O que é possível num mundo de amor?

Cidinha da Silva. Kuami. Pólen, 2019.

Era uma vez uma sereia amada e feliz, moradora do Sereal, filha de Hércules e Naomi, cantora de um coral de Cardinais Invertidos, amiga de Nandoctopus, sobrinha de Helena, irmã de Kuami do país Lunda

91OrgRn0eiLOi, pretas! Hoje vamos de resenha!

Escrito pela mineira Cidinha da Silva e publicado pela primeira vez em 2011, Kuami é o terceiro livro da autora que resenhamos aqui no blog, aproveitando o relançamento da obra em 2019, após ser ajustada para o novo acordo ortográfico.

Nesse livro, Cidinha volta seu olhar às crianças, tecendo o folclore em uma rede de acontecimentos que se abrem e fecham em torno da criança leitora, livre para construir significados a partir de sua vivência e que, segura nas tramas do texto, pode voar com um filhote de elefante que aprende sobre o amor ao perder-se da mãe.

Além de retomar elementos que rememoram a construção de uma identidade nacional verdadeira, a partir tanto das paisagens (a floresta acima do Sereal, o mar abaixo da floresta) quanto das personagens (peixes, macaquinhos, pássaros… fauna e flora estampadas na literatura, além da sereia Janaína e dos indígenas que têm o poder e o dom de curar), Cidinha costura sua história com a lírica de nossos maiores cantores-compositores negros, de Paulinho da Viola a Arlindo Cruz.

A narrativa – ou melhor, a viagem – remete à ancestral contação de histórias, privilegiando a fluidez de um diálogo, mas sem abandonar aspectos descritivos que nos despertam para as belezas das paisagens apresentadas, ressaltadas nas sensíveis ilustrações de Annie Ganzala.

É importante dizer que, embora exalte belezas e vida, a história não se alheia das tristezas ou da morte. Nesses momentos, que contribuem ativamente para a construção das personagens (como contribuem para a construção de nós), Cidinha evoca a imagem da terra e do povo, sempre enfatizando a resistência e a união.

A viagem da criança leitora é fertilizada pela imaginação da autora, o que expande a cumplicidade leitora-texto para a leitora-autora: como artistas, as crianças têm poderes de telepatia. Por isso, são capazes de despertar quando a vida chama no folclore, nas lendas de sereias, nos sonhos promovidos pela literatura.

Para mim, o livro foi uma experiência de descobertas de identidade e de pertencimento. Esse processo muitas vezes é solitário e doloroso, mas Cidinha conseguiu transformá-lo em algo compartilhado e submerso em esperanças, a ponto de retomar ou mesmo ajudar a desenvolver um orgulho de ser que foi roubado da negritude brasileira e que é fundamental para a formação de nossas crianças.

Kuami é uma lenda sobre liberdade que, ao tratar da comunhão da vida, desde os peixes até a Lua, nos comove e convence de que “num mundo de amor”, seja no mar, na terra ou no ar, “tudo é possível”.

 

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