o que faltaria para elas é estar em pé de igualdade com os homens de seu próprio grupo social. É uma ignorância produtiva, mas nem sempre é ignorância, porque muitas já foram advertidas.

Esse é um trecho da fala dessa teórica que é extremamente didático e importante para compreendermos por que a luta do feminismo precisa estar muito além da questão de gênero. Imagino que, para o outro grupo de mulheres (as brancas), deva ser difícil escutar que elas estão em uma posição de privilégio dentro da luta feminista. Mas é necessário compreender que isso não significa diminuir a luta de determinados grupos; trata-se, de dar voz e prioridade às minorias. Se queremos um feminismo que abrange todas, precisamos falar de todas. Inclusive de privilégios e diferenças. É claro que, mesmo diante da fala atenta e ácida da teórica sobre a superficialidade em se achar que feminismo trata apenas de uma questão de gênero, devemos sublinhar aqui que falar de gênero, mesmo no caso de mulheres brancas, não significa apenas estar em igualdade com os homens de sua raça (a branca). Sabemos que a diferença de gênero implica questões problemáticas quer você seja branca ou negra: implica estupro, abusos físicos e psicológicos e cerceamento de liberdade. O importante, e acho que é o que me chama a atenção no posicionamento dela, é percebermos que classe e raça importam dentro desta causa. Sendo mulheres, todas estamos condicionadas a violências que são comuns ao nosso gênero; mas sabemos que, se você for negra, ou se for negra e for pobre, se torna o alvo maior dessa violência. Se for lésbica, se for trans, sofrerá outros tipos de violência. É preciso ter um olhar atento às nuances de uma sociedade que nos direciona ódio e assédio todos os dias. É preciso entender quem somos e de onde falamos de dentro dessa comunidade, e a partir disso criar modos de sobrevivência.

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