Os brutos e os mortos

Ana Paula Maia. Enterre seus mortos. Companhia das Letras, 2018.

14456_ggPublicado em 2018 pela Companhia das Letras, o livro Enterre seus mortos, de Ana Paula Maia, conta a história de Edgar Wilson, um removedor de animais mortos, e de Tomás, um padre excomungado que é amigo e colega de trabalho de Edgar. O cotidiano dos dois adultos muda quando Edgar encontra o corpo de uma mulher, e pouco depois, o de um homem, ambos abandonados na mata. Como a polícia local não tem como levar os corpos, Edgar e Tomás acabam sendo os responsáveis por enterrar os defuntos, enquanto tentam trazer alguma normalidade de volta a suas vidas.

Durante a primeira parte do livro, fica claro que Edgar Wilson é uma figura bruta, insensível e miserável. Por estar sempre lidando com a morte no trabalho, Edgar sente que está um passo atrás dela. Durante toda a obra, apesar de não termos maiores detalhes da vida pessoal de Edgar, é possível notar que ele procura manter Tomás como amigo. Isso se deve ao fato de Edgar Wilson ter medo de morrer sozinho e ser deixado à mercê das aves carniceiras, assim como os corpos do homem e da mulher que ele encontrou. Para Edgar, é importante dar um fim digno às carcaças, sejam de animais, sejam de pessoas. Já na segunda parte do livro, Edgar, junto com Tomás, procura um modo de fazer os mortos encontrados descansarem em paz – isso o faz sentir-se menos miserável.

Tomás é um padre excomungado da Igreja Católica que trabalha na mesma empresa que Edgar Wilson. Além de recolher os animais, Tomás também atua como padre em sua cidade. No decorrer da trama, quando Tomás encontra alguma alma agonizante ou um corpo, é dito que o padre faz uma cruz na testa e na boca dos moribundos enquanto faz uma oração. Diferentemente de Edgar, que se importa com os cadáveres, Tomás se preocupa com a salvação das almas. Na segunda parte do livro, Tomás mostra-se ansioso e nervoso enquanto procuram um meio de enterrar os corpos. Nos capítulos finais, é explicado o motivo do nervosismo de Tomás com a revelação de um segredo. Apesar de ser padre, o homem não é nenhum santo.

Falando em santidade, na primeira parte do livro, a autora faz uma clara crítica às instituições religiosas – as críticas continuam durante o restante do livro, mas ocorrem de forma mais sutil – quando Edgar Wilson decide seguir alguns fiéis que entraram na mata. Guiado pelo barulho, Edgar encontra os fiéis marchando e rodopiando alvoroçados em volta de uma fogueira, atirando objetos ao fogo, enquanto balbuciam numa língua sobrenatural que só eles parecem entender. Além do culto diferenciado, a autora no diz que os fiéis andavam em grupos, pregando o fim dos tempos e o arrependimento, apontando suas bíblias como quem aponta uma arma. A religião, nesta obra, é praticamente uma seita, o que caracteriza a crítica da autora em relação à manipulação e à exploração da fé alheia.

A obra como um todo remete à escrita de Franz Kafka, com seus personagens brutos, tanto física quanto psicologicamente. Além disso, atmosfera da cidade onde a história ocorre é fria e chuvosa, e fica cada vez mais pesada com o passar da trama, caracterizando o aumento da tensão e ansiedade dos personagens. Aliás, a cidadezinha da história também parece estar parada no tempo, sem a presença de deus ou do diabo, numa ausência do bem e do mal, o que reflete a personalidade descrente e bruta dos personagens.

Apesar de ser um livro pequeno, a autora consegue desenvolver completamente a trama, embora o faça de forma um pouco lenta. Ana Paula Maia consegue nos transportar para o universo de brutalidade onde se passa história, fazendo-nos ver e entender aquele mundo sob a perspectiva de cada personagem. Para quem gosta de um terror psicológico com crítica social implícita, vale muito a pena a leitura.

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