Uma menina da cor da meia-noite

Lupita Nyong’o. Sulwe. Tradução de Rane Souza. Rocco, 2019.

Sulwe nasceu com a pele da cor da meia-noite.

41h3qk2zQYL._SX260_Essa é a frase que abre o primeiro livro assinado por Lupita Nyong’o – a premiada atriz e diretora nascida no México, de pais quenianos, que vem se destacando por um ativismo político do qual a obra não se aparta: embora voltado ao público infantil, Sulwe não recusa abordar um dos mais complexos temas hoje presentes nas discussões políticas dos movimentos negros, que emerge já na frase supracitada. A questão é que Sulwe não é apenas negra; ela é mais negra do que seus familiares – sua mãe, que “tinha a cor da aurora”; seu pai, que “tinha a cor do crepúsculo”; sua irmã, que “tinha a pele da cor do meio-dia” –

Ela não se parecia com ninguém da família. Nem um pouquinho, nadinha de nada.

Sulwe também é mais negra que seus colegas da escola, que por esse motivo lhe conferiam apelidos pejorativos. O resultado disso é o isolamento. A menina passa a rejeitar sua própria cor, procurando de todas as formas clarear sua pele – usando uma borracha, maquiando-se ou comendo alimentos claros, por exemplo. Finalmente, num ato de desespero, começa a rezar, pedindo a deus um milagre:

“Querido Deus,

Por que eu tenho a cor da meia-noite se minha mãe tem a cor da aurora? Por favor, faça com que minha pele seja clara como a pele dos meus pais. Quero ser bonita de verdade. Não quero mais fingir que sou bonita. Quero ter o brilho do dia. Quero ter amigos. Meu Deus, se você estiver me ouvindo e puder atender ao meu pedido, quero acordar com a pele clara e radiante como o sol lá no céu.

Amém.”

A situação muda não graças a um milagre, mas devido à conversa que Sulwe tem com sua mãe, que lhe relembra o significado de seu nome (“estrela”, na língua luo). Após isso, a menina tem um sonho que lhe ensina a importância de reconhecer seu valor próprio, independentemente dos julgamentos alheios. Sulwe compreende que o mundo é seu lugar, não havendo motivos para que ela se esconda.

Por meio dessa delicada história, Lupita Nyong’o aborda o tema do colorismo – a discriminação racial que opera de modo particular sobre as pessoas de pele mais escura, que sofrem mais preconceito do que pessoas negras de pele mais clara. O que Sulwe deseja não é propriamente ficar branca; para ela, é suficiente ficar menos negra – com o tom de pele de seus pais ou de sua irmã, por exemplo. Tudo isso foi inspirado nas vivências da própria Lupita, durante a infância. Como Sulwe, Lupita tinha uma irmã mais nova que tinha pele mais clara, cuja beleza era frequentemente elogiada. Como Sulwe, Lupita rezava para que deus tornasse sua pele mais clara; todas as manhãs, ao acordar, ela corria até o espelho para ver se o “milagre” havia se realizado. Foi preciso muito tempo para que Lupita aprendesse a amar sua cor de pele – e, como ela afirma, foi para ajudar crianças negras de pele escura que ela criou Sulwe.

Para além da importância do tema e da sensibilidade da narrativa, cabe mencionar que Sulwe é um livro primoroso: as belíssimas ilustrações de Vashti Harrison dão vida à personagem, cuja história chega ao Brasil graças ao trabalho de Rane Souza, tradutora negra que verte a narrativa para o português com precisão, preservando a fluidez do texto original.

Esperemos, por fim, que as crianças com a pele da cor da meia-noite que habitam no país mais racista do mundo possam conhecer Sulwe, e que a personagem as ajude a perceber que também elas são pequenas estrelas.

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