Um corpo negro num país racista

Lubi Prates. um corpo negro. nosotros, 2018.

um corpo negro - capaLivro publicado em 2018 pela poeta, editora e tradutora paulistana Lubi Prates, um corpo negro nos faz viajar em uma espécie de máquina temporal que nos joga ao passado, mas que, repentinamente, nos devolve ao presente, como se o eu-lírico, sob a voz de uma mulher negra, caminhasse sobre essas duas linhas temporais; viagem que se torna possível porque, historicamente, esse passado pungente foi logo ali e ainda está com suas feridas abertas.

Com temas que passeiam pela construção de uma identidade de mulher negra, racismo estrutural e manutenção da memória, Lubi abre seu livro versificando sobre o desamparo, nos propondo a viagem temporal dita acima. Em seu poema mátria e/ou terra-mãe, ela provoca uma dualidade entre pátria e mátria, o que não apenas resulta em uma exaltação do feminino na figura da mãe – reafirmada no último verso, “mãe não cabe numa pátria” –, mas também revive em nós a memória compartilhada do tráfico negreiro:

não é mãe
se inventa um navio
quando te jogam
ao mar
se força as ondas
pra que chegue
mais rápido
ao desconhecido

A presença da memória é explorada em outros poemas, como em “Não foi um cruzeiro”, em que é exposta uma tentativa de apagamento dessa memória, tendo como ferramenta a desumanização que foi a escravidão: povos de diferentes etnias foram arrancados de suas terras, de suas famílias, de suas culturas e foram lançados no desconhecido, mais que isso, o desconhecido lhes foi imposto. Esses e outros poemas de Prates me levaram até Conceição Evaristo, que tem a memória como um elo em muitas de suas narrativas e versos, como em Vozes-mulheres, em que também é retratada essa memória do navio negreiro. A essencialidade de se trabalhar a memória está em que ela, além de ser uma reconstituição do que nos foi roubado e apresentar uma outra história possível, é também um mecanismo para ressoar a dor, o sangue, a objetificação do humano, para que não mais se repita.

O genocídio da população negra também circunda os versos de Prates. Vale lembrar que vivemos em um país que mata um jovem negro a cada 23 minutos, cerca de 63 por dia, números alarmantes que tendem a aumentar quando temos um Governo Estadual e Federal que visam dar o aval a polícia para matar. Segue o trecho de uma fala do atual Presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, retirada do site Uol: “Nós vamos brigar pelo excludente de ilicitude. O policial militar em ação responde, mas não tem punição. Se alguém disser que quero dar carta branca para policial militar matar, eu respondo: quero sim.”

Em uma sociedade em que a desigualdade parte do racismo estrutural, quem é que morre pelas mãos do Estado? Quem, majoritariamente, compõe a periferia? Quem, segurando um saco de pipoca ou um celular, sempre vai ser descrito pelo cidadão de bem e pela PM como bandido? Quem vai continuar morrendo, agora sob o respaldo da Lei?

É como canta MC Carol, em seu funk Delação premiada: “na televisão a verdade não importa, é negro, favelado, então tava de pistola”; ou os Racionais MC’s, em Negro drama: “me ver pobre, preso ou morto já é cultural”; ou como diz a própria Lubi, nestes versos: “eu sei que/ balas/ perdidas/ atingirão meu corpo/ este eterno alvo”. Há uma obviedade nas respostas para esses questionamentos – reiterada quando eu li, na manhã da mesma quinta-feira em que li o livro da Lubi, uma notícia que falava sobre a morte de João Victor Dias Braga, de 22 anos, que saiu de casa para trabalhar e foi morto em um tiroteio na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ele pode ter tido sua furadeira “confundida” com uma arma – que me fez chorar com os versos de para este país, principalmente quando ela insere no poema a fala de Marcos Vinicius, adolescente morto pela polícia militar do Rio de Janeiro em 2018. Chorei porque é uma realidade cotidiana, basta assistir os noticiários. Chorei porque parte de mim e parte da minha crença na humanidade morrem também. Chorei porque senti estilhaçar a nossa existência:

[…]
para este país
eu trouxe
meus orixás
sobre a minha cabeça
toda minha árvore genealógica
antepassados, as raízes
para este país
eu trouxe todas essas coisas
& mais
: ninguém notou,
mas minha bagagem pesa tanto.

Ele não me viu com a roupa da escola, mãe?
Marcos Vinicius da Silva, 14 anos,
assassinado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro

e ainda que
eu trouxesse

para este país

meus documentos
meu diploma
todos os livros que li
meus aparelhos eletrônicos ou
melhores calcinhas

só veriam
meu corpo

um corpo negro.

No título e nos primeiros versos de tudo aqui é um exílio, Prates faz referência ao muito conhecido poema Canção do exílio, de Gonçalves Dias; mas, de modo a desconstruir a ideia do “estar exilado” apresentada pelo escritor romântico, já que este eu-lírico falava desde um exílio voluntário – pois estava estudando em Coimbra, longe de sua terra natal. Uma noção de exílio adversa é apresentada pela poeta contemporânea:

tudo aqui é
um exílio,

apesar dos rostos
quase todos negros
apesar dos corpos
quase todos negros
semelhantes ao meu.

Nesses versos, o que se percebe é uma contínua sensação de não-lugar, embora esse eu-lírico fale a partir de seu país origem; uma sensação de não-lugar fomentada por tentativas de ruptura de memória, marginalização de culturas e corpos. Essa ideia nos leva até Marc Augé, com o conceito de “não-lugar”, apresentado em seu livro, Não-lugares: introdução de uma antropologia de supermodernidade: “Se um lugar pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se relacionar nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico se definirá um não-lugar.”

Para finalizar, nos detenhamos sobre essa ideia de exílio como consequência desse não-lugar, já estabelecendo uma relação com o poema meu corpo é meu lugar de fala – que de imediato evocou em mim a canção O que se cala, de Elza Soares, em que se tem o verso “o meu país é meu lugar de fala”. Partindo para a noção de corpo e país apresentados no poema e na música, percebemos que há uma delimitação maior proposta pela poeta, uma especificidade que marca e restringe corpos, e então podemos pensar no corpo da mulher negra como metáfora para este exílio – que não é geográfico; visto que, quando falamos da mulher negra, sabemos que várias questões atravessam seu corpo, como as questões raciais e de gênero. Esses questionamentos já haviam sido levantados por Sojourner Truth, em meados do século XIX, em seu discurso E não sou eu uma mulher?, e reaparecem de forma assertiva nos versos finais do poema de Prates:

ser mulher é
ser loira, olhos claros, nunca descabelar-se
é ter sangue escorrendo entre as pernas & não
[deixar que percebam mesmo que

você corra
você nade
você dance
[…]
eu descobri agora que
não sou uma mulher
sou negra, sou apenas uma negra

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