Echar de menos

Lubi Prates. permanece,. nosotros, editorial, 2019.

a2379fa6-0fd6-4067-b025-84540731ccb7permanece, é um volume que reúne dez poemas da tradutora, poeta e editora Lubi Prates, que em 2018 estourou com o livro um corpo negro, em que versificou temas que nos são tão caros, como é o caso do famigerado racismo estrutural. Em permanece, lançado em 2019, a poeta nos apresenta um sujeito mulher negra que ama e que lida com uma das maiores complexidades que envolve este sentimento: a ausência. Afinal, permanece, é sobre ausência, e percebemos isso antes mesmo de folhear o livro – quando estamos, detidamente, a observar a capa, numa tentativa de conexão inicial, e então surgem algumas questões: por que é que as letras do título, à medida que são reescritas, vão desaparecendo e ficando cada vez mais imperceptíveis? O que é que permanece depois de longos e ininterruptos dias de chuvas? Posto isto, abrimos o livro em busca de respostas.

Deparamo-nos com um eu-lírico que se dirige a um você, o ser amado, estabelecendo uma relação entre corpo e continente, o que de modo imediato nos faz pensar em um contexto de diáspora e nos faz ampliar a ideia de corpo para algo além daquela casca física que vemos e cujas curvas tocamos; corpo aqui teria também a forma, a textura, as marcas e o gosto dos caminhos trilhados, dos “continentes que você percorreu/ hasta aquí, hasta llegar a mí”; o corpo não como algo definitivo, mas como uma forma em constante metamorfose, que depende, fundamentalmente, do movimento para ser tal qual é construído aqui. Na verdade, antes da barreira territorial, o eu-lírico rompe com a fronteira linguística; não é à toa que o título do primeiro poema está em língua espanhola, “hasta aqui, hasta llegar a mí”, o que nos devolve a essa ideia que estamos construindo de transitividade que gira ao redor da constituição desses corpos. Nos primeiros versos, ela canta: “você traz na boca/ todo o gosto do mar/ e eu tento adivinhar/ inutilmente/ quantos oceanos você atravessou”, o que nos leva a perceber uma busca pela compreensão dos caminhos que formaram e trouxeram esse outro, para, ao final, estabelecer uma proximidade que é ocasionada pela mudança de pessoa – o que antes era você, agora se torna nós: “fácil perceber então que/ atravessamos percorremos/ os mesmos oceanos os mesmos continentes/ hasta aquí”.

E é importante colocar que essa expansão linguística se estende até o segundo poema, “i love a black man”, que está, majoritariamente, escrito em inglês, mas que apresenta três versos em espanhol, o que mais uma vez reafirma essa percepção de corpos em movimento que sentimos ao ler esses poemas. A língua materna, que serve para descrever as sensações mais subjetivas de um sujeito, se torna insuficiente para sintetizar todas as emoções desse eu-lírico; por isso esse hibridismo. A propósito, é interessante debruçarmo-nos um pouco sobre este poema, afinal, “i love a black man” fala sobre o que é amar um homem negro dentro de uma sociedade fundamentada no racismo; fala das preocupações que circundam mulheres negras quando seus homens não estão sob seus olhos – no poema, essa preocupação se apresenta dentro de uma relação afetiva, entretanto, sabemos que ela é uma realidade na vida de mulheres negras em um âmbito geral, seja em relação ao namorado, ao pai, ao filho ou ao sobrinho – ou seja, é sobre um amor em constante ameaça pelo sistema; é sobre um coração em constante aflição e medo, um coração que só desacelera quando seus olhos repousam nos olhos do seu amor e se certificam de que ele está bem e seguro, ainda que momentaneamente, porque, no dia seguinte, a aflição volta a fazer morada. Quase ao final do poema, o eu-lírico se questiona se suas antepassadas também viviam nessa contínua sensação de possível perda – e é justamente quando os versos são escritos em espanhol, para marcar essa mudança de enunciador: quem fala agora são as bisavós, não mais o eu-lírico –, o que resulta em um discurso direto livre, gerando um impacto ainda maior em nós, leitoras, visto que nos aproxima da voz que fala, como podem comprovar nos versos que seguem:

no te olvides de llevar contigo tu carta de manumisión
no te olvides de llevar contigo la prueba de que eres humano
la prueba de que eres libre.

Depois que somos apresentadas a esse amor preto, a escrita começa a ser atravessada pela ausência dele, “é você/ porque é ausência”; o eu-lírico, embora, não tenha mais a presença física desse outro, deixa em evidência a permanência dele em sua escrita: uma escrita marcada por uma ausência física, mas que persiste como presença no corpo e na memória da voz feminina desses poemas, ao ponto em que ela nos dirá – na verdade, dirá a ele:

e é isso: tudo dói, meu corpo tem doído. todo o
dentro e as partes das quais não decorei os nomes e as
partes que começam nos buracos do ouvido, nos buracos
do nariz, no buraco da boca, no buraco da buceta.
talvez, o que doa seja o vazio de ter corpo.
será isso o que chamam saudade?
já não me lembro quando você foi embora porque você ficou.

No poema 7 – apenas três poemas dessa coletânea recebem títulos – percebemos uma ânsia por manter intacta cada lembrança, cada memória desse amor, e daí retomamos a noção de uma ausência apenas física. Talvez possamos olhar para esses poemas como sendo tudo o que fica depois da partida, uma presença-ausente – até porque sempre fica algo do outro, da mesma maneira que sempre vai algo de nós. Mas, aqui, a voz que nos conduz está obstinada a não deixar nada sair, mantendo em si, de maneira permanente, cada detalhe:

e inventei
um novo método de respiração
lento pausado
para não perder seu cheiro
dos meus pulmões.

Em “este lugar não é mais sobre você”, é possível perceber uma tentativa do eu-lírico de reafirmar uma suposta superação dessa ausência; entretanto, a tentativa em si recai na própria rememoração, ensejando a descrição de experiências que foram marcantes na construção da singularidade da relação amorosa, o que demonstra quão viva está cada situação descrita – afinal, “esquecer não é esvaziar a cabeça de lembranças”. Ou seja, as lembranças ainda estão pulsando por ali, e só ato de escrever sobre esse outro já contradiz a ideia carregada no próprio título, ao ponto que no poema que encerra o livro, a subjetividade lírica nos fala – melhor, fala a ele:

que este é o único país entre os
193 descobertos onde eu não vou te encontrar.
estou neste país para onde você disse que jamais viria. e,
ainda assim, eu te procuro.

permanece, é um livro recheado das complexidades que giram em torno do amor, esse sentimento que é o que ainda nos mantém sãos, mas que também nos tira do lugar de conforto quando nos lembra da ciclicidade da vida e, consequentemente, das relações. Por isso, lidar com a ausência de maneira embaraçosa, não querer despir-se de forma alguma das lembranças, ter uma vontade ávida de morar em cada lampejo de memória… todas essas questões me aproximam da voz feminina que nos canta os poemas.

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